quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Sobre sonhos e vagões

Uma multidão
De luzes
De vozes
De gritos e amores,
encantos e desencantos.
Nunca para você, pistoleira. 


Perdida no metrô,

perdida na minha própria sombra. 
Eu deveria ser boa em ler mapas, mas eu acho que só sou boa em dormir e sonhar.
Aproveito-me do calor da lamparina para não congelar. 
Às vezes meus pensamentos são tão gelados quanto este ar que me cerca e que me queima de tão frio que é.

Espero.
3 minutos. Next and last stop... Não ouço o nome da estação.
Vejo o vagão se aproximar: é como entrar no vórtex da minha própria existência. 
Todas as minhas escolhas, tudo o que já me acontecera, todos os mínimos detalhes da minha vida me fizeram parar ali... Em pé, ansiosa, esperando o trem certo chegar. E neste ínfimo instante, questiono-me: Por quê? Pra quê? 
Não sei a resposta. E acho que nunca saberei.
Mas, quando reflito um pouco mais, parece algo bom. Talvez seja porque o céu está sem nuvens.
Sinto sede de aventura e sede pelo desconhecido... Ou talvez seja só a ressaca de ontem.
"Laisa, corre! Você vai perder o trem! Vai ser barrada e ficar flopada!"
Desperto-me. Corro desengonçadamente. Sinto medo da porta fechar exatamente quando eu estiver passando, já que eu definitivamente não faço parte da trupe dos mais sortudos do mundo.
Consigo um lugar, eba! Mais alguns minutos sentada. Ah, se fosse assim em São Gonçalo também...

Olho para a sujeira ao redor dos vagões. 
Leio uma poesia em um cartaz qualquer
Você deve acreditar no que está vendo, isso não pode ser um sonho.

Estamos passando debaixo do rio. Pergunto-me como isso foi possível. 


Faço uma analogia com a vida: estamos sempre ávidos a escolher o "melhor" caminho, mas a verdade é que nunca sabemos qual ele é. A gente até acha que sabe, e geralmente isso está relacionado com o tempo que leva para chegarmos no nosso "destino final". 

Se for a opção mais rápida, então é o caminho perfeito; se tem que descer do vagão, talvez não seja um percurso tão bom assim.... E se tiver que ir para outra estação... Certamente foi escolhido o caminho errado.
Mas é justamente esse o ponto a ser repensado.

Podemos pegar o trem errado e ter uma crise de risos por isso. Sim, isso é possível.
Se pegássemos o certo, talvez a gente só ficasse zapeando no celular, fazendo absolutamente nada. 
Ou, melhor... 
Podemos pegar qualquer metrô e ver o que acontece. Se não der certo, a gente dá um jeito. Sai da estação, vai a pé, dá a volta em vários quarteirões, ri um pouco mais, para no Starbucks pra tomar um café e congela. Mas o importante é saber que tentamos. Agora temos história pra contar (e talvez alguns passes ilimitados para gastar). 
Enquanto a gente não escolhe, tudo permanece possível.
Porém, quando tomamos uma decisão, tudo muda, click. O tempo corre. Sempre pra frente, pistoleiro, sempre pra frente. Nós não podemos voltar atrás, nunca. E muito menos go behind it, mas com certeza é possível contornar essa situação. Acho que é assim a busca pela felicidade funciona: felicidade não é um caminho de uma estação só, não, nada disso; é mais como o metrô de New York para turistas indecisos e meio desligados: é correr atrás, sair entrando em qualquer estação/vagão, errar, acertar por sorte, errar de novo, subir e descer escadas e até achar rabo de rato morto na rua; é ficar melancólico por uma música estar sendo tocada de forma desafinada ou chorar de rir por alguém ser barrada. 
É o caminho que importa.
A felicidade é sobre achar a beleza em um canto sujo só porque está mais quentinho.
É sobre milho virar pipoca e frango virar frango assado de padaria. 
É sobre conseguir capturar um gelinho, mesmo o gelinho não sendo neve.

Luzes que rodopiam, embaçadas... Preciso mudar o grau do meu óculos... 
Ah, como eu amo essa cidade.
Cidade grande, louca, rica, pobre, cheia de altos e baixos, uptown e downtown, frio e calor, amor e solidão. É estar tão feliz e contagiante mas ao mesmo tempo ser mais esponja do que tudo no mundo. Super saturada, sempre. Para o bem e para o mal.

É o paradoxo de se estar no meio de uma multidão ávida por compras, enquanto você só quer observar a magia e a pluralidade das luzes e dos telões. Só isso.

Pisco. Observo o vagão ir embora. Flopei.
Por um instante, o barulho do trem se aproximando soa como chuva de verão no asfalto. Sonho de saudade, eu acho.
Next and last stop...
Não ouço, perdi-me lendo um cartaz de poesia. Entretanto, resolvo entrar assim mesmo, só pra ver onde vou parar. 
Se der certo, deu certo. Se não der, a gente dá um jeito.


Passam-se alguns minutos. Sinto frio e sinto sono... Preciso dormir.
"Laisa, acorda, a gente já chegou... Você vai ser barrada." Eu e a minha capacidade de dormir e sonhar em qualquer lugar.
Acordo no susto.
Afinal de contas, chegamos!
Observo as luzes da cidade grande enquanto penso num cobertor quentinho e chocolate quente... 
Daqui a pouco já é hora de dizer adeus. De novo.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O vento por trás da fechadura

Se existisse um remédio para a tristeza, que ele poderia conter além de felicidade?
Se existisse uma cura para dor, que outra sensação além de alívio, poderia ser bem resolvida?
Se não existe outra solução para fome, além de comer… Por que há dias em que dormimos para esquecer o porquê do nosso estômago reclamar com tanto afinco?
Se eu posso dormir para não sentir mais dor, poderia não fazer isso para sempre? O que tenho perdido estando acordada, além de um mundo que não é nada além de decepcionante?

Se sinto-me presa em mim mesma,
na minha vida sem graça,
nas minhas esperanças destroçadas,
na minha rotina de não acrescentar nada…
Como poderia me libertar? 

