Eu odeio aquele momento em que encaro as letras em uma espécie de vortex mental, mas não consigo formar nenhuma palavra, muito menos frases. Sei que estão lá, todas as combinações possíveis de vogais, e consoantes, e acentos, e regras gramaticais que há tempo já não me recordo mais. Sei que há um número finito de letras, logo há um número limitado de palavras e combinações de palavras e combinação de frases e combinação de combinações de tudo o que há. Entretanto, através de todos os cálculos que fui capaz de aprender na minha breve e, ao mesmo tempo, longa jornada neste planeta, pude perceber que mesmo que haja um fim, mesmo que o número de combinações seja teoricamente limitado, na prática é como um rio que corre sem fim, uma turbulência que eu até consigo entender superficialmente, mas que sou incapaz de um dia explicar. Já me peguei olhando para o céu e contando as estrelas e, no meu campo de visão limitado, enquanto permanecia atenta para não perder uma estrelinha sequer, jurava ter contado todas. Piscava meus olhos, e lá estava eu, perdida novamente, sem saber por onde começar a contar.
Acho que algumas coisas não devem ser contadas, mas eu sempre amei contas apesar de, contraditoriamente, não conferir o troco após comprar alguma coisa, pois sei que facilmente irei me perder. Por outro lado, humanizava a divisão, secretamente - quem disse que não se pode dividir por zero? Por qual motivo, mesmo? Se eu divido algo por zero, isso não quer dizer que, no fundo, não estou dividindo? Intrigava-me a comoção que uma divisão por zero causava na escola: nos professores, nos alunos. Até aqueles que odiavam matemática gostavam de bradar aos 7 ventos que dividir por zero era uma operação impossível, e cogitar essa divisão era inaceitável. Eu, escondida, via-me pensando no que seria essa divisão, e como podiam concluir algo tão concreto mesmo que todo o resto seja apenas uma abstração… Na faculdade, pelo menos, tive a oportunidade de descobrir muitos mitos e estudar com mais profundidade tudo o que eu havia visto antes de maneira tão superficial. Percebi que muito do que sabia não passava de meras conveniências que são nos ensinadas para que possamos seguir adiante. Falácias sobre a Química, a Física, a Matemática, e a Biologia caíram todas por terras. Não que eu me lembre delas agora, estou longe disso.
Vi sobre o gato que morre e vive (ao mesmo tempo!) enquanto não abrimos a tal caixa, e aprendi que dividir por zero nos leva, na verdade, ao infinito. Não que o infinito exista, mas se eu baseio as minhas contas em abstrações, como uma divisão por zero, então a minha solução é simples: o resultado da divisão é o infinito. Descobri, no meu estranho jeito de observar o mundo ao meu redor, que o impossível existe… Nem que seja para limitar o que é possível. Divido por zero, e a resposta é o infinito. Novamente: não que o infinito exista, mas ele pode muito bem existir, isolado lá no infinito, inacessível e desacreditado… Mas lá. Uma concretização de uma abstração.
Já a combinação de todas as palavras do mundo, no meu vortex mental (eu sou louca, eu fecho os olhos e vejo palavras sendo formadas… Mas não conheço todas, então minha imagem delas é limitada, assim como minhas palavras acabam sendo limitadas também), apesar de ser teoricamente limitada, é ilimitada… Trata-se de uma abstração de algo concreto. Quando comecei a escrever, não via nada: nenhum vórtex, nenhuma letrinha entrando ou saindo de um túnel imaginário digno de uma abertura de Doctor Who… E cá estou, agora, de madrugada, escrevendo sobre contas e palavras - contando palavras, e dissertando sobre contas.
Eu não faço muito sentido.
Eu sei que sou sólida, mas meus pensamentos são líquidos.
Eu sei que sou sólida, porque quando fui atropelada, ou quando me bateram, ou quando bati, ou quando toquei e fui tocada, eu senti. Meus pensamentos são líquidos, assim como todos os pensamentos, porque eu não consigo parar de pensar - meus pensamentos sempre escorrem, sempre, sempre! Quando durmo, eles escorrem, e eu não tenho controle, eu nunca tive e nunca terei. Mas eu penso, logo eu existo. Eu só sou sólida porque sou também líquido.