Se viver não representa mais nada… Por que vivo, então?
Se existissem palavras para sustentar uma alma que vaga, perdida, na Terra, eu iria atrás delas: acontece que eu nunca fui uma caçadora.
Acho que você sabe disso.
Deixo tudo para lá, esperando que um dia passe… Há de passar, ou não irei aguentar.
Queria escrever para você, mas acho que, enquanto escrevo, sou você. 
Queria poder acalmar, mas há essa parte em mim, agora que sou você, que não quer fazer nada além de dormir. Minhas lágrimas acabaram.
Fecho os olhos, minha pele é negra e extremamente macia, vejo-me caindo de um precipício que não lembrava existir. Mas, se aqui estou, é porque me joguei.
Odeio-me. Sou tola. 
Havia algo lindo, antes. Havia a natureza, havia liberdade, havia esperança de que, do outro lado (agora eu lembro, havia uma ponte)
do precipício,
havia amor e havia a certeza de que eu era amada. 
Havia neblina, mas depois de muito esforço da minha problemática descrença da felicidade existente no mundo, a ponte era segura, e o caminho era o que importava.
Fui.
Com medo, mas com mais medo de me arrepender de deixar uma vida completa pela frente pelo simples medo de atravessar uma ponte.
Quais as chances dela cair justamente enquanto estou atravessando?
O que é, já foi. O que há de ser, também já foi.

Não lembro em que momento eu me entreguei. Mas, agora que caio, pergunto-me se o outro lado valeria mesmo a pena. 
Não existia natureza onde eu estava?
As águas não eram azuis, os pássaros não cantavam, não havia plenitude?
Eu não lembro.
Enquanto caio, só penso que estou caindo. Como subi no alto do precipício? Ele já não era familiar? 
Espera… Fecho, novamente, os olhos: mas não me lembro….
Havia mesmo um outro lado? Algum dia?
Havia mesmo alguma ponte? Não estou louca?
Não sei… Não sei de nada, só sei que caio.

Em mim, procuro alguma saída. Quero acordar do pesadelo, quero voltar a ser eu, aquela que tem uma gêmea, aquela que procurava palavras para aliviar a dor de uma amiga de longa data, ou ser eu, aquela que ri de tudo e faz piada, aquela que faz caretas e sorri de maneira engraçada… 
Não sei de nada, só sei que caio.

Por um breve momento, perco a vontade de nada: quero xingar, quero bater, quero viver, quero gritar. Guardo tudo, reagir com nada faz o precipício parecer apenas uma invenção… Algo que, com o tempo, vai passar.
Escrevo. Sou eu, novamente, em busca de palavras.
Se existisse um remédio para a tristeza, que ele poderia ser além de felicidade?
Por favor, doutor. Vê-me uma receita deste remédio, não aguento mais este nada que tem me ocupado.
Senhora, não faço nenhum milagre. Não existe receita para a tristeza. Não se compra felicidade. 
Então, como pode me ajudar?
Quais são os sintomas?
Não sinto nada. Fecho os olhos, quando acordada, e vejo um precipício. Eu caio.
Então… Nesse caso, existe algo. Mas vai dar algum trabalho.
O que é?
Resista. E ame.
Amar a quem?
Ame-se.

Se existisse alguma cura para a dor… Que seria além de sentir alívio?
Tempo.
Amiga, existe uma flecha. Dizem os Físicos que esta flecha controla o nosso universo. Tudo o que acontece, tudo o que fazemos, todas as nossas atitudes… Movem-se em uma única direção. De trás para a frente. Quando choro por um animal que entrou em extinção, é porque sei que é um efeito eterno. Uma ação, uma reação - e, então, a não existência. Quando escolho um caminho, não tem mais volta: se quero voltar e recomeçar, arrependida, tenho que saber que não recupero o tempo. O que isso significa?
A flecha do tempo segue sempre para frente.
Acertando ou errando.
Sendo feliz ou não.

Se pudesse não chorar, não amar, não achar ser amada, não sofrer… Eu escolheria isso. Se eu pudesse não atravessar o precipício, na ponte que não aguenta meu peso, eu não atravessaria mais. 
Entretanto…
O que seria eu, hoje, se tivesse escolhido apenas olhar o precipício, de cima para baixo, imaginando o que há do outro lado… E seguindo em frente, no meu próprio caminho, na minha própria natureza, que eu nem lembro se era belo de fato?

“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu.”
Já que cai, imagine o que não pode existir lá embaixo, quando abrir os olhos e perceber que a ponte lá em cima era só uma ponte para nada além do que você já tinha antes…
E se, quando tocar o chão, depois de todo o desespero da ideia de cair… Você não perceba que há vida lá embaixo? Que o mundo lá é melhor do que o de cima? Que tudo o que você passou não era apenas uma passagem para o que melhor havia para você na vida?

Agora que cai, você pode ser você. 
Depois de ter alcançado o chão, para onde mais você iria? Sei que deve pensar que há apenas escuridão, ou que há monstros lá embaixo, ou que não sobreviveria a queda.
Mas, depois de ter sido você, eu voltei a mim e posso te dizer: existe vida.
Existe luz.
Existe um outro mundo, agora que você está renovada e possui outros olhos, outros cheiros, outras emoções a serem sentidas… Mesmo que não queira sentir nada, nunca mais. A verdade é que tudo o que você quer sentir é
a felicidade de ser você,
alguma esperança de que existe um propósito por trás de toda a amargura, de toda a confusão, de toda a complexidade de ser quem você é… 
Não se perca em você: lembre-se das estações. Elas existem por um motivo, mesmo que não gostemos. No inverno, as árvores perdem todas as suas folhas. Passam por todo o frio, nuas: mas quando é hora de colorirem novamente… Elas colorem. Nem que seja enquanto durar a primavera.

Não tenho medo
Pois quando eu estiver sozinho
Estarei numa situação melhor do que antes
Eu tenho essa luz
Eu irei em busca de crescimento
Quem eu era antes
Eu não posso lembrar
Longas noites permitam-me sentir
Que estou caindo, eu estou caindo
As luzes se apagam
Permitam-me sentir
Que estou caindo
Estou caindo em segurança no chão
Ah
Vou aproveitar esta alma que está dentro de mim agora
Tal como um novo amigo
Eu sempre saberei
Eu tenho essa luz
E a vontade de mostrar
Serei sempre melhor do que antes

domingo, 14 de dezembro de 2014

Ar de maio, em dezembro

Sentir saudade do que não me pertence é mais doloroso do que sentir falta do que ainda é meu, mas que está tão-tão distante.
Não há nada mais amargo do que comer algo que faça mal, e ficar com esse sabor na boca.
Não há nada pior do que ser jogado para trás, sem o menor direito de defesa.
Se sinto tristeza, raiva, amargura, já não lembro mais.
O que me afeta, agora, é a saudade. Saudade do que não existe mais.

Você procurava por um tempo, eu resolvi dar o tempo todo. Cortei todos os fios que nos ligavam, em uma última tentativa de chamar a atenção: como quando você quebrou pratos para se desprender de um amor mal correspondido, ou como quando você chorou no banheiro por uma reprovação em Física. Aquele tipo de atitude que tomamos que não fazem sentido, que não irão trazer nenhum bem, mas que precisamos fazer mesmo assim, só para conseguirmos seguir em frente. Como toda ação requer uma reação.

Com o fio cortado, tudo o que vivemos se torna irreal, como se não tivesse existido realmente - ou pior, como se não fosse verdadeiro o suficiente para sobreviver a um oceano de distância e a 2 anos de amizade. Esse afastamento me faz lembrar do trio de esquilos e da ilusão que eles representaram: lembra aquele dia que comemos coxinha no centro de Niterói e tentávamos entender o que havia acontecido com a pessoa que julgávamos "líder"? Só podia ela ser a estranha, porque: olhe para nós! Juntas somos invencíveis...
É, acho que não. 

Busco um jeito de entender, mas não sei se o que aconteceu significa que tudo é passageiro mesmo, ou se eu fiz alguma coisa que desencadeasse esse corte: eu juro que tento lembrar, mas quando um nó é formado, nunca é fácil desatá-lo. Voltar ao estado original é praticamente impossível. É como mergulhar no mar e voltar seca, como quebrar um prato na parede e juntar todos os pedacinhos, como esquecer um amor mais intenso do que rock and roll -, ou esquecer uma experiência mais louca que uma música de Beatles.
A verdade é que eu não tenho ideia se você ainda se lembra de mim,  ou se eu ainda significo alguma centelha de amizade para você. Se existe algo inegável, isto é o fato de que nos acostumamos com tudo nessa vida... Inclusive com os desfechos ruins e inesperados. 
Não sei porque escrevo. Por todo esse tempo, eu queria que você pedisse desculpas a mim, e não sei nem por qual razão. Por ter me deixado? Ou fui eu que a deixei? Nada disso importa mais. Aprendemos com Harry Potter: malfeito, feito.

Eu só queria que você soubesse que não sei mais como me sinto em relação a você, eu só sei da saudade. Mesmo que este caminho não seja uma estrada de mão dupla. 
Quando lembro da sua existência (você sabe tão bem quanto eu dos meus problemas de memória e da minha habilidade de enterrar o que não quero lembrar), sinto alegria e tristeza ao mesmo tempo. Lembro dos seus lindos olhos azuis e da sua beleza que parava qualquer trânsito no Rio de Janeiro, mas que quando se via no espelho, se detestava tanto que era até toxico! Não sei se você ainda é assim.
Não sei se ainda compra amendoim quando está nervosa, ou se ainda desenha nas aulas quando está com tédio. Não sei se você está amando, se esta sendo amada, se ainda diz "tá, beijo, tchau" quando fala com a sua mãe ao telefone, ou se permite a si mesma um lanche da Lekadô depois de uma semana difícil. Não sei quem são seus amigos agora, se ainda puxa seus cabelos quando é dia de prova, ou se conversa com cachorros de rua em forma de latidos. Eu não sei mais quem é você, assim como você não sabe quem eu sou. Quando vim para cá, eu sabia que perderia o contato com muitas pessoas que no fundo não representavam tanto... Mas nunca imaginei que também perderia você. 
Só quero que saiba que eu, às vezes, sonho com você. Mas, ultimamente, estes sonhos têm sido só pesadelos. 
Quero que saiba que, por mais que estejamos tão distantes, tenho flashes de quando compartilhávamos nossas vidas uma com a outra: nossos sonhos, nossas frustrações, nossos amores, nossas risadas e nossas lágrimas. Até os medos, que na época pareciam tão... Infinitos... Hoje, sinto falta: pelo menos era alguma coisa, melhor do que nada. Sempre melhor do que nada.

Espero que esteja tudo bem. Que você esteja feliz, como eu tenho estado.
Espero que ainda seja tão verdadeira quanto era antes, que ainda seja doce e, ao mesmo tempo, dura. Como aquela rapadura que você tanto amava quando ia para a roça! 
Espero que tenha se encontrado em você, e se aceitado.
Espero que esteja em paz com suas promessas, com sua família, com seus amigos e com suas escolhas. Mas, acima de tudo, espero que esteja em paz com você. De verdade DE VERDADE.

Estando aqui, eu descobri que a vida não é sobre a nossa profissão, sobre a faculdade, sobre o trabalho. A vida é sobre viver, clichezão assim. É sobre nunca deixar de viver por medo ou por falta de tempo... Até porque, nós duas sabemos: tudo pertence à nossa mente. Não é só porque está na sua mente que não é real. 
O modo como vemos o mundo é reflexo de como escolhemos viver. Com amargura... Ou com amor. Com medo... Ou com a plenitude de se permitir estar bem, como a plenitude que a beleza de olhos azuis da cor de um oceano límpido em pleno ar de maio possui. Como a leveza de ser belo e não saber, ou de esperar uma música linda... E receber mulher profissional em troca.
Como seria diferente?
Existe algo mais sincero do que rir de nós mesmas,  até quando tudo dá errado? Já dizia o gato Cheshire: se não importa para onde vamos... Por que o caminho a ser seguido importaria?
Poop. Vai um passatempo aí? Bateu uma onda daqueeeeeelas.


(I miss your craziness and our happiness)

Pêndulo

Escrever sobre amor é escrever sobre o que não existe.