E se eu não escorri até deixar de existir, é porque eu sou muito, muito sólida.
Sou tanto mar quanto terra. Eu sou o infinito, porque eu sou tudo o que há, e tudo que vejo é porque eu sou eu, sólida e líquida, carne e alma.
Eu sou o nada, porque de tudo o que é o infinito, eu sou uma irrelevância, uma insignificância, uma abstração do concreto… Uma concretização da abstração.
Eu sou o impossível para o que é possível, e o que seria possível no impossível. Eu sou literalmente tudo isso: toda essa confusão que é ser humana, que é pensar, e que talvez seja ser qualquer outra coisa nessa vida que exista (mas eu só não sei disso porque eu sou eu, e apenas eu - obrigada, de nada.)
De tudo que eu sei, sei mais que não sei muito.
Eu estou cansada.
Espero que Deus exista.
Eu sigo a lua, e ela corre de mim como uma mulher sozinha na rua corre de um desconhecido.
É o que eu vejo - mas não é o que eu acredito. Sei que a lua está muito bem parada lá no céu, e que eu é que me movo. Sei que, naqueles dias em que não saí da minha cama por 12 horas, a Terra deu meia volta. Mesmo assim… É como se eu não tivesse me movido. Sou um ponto fixo no universo, com uma simples excessão: eu não sou. Não sou nem um ponto, nem fixa. Pro inferno! Eu sou uma criatura egocêntrica que por algum motivo (ou não, que seja) existe, e é isso que importa.
Meu perfume sou eu, e todos somos perfumes, com nossa própria fragrância - única mesmo que universal. Somos todos líquidos sob uma pele sólida. Somos todos estrela, mas cada um brilha de maneira única, porque ninguém é ninguém além de si mesmo, mesmo que sejamos todos fragmentos, e que sejamos sempre fragmentados; e mesmo que em cada esquina caia um pouco a nossa vida, e em pouco tempo não sejamos mais o que éramos… A cada esquina ganha-se mais vida. A cada esquina se ganha um novo perfume, uma nova luminosidade.
Às vezes, eu choro porque eu imagino um mundo onde todas as luzes serão apagadas, e só o que restará é a nossa própria luz. E existirão infinitas luzes de finitas (porém, de forma prática, infinitas) cores, cada pessoa com a sua cor exclusiva. E eu consigo ver inúmeras combinações: eu vejo amor, e eu vejo almas solitárias encontrando-se com outras almas também solitárias; e eu sinto os corações partidos juntando cada pedacinho que é possível juntar, porque agora que está tudo escuro, só o verdadeiro interior é capaz de iluminar e de guiar... Eu choro pois eu não sei se acredito em nada disso… Mas eu também rio, porque sei que se existir uma cor para cada pessoa existente nesse planeta, então eu sou muito mais limitada do que imaginava ser, pelo simples fato de que eu julgava ser possível contar o número de cores existentes… Ou acreditava em quem me dizia que existe um determinado número de cores na luz branca (acho que falta-lhes dividir este número por zero)... Ou porque eu tentava contar as estrelas existentes no céu.
Queria eu não ser líquida por dentro, assim meus pensamentos e meus sentimentos não seriam líquidos também. Queria eu não ser perfume, porque perfumes enjoam, e perfumes quebram, e quando isso acontece não há muito o que fazer além de seguir em frente (até porque, o mundo está girando sempre, está seguindo adiante e eu não quero ficar para trás). Queria eu ser capaz de ouvir um “eu te amo” sem ouvir um “mas” em seguida. Entretanto, seria eu também capaz de amar, sem usar uma interrogação depois? Seria eu sólida o bastante para amar todo o líquido que há em mim, cada gota dele, para assim ser capaz de amar outra pessoa da forma mais sólida possível? Sem fazer contas, nunca mais… Sem concretizar o que é abstrato… Porque eu sou alma em um perfume, e sou lama quando ele derrama no chão e se mistura com todas as outras fragrâncias caídas em cada esquina existente.
Eu amo, mas é foda. Amar é foda.
Eu não faço sentido... Então como minhas palavras, e todas as possíveis combinações delas, poderiam fazê-lo? Se eu fujo pelo deserto, o caos vai atrás.