Eu já não lembro como é não te amar.
Já não lembro como é acordar e não pensar em você.
Não sei mais o que é um gato sem me lembrar das suas patas de feijão, dos arranhões, das mordidas de uma selvageria doméstica que nunca aconteceu.
Não sei o que é dormir sem lembrar do seu sorriso meio tolo, ou de alguma bobeira que você disse durante o dia.
Até mesmo quando te odeio, amo-te.
Quando estou sem paciência,
quando desabo na minha própria montanha russa,
quando me perco na minha consciência... Eu lembro de você.
Conheço a ti, sem conhecer. 
Eu misturo as pessoas e os pronomes, não há concordância no que crio. "Há algum tempo, mas sem atrás," você me diz. 
Sem atrás, eu ataco, por pura defesa: não sou boa nos pixels,  nas promessas e, muito menos, nas palavras. 
Fecho os olhos, em busca de lembranças... E tudo que eu enxergo é um pêndulo. 
(E ecos de "eu te amo", suspirados, através de uma tela de computador).
Escrevo, mas deveria estar estudando. Não consigo parar de visualizar um tal pêndulo (e ecos de um possível amor, e patas) com um vai e vem infinito que só pode significar uma coisa: tempo. Sei que, para você, vai e vem é muito mais que isso: até que eu tento, mas é impossível alcançar tamanha peculiaridade. 
De todas as coisas que eu odeio em você, a pior delas é saber que eu nunca vou te alcançar no quesito líbido.
Não sei mais o que é pensar em futuro sem pensar em você. 
E, de todas as coisas que eu odeio em mim, a pior delas é saber que eu nunca sei como vou estar: daqui a algumas horas, amanhã, ou daqui a uns anos. 
Eu já não lembro como é não ter medo de te perder. O estranho é que, ao mesmo tempo, eu não lembro quando foi que te prendi em mim. 
Há algum tempo (SEM ATRÁS!), eu costumava ler que o amor bom era o amor fácil; e você apareceu, de repente, como quem não quer nada: "o que tem para mim, sexo ou amor?" 
Diziam-me que só é possível esquecer um amor com outro, e eu nunca aceitei isso muito bem. Eu só queria esquecer a minha tristeza, é verdade, mas não queria esquecer tudo que havia vivido. Não é justo substituir pessoas assim, mesmo que elas nos tenham feito mal... Porque, ora essa... 
Já não lembro quem eu era antes de ser assim.
A cicatriz que eu via todo o dia quando olhava no espelho, como um lembrete para eu não cair novamente, nunca mais... Até aceitar que a vida continua. Limpar a cara de noite, colocar uma maquiagem de manhã. Pouco a pouco: como quem nada quer além de disfarçar uma queda, umas imperfeições e uma vida incompleta. 
Já não lembro mais o que é me ver no espelho e não ver você, não apenas comigo, mas em mim. 
De distração e maquiagem... Para meu consciente, meu inconsciente, para minhas ações.
Você me deseja nua, mas não sabe que eu nunca estou vestida para você. Permito-me ser transparente, tal como um lago nunca antes tocado pelo homem possa ser; mas, quando vejo o meu reflexo na água, sou tão distorcida quanto é possível ser, ou não ser. Jogo pedras, e elas sempre afundam: nunca consegui que elas quicassem mais de uma vez sequer. Fecho os olhos, e vejo um pêndulo que, ao contrário do relógio, não marca o tempo que já passou: apenas indica que ele não deixa de passar em nenhum momento. 
Uma confusão em mim. De mim. Para nós: não é um relógio, não é uma bomba, não tem TIC ou toc. É um recado silencioso de que o tempo está passando, sempre para frente, pistoleiro: acertando ou errando, sendo felizes ou não. 
Escolheria ver o futuro, se pudesse, para saber se haverá dor, se haverá traição, se haverá paixão, se haverá casamento. Veria o futuro, se pudesse descobrir se há mesmo um futuro por trás de toda a ideia, de todas as patinhas, de todas as leituras através das telas de computador. 
Já não lembro porque entrei nessa: se a intenção era me distrair, vejo televisão ou leio algum livro qualquer. Mas... E agora que aqui estou? Presa no presente, sem acesso ao futuro, e moldada pelo passado? 
Fecho os olhos... E rio. Ouço uma música no fundo, um rio sem fim se movimentando: pelo menos não enxergo notas musicais no ar. 
Às vezes, admito, vejo algumas palavras, uns flashes da infância e cálculos numéricos. Muitas vezes, entretanto... Vejo você, comigo, fazendo brigadeiro ou lendo Fernando Pessoa. Vejo a gente dançando forró no domingo, depois de ter arrumado a casa ao som de Pink Floyd ou de termos feito amor na cozinha enquanto você preparava o almoço. Às vezes, dói quando eu lembro que estou imaginando tudo e que há um oceano no nosso caminho: mas, mais do que isso, existe o tempo com todo o seu poder de carregar tudo o que há. 
Eu já não lembro porque escrevo. 
Acho que só queria dizer que eu te amo. 
Hoje. 
Mas sei que o tempo, relativo como uma face na água é, pode mudar tudo. O tempo como um vento, Ka..ka: uma brisa que refresca no verão, ou uma tempestade que destrói casas e cria furacões...
Posso já não me lembrar de muito, mas não esqueço o que você me ensinou uma vez: Eclesiástes 3.

"Que sera, sera. Whatever will be, will be. The future is not ours to see, que sera, sera."

Flecha do Tempo

Vendo palavras no ar como quem vê notas musicais. 
Hoje, li que em um universo paralelo a flecha do tempo voa de frente para trás. 
Quando penso em tempo, só penso em você.
Sinto-me uma eterna tola, às duas da manhã, tentando transformar palavras vistas no ar em algo com sentido.
Agora entendi o lance do Hobbes: o meu tem sido fazer uma sopa de letrinhas pra você... Ando cada dia mais gorda.
A cada período completado pelo pêndulo, você se parece mais comigo do que eu consideraria "saudável". Um punhado de pessimismo, um punhado de lágrimas e uma pitada de risos. Misture tudo com água: o almoço está servido! E a janta! E o café da manhã! E o lanche da madrugada!
Quero emagrecer... Existe algum sorvete para isso? Quero sorvete de você, todo o dia, toda a noite, quero calda de chocolate e leite condensado... Quero dividir todas as minhas refeições com você,  e quero que você divida as suas comigo.
"Não há palavras pra você." 
Eu concordo: quando tento escrever para você, sempre volto para mim.
Mal me lembro dos seus olhos verdes ou do seu sorriso bonito... Mas não esqueço o sussurro (aquele eco que, em dias trouxas, compartilhamos.)
Como é possível te amar, mas beijar outro e não lembrar de você?
O que eu poderia fazer? Eu gosto da aventura, da sensação de estar perto, de ser levada por um estranho a um lugar novo, desconhecido. Às vezes, culpo-me, embora sinta que estou certa. Você provavelmente está apenas à espreita de algum sinal para seguir, para me deixar pra trás, para ser feliz com alguém por aí. Não o culpo.
Amo quando você toca a sua guitarra, mas queria que estivesse tocando a mim.
Odeio quando você desaparece, sou tão egoísta... Qualquer desatenção me faz sentir vulnerável. 
Amo quando eu choro por você... Dentre todas as lágrimas que já derramei por amor, as únicas que não possuem essência de tristeza são por sua causa. Lambo-as, mas são salgadas como todas as outras lágrimas, derramadas por todos os outros motivos. Que idiota eu sou! 
Odeio quando eu choro por você... Externalizar sentimentos é fazê-los mais reais, palpáveis. Segundo o corretor, ando inventando algumas palavras. O que posso fazer?
Palavras ditas possuem vida. Para sempre. O amor um dia acaba, mas o que o amor criou, não morre nunca.
No momento, uso você. Escrevo esperando o sono vir. Se pudesse escolher com o que sonhar, sonharia com você e passenger pigeons. 
Estes pássaros um dia foram os mais abundantes dos Estados Unidos. Hoje, já não existem mais. Um por um, foram caçados, mortos e vendidos por um centavo cada. 
Quero sonhar com estes pássaros azuis, vivos. E você, numa vitória régia. E nós, em algum parque nacional, ouvindo os pigeon cantarem as músicas que os pássaros cantam. Contamos as estelas no céu, durante a noite. Observamos o pôr do sol, no crepúsculo. À tarde, mergulhamos no rio que nunca para de correr. Discutimos sobre suas águas. Nossas filosofias divergem: você acha que o rio é o mesmo, enquanto eu acho que ele é novo a cada instante que passa. Na aurora, eu durmo, e você contempla o nascer do sol como se houvessem notas musicais conosco. Respiramos o mesmo ar, e o tempo parece nunca passar: fecho os olhos... E não existe pêndulo algum. 
Acordo, e sou uma tola. Você quer carne, eu quero alma. Nem sei se você acredita nisso, pra começar.
Eu deveria me expor menos... Sou uma árvore sem folhas no inverno, esperando o verão chegar. 
Queria ser infinita... Infinita pra você. Como a primeira pegada do homem na lua representou um avanço na ciência, como uma mulher que planta mil árvores pode fazer a diferença, mesmo que desconhecida e num continente esquecido.
Tenho vivido ao invés de apenas existir. Desejo felicidade para você tal como desejo para mim. 
Desejo que não tivéssemos mais medos, e que eu pudesse lhe prometer que o amaria para sempre, como se fosse dona do Tempo. Mas ora essa, como poderia? Não recupero nem uma foto... O resto então, eu já nem penso.

Hoje, li que o Big Bang pode ter formado dois universos possíveis: o nosso, que vai do passado para o futuro; e um paralelo, com a flecha do tempo apontando de frente para trás. Nesse universo, ao invés de haver tudo tendendo ao caos, ao espalhamento, à entropia... Tudo está ao contrário: a tendência é para a ordem, para a junção... Do futuro para o passado, como juntar cacos de vidro de volta ao copo, como salvar os pássaros da extinção, como ver estrelas morrerem antes de nascerem, como mergulhar em um oceano e ressurgir seca... Como ter você, e só então te amar. 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Uma canção pra vocês

(de um século atrás)

Podia pensar em mil coisas pra escrever aqui.
Frases motivacionais, textos gigantescos, como acho que já fiz.
Mas a intenção basta... Então, eu só tenho que convidá-las a remar comigo.
Remar contra essa maré de melancolia que nos puxa cada vez mais para baixo, contra esse desespero de crescer e de ter infinitas responsabilidades, contra esse oceano de incertezas.
O lago da tristeza encanta; é desesperador não conseguir desviar os olhos.
Porém, há sempre um brilho de estrela que nos cativa, um uivar de urso que nos tira do sono profundo, um abraço caloroso de amigas que se conhecem tanto quanto é possível na vida.
Muitas brigas, muitos desencontros, muito cansaço, muito caos.
É tudo isso o que a gente é, mas somos bem mais também... Somos um formados de muitos. Ka-tet.
Somos esponjas encharcadas do mundo, saturadas da vida que nos rodeia e nos pisa, e pisa aos outros, também.
Queremos desesperadamente mudar, mas não sabemos como.
Ora essa, é tão simples. É? Vamos fazer uma lista com nossos prós e contras. Qualquer coisa é válida para sair da nossa esmagadora rotina.
Acho que no fundo não estávamos preparadas pra isso. Sair do nosso mundo particular, por mais simples que pareça, cansa. Faz-nos pensar demais. Faz-nos querer voltar a ser criança e discutir coisas pequenas como maquetas malfeitas e fanfics de bandas.
A vida é uma só, mas nós temos 5 para sucumbirmos junto. E também para nos erguemos junto. Coincidência? Destino? Ka?
Se isso é algum tipo de provação, acho que nós já vencemos...

Nossa missão é continuar a nadar, é buscar o que é novo, o que nos faz sentir vivas e amadas.
Somos tão diferentes, mas nossos quebra-cabeças possuem peças iguais.
A vida nos tornou amigas, e, assim, estaremos juntas para o que der e vier.
Não é um pacto. É um fato.
Meu corpo, minhas regras. Suas dores, minhas dores. Nossas dores.
Para sempre.

Lutem para sair do limbo, o nosso limbo. O seu limbo.
Quando tudo parecer impossível de mudar, lembremos de uma coisa.
Todo o resto pode parecer errado, mas isso é tão certo quanto eu trapaceei no gráfico de lerdeza durante a sexta série (confessei): nós não estamos sozinhas, porque temos umas às outras.


quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Sobre o solstício que se aproxima

Sonhos nunca são em vão, nem mesmo quando não me lembro deles.
Fecho os olhos, e forço a memória: o que deixo para trás no meu inconsciente? 
Durante o dia, avisto apenas alguns vislumbres do outro lado. "Pisque e você está morto". Pisco lentamente: um misto entre desafio e fraqueza, e não só continuo viva como também posso ver o que está além do que minha mente tenta esconder a qualquer custo. 
Um engarrafamento, uma estrada tortuosa na montanha, e eu: descalça, sem fôlego, subindo à pé desesperadamente entre tantos carros parados. Não entendo nada, tudo está debaixo d'água. 
Será que é assim que eu morro? Afogada... Mergulhada... No mar que eu mesma criei, na imaginação que me perturba durante a madrugada.
No outono, mas com um frio típico do inverno.
Achei que já havia sentido frio antes, nunca me iludi tanto. Não há nenhuma roupa que eu vista que realmente me mantenha aquecida: observo as folhas; árvores têm nomes, como humanos, mas cada uma é uma, mesmo sendo todas apenas árvores perante os seres pensantes. 
O frio queima, a insônia dói. 
Permito-me ser vista, tal como as árvores se deixam ser identificadas com um certo livro e uma certa estratégia, mas sou tão confusa que posso ser mil em apenas uma, e nunca como gostaria, especialmente nunca como gostaria. 
Estas folhas são simples ou compostas? Não consigo descobrir, o vento sopra as folhas para longe. Como poderei identificá-las, então? Se as folhas mudam conforme as estações, como é possível que, ainda assim, formem uma paisagem digna de plena e maravilhosa admiração? 
No jardim, há folhas de todas as cores, flores de todos os aromas, incluindo o aroma de nada: apenas de ser, de cumprir o seu papel, de transformar algo tóxico no ar em substâncias necessárias para viver, na energia para continuar, seja lá para onde e porquê, apenas fotossintetizar. 
Está tão frio que é difícil respirar. Mal consigo me mover de tão vestida que estou. E, ainda assim... Onde está meu calor? "Eu estava perdido no escuro e você me encontrou. Eu estava com calor – com tanto calor – e você me deu gelo"
Durmo de sutiã, de bota e de cinto. Incomoda, mas não perco hora de sono por algo tão banal. Se, quando tiro, sinto-me melhor,  sei que é apenas algo passageiro. O conforto "acostuma",  assim como a dor, a confusão e o amor são facilmente adaptáveis. 
As festas surpresas me causam vertigem até a hora em que eu descubro que deu tudo certo ou tudo errado.
Subo a montanha, não sei se nado ou se ando.
 Faz alguma diferença, no final das contas? Se estou a pé, descalça e subindo, por que um engarrafamento está me atrapalhando? Não é para mim, ainda bem que eu saí dessa estrada. Talvez eu saiba, lá no fundo, que estou apenas à deriva em busca de alguma identificação, em uma estrada inundada de água que não haveria como existir se não fosse por mim mesma. Como árvores em um dia de outono, que perdem todas as suas folhas pouco a pouco, dia após dia mas, ainda assim, querem ser descobertas. 
Mas eu sei... Não é possível saber tudo. Nomes são apenas nomes, senhoras árvores. Deixem-se levar pelo vento, mas não se entreguem ao frio. Sei que quando uma árvore está nua é quando mais precisa de suas folhas, mas faz parte da natureza se deixar ser levada para, um dia, quando a primavera se aproximar, poder retornar, fortalecida.
As estações não podem ser evitadas. Não só de verão vive o mundo, e nem apenas de noites calorosas vivem as pessoas.
Demoro, mas aceito o frio de hoje.
O outono é lindo, mas tem seu custo: assim como não há sorriso que não seja acompanhado por lágrimas de vez em quando. É só olhar para o chão para entender: tanta vida, colorida, derramada... E as minhas queridas árvores esperando serem amadas: ainda que nuas, tristes e, aparentemente, sem vida.

Old Main, University of Arkansas

Pela primeira vez em muito tempo, não sei  o que dizer. Escuto o silencio, em mim. As palavras foram cortadas antes de saírem. Eu mereci. Quem não aceita a vida, é cegada por ela: seja pela escuridão ou pelo excesso de luz. Sem amargura, sem veneno. Apenas uma singela tristeza de outono: quando as lindas e coloridas folhas caem e deixam as árvores vazias para o futuro. No frio. Fecho os olhos, em busca de lembranças (paz). Tudo o que eu enxergo é um pêndulo, uma porta, uma chave. Desta vez, não é sobre pistoleiros e torre negra, é sobre mim. 
Sou a última a sair (entrar): fecho a porta, tranco-a. 
Agora estou segura novamente (em mim). 
Só não sei se, desta vez, queria estar.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Outono

Nova postagem. Meu recorde; nosso recorde.
Uma de minhas músicas favoritas tocando.

The killing moon will come too soon...

Difícil falar qualquer coisa depois de me afogar em um dos mais lindos oceanos de palavras. 
Certas coisas não tem como dizer apenas um "obrigada", mas qualquer coisa além disso é impossível.

Rotina nova. Deliciosa.
Rotina nova que se tornará velha.
Em breve, se apagará da minha memória, como tudo que de certa forma já passou por mim.
Assustador perceber o quão momentâneo tudo é. 

Fecho os olhos.
Curto a música. Não quero que acabe. Nada disso é real.

Medo do futuro. Medo de sentir medo... de viver em vão.
As coisas seriam tão simples se eu fosse simples.
Preciso decodificar o que está implícito nessa equação. Falta algo, a gente já conversou sobre isso.
Defeito de fabricação, talvez? Prazo de validade vencido? Às vezes o vazio é maior que a distância entre duas estrelas, mas fazer o quê? Eu faço o que está ao meu alcance.
Ou será que não?
Fugir é minha palavra de ordem. Ou talvez esperar. Eu não sei. Espero pelo nada. Não há conforto nisso.
Mais não's do que sim. Nenhum sim, essa é a verdade, eu estou enganando a quem?
Achava-me fria. Mas talvez não... talvez eu esteja apenas... congelada no meu próprio mundo.
Presa na tal caixa. Como um gato. Vivo e morto. 
Vivo.
E.
Morto...

Perdi-me nos meus pensamentos. Bagunça, caos, entropia... organização. Tudo tem um sentido, tudo tem um motivo, uma explicação; pelo menos eu espero que sim. Mesmo que a peça do meu quebra-cabeças esteja perdida para sempre no espaço-tempo.
Não há nada mais terrível do que um quebra-cabeças incompleto; é um puzzle sem fim. Destrói aqueles que são mais sensíveis, aqueles que são esponja... 

"Fate... Up against your will... Through the thick and thin."


Cada palavra dita, aquele sentimento de: eu já fui melhor nisso.
Falta-me inspiração. Ora essa, as árvores com as folhas coloridas e caídas no chão que une o velho e o novo não significam nada?

Eu olho, tudo está verde.
Pisco.
De repente, vejo cores: vermelho, laranja, rosa, amarelo...
Algumas não conseguem resistir.
Pergunto-me para onde vão toda a vida presente nas folhas caídas, as mesmas que nos fazem pisotear nelas... como se não fossem nada.
Mas elas são alguma coisa. Essa morte representa beleza.
A limpeza da natureza - todo o encanto do processo da vida, logo ali. 
Minha mais nova temporada favorita. Eu esqueci como a gente chama "season" em português, algo me diz que não é como se fosse uma série de televisão.

Sinto-me sufocada.
Ignoro tudo e todos. Meu tempo, minha bolha particular - meu momento de permitir-me ser eu mesma. 
"Ora essa, eu sempre sou eu mesma."
Sim.
Mas às vezes eu esqueço disso... Há tanta coisa acontecendo, e
ao mesmo tempo,
tudo permanece igual.

Outono: tempo de ser feliz. De agradecer por estar aqui a cada instante e poder observar a magia das cores e do chão colorido pelas folhas caídas.

A simplicidade como a escapatória fugaz do mundo-cão que é lá fora.
Do mundo que, desculpa, não é nada cor-de-rosa.
Do mundo em que a gente deposita fé nos Humans of Earth, mas que muitas das vezes eles agem mais como vogons estúpidos que só estão interessados no seu próprio umbigo.

Aquela sensação de "as coisas poderiam ser tão fáceis e certas como as folhas caem no outono". Mas não é assim. Nem na minha terrinha é assim

Sinto-me uma criança com olhos de águia. E dentes afiados, sempre pronta para destruir alguém com a minha sinceridade cortante. Nunca intencional, mas nunca pensado também. Odeio-me um pouco mais.
Ansiosa para que a neve chegue.
Gosto da beleza do outono e desse clima posso-usar-vestido-mas-também-posso-usar-casaco.
Mas agora quero mais o novo, quero desafio.

Odeio frio, achava que gostava, mas curtir algo diferente também faz parte do aprendizado.

Zero a minha redação.
Fugi do tema.
Que tema?
Os temas livres são sempre os mais complicados - falo sobre oceanos, quebra-cabeça e outono, e nada faz sentido. Algo está incompleto.

É a peça perdida... eu sou a peça perdida?
Aquela peça que nunca vai ser encontrada, porque simplesmente não é pra ser.
Sempre procurarei, e nunca encontrarei.
Tenho que lidar com isso. Lidar com meus nervosos, minhas paranoias, meus medos e anseios. Tenho que lidar com o fato de que a vida pode ser tão vazia quanto um domingo, mas que sempre é possível revirar um quebra-cabeça de mil peças a procura de solução - apenas pelo prazer de encaixar, de fazer ter sentido, de se sentir parte de alguma paisagem pitoresca ou embalagem.

Agora o defeito de fábrica tem ainda mais sentido. A peça sempre esteve faltando.
Rio um pouco - só um pouco.

Talvez isso seja o Nexo de tudo. Aquela hora em que você percebe que, mesmo que as coisas não pareçam reais ou relevantes, elas representam alguma coisa. Mesmo que quebradas... elas estão ali por um motivo. Pode ser uma paisagem faltando um pedaço de uma árvore em pleno outono, pode ser a falta de uma porta (para outros mundos) no casebre rosa de fim de estrada. Pode, até mesmo, ser a falta de um cara no alto de uma torre negra ou de um amor que nunca veio a existir... A verdade é que ser incompleto pode fazer parte do pacote, desde o começo e para sempre. Não devo temer isso.
Algumas pessoas são destinadas a ser assim.

Sinto-me mais leve.
Não digo que sou incompleta; não sou, não totalmente. É só que a busca por algo que nunca existiu - e isso pode ser qualquer coisa, como uma pecinha de lego, um sentido para tudo, uma razão para a existência - é a força que me propulsiona. Mesmo que eu saiba que nunca vou encontrar. Esse tipo de coisa só funciona quando a gente não está procurando, e isso obviamente não é o caso aqui.
Quando a gente menos espera, a verdade vem à tona. A touca perdida é encontrada; a meia é dada, e, assim, somos libertados. A verdade pode até ser descoberta, mas a Pergunta... ora, a Pergunta está intrínseca em todos nós, e é só isso o que importa.
O resto é para os loucos, que, como eu, nunca estão satisfeitos com respostas simples. 
Estou disposta a me afogar no oceano da própria existência apenas em busca de algo que não existe, ou, se existe, não pode ser encontrado; apenas pelo prazer da procura, da espera de um dia o quebra-cabeça ser finalmente encaixado... Aquele dia em que eu olharei para a paisagem tosca da embalagem de papelão e sorrirei, como quem diz "eu só estava fazendo isso por fazer, não é nada demais".
Aquela risada sincera de quem é viciado em completar coisas e buscar sentidos da existência por aí.
Gente que olha pela janela do quarto e vê um mundo lá fora, e sorri, e chora, porque é esponja mas também é humano e também é dançarino.
Gente que é feliz pela ideia da busca, e gente que também é triste por pensar demais. Sou os dois.
Feliz e triste, vivo e morto. Morto por pensar demais, e vivo por pensar demais. Em ambos os casos, estou no lucro - sempre há o que ver. Há tanta coisa lá fora.
Faz parte da minha natureza ser assim (meio louquinha). 


Não odeio tudo sobre você. É só aquele período do mês em que até as folhas coloridas caídas no chão me fazem chorar porque é tudo lindo demais. Amo tanto você que me sinto um oceano de tanta loucura só em pensar nisso. rommie, sister, best friend. troy&abed in the morning, remember?

Mais uma das minhas músicas favoritas toca.
Love will tear us apart... again.

Hora de dizer até mais - e obrigada pelos peixes.

Eu queria que a trilha sonora acabasse logo, para ouvir mais uma música que amo tanto quanto eu amo arroz com feijão, estrelas e nuvens que parecem algodão-doce.
Aquela música que é linda mesmo que o mundo seja louco.
Como eu.

(louca, não linda *hahahha*)

"All around me are familiar faces
Worn out places
Worn out faces
Bright and early for the daily races
Going no where
Going no where
Their tears are filling up their glasses
No expression
No expression
Hide my head I wanna drown my sorrow"





Ecos

Se eu não faço sentido, como minhas palavras poderiam fazê-lo?

Sem alarmes e sem surpresas, por favor. 
O oceano no começo do caminho reflete o tempo: uma face conhecida; a minha própria cara: borrada, confusa, disforme e levemente perturbada pelas ondas. O que parece ser não é necessariamente o que é. O que pareço ver não desvenda o que há por trás da escuridão. Quantos mistérios o oceano não esconde? Seu azul, seu frio, sua vida. Parece infinito, mas não é. Parece perpétuo, mas eu sei que um começo requer um fim. Fecho os olhos, em busca de lembranças: antes era tão singelo, tão simples, tão leve como uma brisa que vem do mar... 

O vento carrega minha própria loucura. 

Escuto o silêncio. Em mim, ouço o barulho das ondas. Na minha imaginação, avisto um barco. Neste barco, há uma criança. Se, para ela, uma concha encostada no ouvido ecoa o mar, mesmo que na casa da avó em plena cidade grande, por que a memória de uma vida idealizada não ecoaria por meio de lembranças que eu nem sequer podia imaginar ainda lembrar? A maré cheia e a maré baixa, quase consigo sentí-las em mim... Em um momento, estou completa. Noutro, vazia, apenas cheia de mim. O perfume é de pura nostalgia, com a fragrância de quem eu era, mais perdida do que nunca, por mais tempo do que gostaria.

Agora, não sinto nada. Por muito tempo, esta era a minha única vontade na Terra: que a maré abaixasse, que o mar esvaziasse, que eu me tornasse uma ilha de mim. Apenas eu, e o mundo, e o mar que não dependia de ninguém. 

Eu consegui.

Flutuei como um continente, independente.
Pedaços de terra que eu nunca entendi. Estão eles soltos ou fixos ao mar? São vazios de água ou cheios de terra? Profundos ou rasos?
Eu achava que podia ser misteriosa como o oceano, mas identifico-me mais com a complexidade e dualidade da terra. Na praia, ondas do mar e partículas de areia.
A zona costeira abriga grande parte da vida. 
É lá que eu mergulho. 

Fecho os olhos para que o sal não me machuque, e tento me encontrar na natureza enquanto não posso enxergar com meus olhos cegos de humana... A minha audição está incrível: sei que, por aqui, o som caminha mais rápido que no ar. A minha vontade é sorrir para mim e rir de mim, mas tenho medo de me afogar.
Parte de mim sabe que isso é impossível. Como não seria? Eu faço parte do mar.
A confusão é o que me move, meu caos é a minha barbatana para seja qual for meu destino. Por um momento, quero ser peixe e viver só por sobreviver e ser feliz assim. Em outro instante, quero ser eu e abrir os olhos na escuridão: a dor da água nas minhas pupilas era prevista, mas saber da dor não a impede de acontecer mesmo assim. O que fazer? Deixar de nadar por isso? De enxergar no escuro por medo da falta de luz me queimar?
Abro os olhos, e o caos que eu esperava era na verdade lindo e caloroso. Eu posso ver o contrário acontecer, um flashback da minha própria visão que, em um dia triste, já me fez chorar: um tubarão sem barbatanas se afogando no próprio lar - cercado com seu próprio sangue. Depois, avisto um pescador com o tubarão nas mãos, gélidas e cruéis, e não entendo o que está acontecendo: a desordem cronológica, há de ser... Eu não estou aqui, isto não está acontecendo. Por fim, enxergo este mesmo tubarão, no seu antes que, agora que sou o mar e vivo nele, é depois: cheio de vida nadando livremente no seu próprio mar.

Eu vi o tempo de frente para trás: relativo, subjetivo e intrigante, como o reflexo de uma face na água.
Se eu não usasse óculos, diria que este reflexo era meu com toda a certeza como a vida é tão absoluta quanto a morte. Mas eu, por natureza, vejo tudo distorcido: nunca estou certa de absolutamente nada, ou de relativamente tudo. Não sei se sou o mar ou a terra, se estou satisfeita ou se sou insaciável. Quero ser livre de mim mas, ao mesmo tempo, não quero estar presa em alguém que não seja eu.
Aceito o seu pedido de jantar, mas estou bem beijando outro.
Considero a sua oferta de casar... Mas o que exatamente isso quer dizer? Eu não sei cozinhar, só sei comer. Você sabe disso tão bem quanto eu, você enxerga a Verdade como se fosse um Deus. 
Minha mãe sempre me dizia para não confiar no mar, porque ele é traiçoeiro. Ela está certa... Mas, e se eu quiser me jogar? E se eu for o mar, e não terra, como pareço ser? Não confie em mim, não sou suporte: sou o mar, não tenho cabelos para impedir ninguém de se afogar.

Nem tudo o que parece, é.
O gato da caixa está, afinal, vivo ou morto? Pelo que aprendi, até abrirmos a caixa, ele morre e vive ao mesmo tempo.
O que isso diz de mim? Sou eu um gato?
Preso na minha própria caixa?
Na minha própria concha, perturbada pelas minhas próprias ondas?
Eu não sei. 
Sei que eu amo, sei que sou amada, sei que já amei. 

Esqueci suas cartas. Desisti da sua amizade porque você não tinha tempo para a minha. Fechei-me em mim, engoli a chave, e estou bem assim.
Entretanto... Há um vento por trás da fechadura. De onde vem? Deste mundo ou de qualquer outro insignificantemente existente? São ecos, não tenho dúvidas. Ecos do que? Do presente, do passado, do futuro? De um amor mal resolvido? De um amor bem definido? Ou de pedaços de amores, retalhos meus e seus, sentimentos nossos que não fazem sentido algum separados, mas que juntos também não significam nada? 
Não quero mais pensar, não me leva a nada. Fecho os olhos, e sou uma criança perdida no próprio mar que criou para se refrescar no verão.
Eu escolhi isso, mas perdi o controle. 
Nada é definitivo, só não sei se isso se aplica ao fim também... que eu tinha certeza, como um amor de uma criança por um pônei, que havia acabado.
"Coloque uma pedra nisso", é o que dizem.
Esquecem-se de que os fósseis são formados assim. A pedra põe um fim, mas deixa eternas marcas.
É o intemperismo das ondas, a erosão, modificando o ambiente, substituindo o antigo pelo novo, destruindo o conhecido para formar o misterioso. É físico, mas também é químico. 
É para o futuro, mas é moldado pelo passado. Como um leãozinho descabelado é impossível de ser esquecido: aquela visão, os sorrisos, o eco na concha, a loucura da idéia de amar e ser amado.
E que, hoje, diz estar comungado. 
União de almas, idéias, livros e comida. Cúmplices na vida, fugitivos da polícia. Na natureza, selvagem, Pink Floyd (do passado, do presente) como trilha sonora enquanto compartilhamos alguma poesia. Escrevo pra você, e digo que está tão belo dormindo que não deve ser acordado. Ou foi você que escreveu pra mim?

Eu não sei. 
Apenas achei este bilhete em um de seus livros favoritos, quando invadi uma vida que não era minha, quando entrei no quarto de um cara que não era meu. 
Mas não nego, diverti-me. 
Talvez tenha sido um vislumbre por trás do que o oceano esconde. Um dos mistérios que nunca podem ser revelados. Como um déjà vu, uma pontada da minha imaginação. Sei que, em breve, será apenas uma lembrança que nem sequer lembrarei: como o interruptor da minha antiga casa e o click que tanto me incomodava, como a vida que eu vivo agora será apenas vista na minha memória, depois de algum esforço, quando eu voltar para o mar. 
Apenas mais um mergulho. 
Um mergulho mais longo, onde eu respiro embaixo d'água e vejo por entre a escuridão. Nesse oceano, o som do vento parece com o som de chuva. O silêncio, às vezes, faz barulho... Eu existo, mas ainda sou tão difusa quanto o reflexo da minha própria face na água é, ou aparenta ser. 
Eu sinto... Só não sei o que.

O que me tornei? Meu mais amável amigo, todos que conheço, acabam indo embora. 
Você podia ter tudo isso. 
Meu império de sujeira.
Vou te decepcionar.
Vou te fazer sofrer.