quarta-feira, 28 de setembro de 2016

sol em aquário

Quando eu estava com você, não importava muito o que eu tinha para fazer.
Onde eu deveria estar era apenas uma ideia: vaga, longe, não importante...

Quando eu estava com você, não importava se estava frio ou quente.
Você gostava de dias cinzas, mas os meus dias eram menos cinzas com você.

Quando eu estava com você, não importava muito o que você dizia.
Se me fazia rir, eu agradecia. Se me deixava irritada, eu te xingava e pronto. 

Quando eu estava com você, não importava o meu passado e todos os meus amores que deram muito errado.
Eu sabia que, com você, terminaria um dia. Mas terminaria certo.

Quando eu estava com você, certamente não importava todo o nosso tempo junto sem dizer nada de concreto sobre... seja lá o que fosse.
Você era o que eu precisava: a brisa leve e indiferente que, em dias quentes e solitários, era suficiente para me refrescar.

Quando eu estava com você, a monotonia da rotina era até divertida.
Mnhas lembranças não são muitas... mas isso não é novidade, sua memória sempre foi melhor que a minha.

Quando eu estava com você, você não estava comigo.
Mas tudo bem, cara. Sem chuva, sem lágrimas.
Eu tô bem

Éramos para estar, eu e você. 
Não para ser.  

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

flashback friday

há um ano, voltei
e eu não cabia em mim
ou aqui
hoje, eu acho que me encaixo
não sinto muito
não me sufoco
não transbordo
é bom, né? não me sentir derramando
não ver minha alma se transformar em lama
estou calma
não sofro por dor, ou por amor, ou desamor
encarei o rosto daquele que não conseguia olhar por um segundo sequer
você não me pertence mais. você não me destrói mais. você não significa nada pra mim. 
você não tem nada, nada demais. 
eu via o universo em você, enquanto eu era apenas eu. hoje, você é só você. não fico feliz e nem triste por você ver o universo em outra pessoa. não sinto nada além da estranheza de, um dia, ter tido você como o infinito, o buraco negro supermassivo, a física existente em todo o lugar. o seu magnetismo me rendeu palavras como essas, em plena madrugada, depois de um dia tranquilo, depois de um ano lutando para esquecer você. por um ano, te evitei. hoje, encaro-te: você é, finalmente, uma pessoa ordinária. olho nos seus olhos e finalmente enxergo que, neles, está refletido o universo. 
e adivinha? eu sou o universo. 
você é apenas você: um estranho que eu um dia conheci e, hoje, nem quero reconhecer.

domingo, 1 de maio de 2016

verde é a cor mais quente

aqui jazem algumas palavras
que, em um dia de chuva e frio, 
juntaram-se para formar um poema
para aquele que odeia poemas e 
odeia a ausência de história

não é um poema de amor
não é um poema de dor
é um poema para quem não se deixa ser lido

ao sol, com o céu azul e nuvens brancas
o livro está fechado, sequer saiu do armário
mas em dias cinzas e com gotas de chuva caindo do telhado, talvez o que esteja escondido seja revelado

e em delírios de febre
(você está queimando, queimando em si, e não queima por mim)
vestígios do outro lado:
se cada pessoa tem um sabor, que outro sabor teria além de azedo?

sabor de medo. medo é o que eu vejo.
eu só não sei do quê… 
o livro está fechado, lacrado, ainda guardado dentro do armário, esperando ser lido, ser devorado, ser amado, respeitado, idolatrado com um roupão vinho e um charuto em dias nublados.

e se poemas não dizem nada,
ao contrário de histórias contadas, lidas, narradas, interpretadas, vividas
e você, aos 22, julga não ter nenhuma história para contar...
pergunto-me, então: 
considera-se um poema?

eu gosto de poemas. 
todos gostam de poemas.
você, não.

não é preciso saber cálculo para perceber
poemas não te atraem porque não contam histórias
métrica, para quê?

bater na parede não resolve
gritar não resolve
a raiva também não resolve
poesia não resolve e poemas não contam histórias

quer saber? foda-se! 
seu lado ar não me engana
eu, que sou terra, já sei: você gosta de juntar as palavras, afinal

se já foi feito, você não quer mais 
se não é para ser especial, é preferível não ser nada
se olha no espelho e enxerga uma pessoa azeda, nega 

a não ser que as noites sejam febris
e a escuridão permita a vulnerabilidade

então, podemos ser doce, salgado, amargo e azedo 
(a parte azeda eu deixo para as suas risadas com humor negro) 

mas os medos da noite não são os mesmos medos do dia
os sorrisos, sim

eu queria me desculpar por misturar poesia e prosa
(coloquei no meio para ficar mais bonitinho)
e por juntar palavras que não lhe acalmam a alma
mas eu não posso fazer isso, porque eu não vejo o azedo que você vê

eu gosto de poemas e você não gosta
e mesmo que eu fosse uma cantora, você ainda não gostaria de mim 
mas você me ensinou que nada disso importa
foda-se, você diz! e você está certo

ao olhar o relógio antes de dormir, hoje, não estarei pensando na hora.
pensarei na chuva,
e em lágrimas,
e na risada irônica:
apenas lágrimas na chuva.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

cápsula de otimismo perdida no espaço-tempo

Em algum lugar no universo, há de haver tudo aquilo que um dia foi perdido ou deixado de lado. 
Histórias inacabadas, contos de fadas arquitetados na infância, poemas sobre o amor e, por que não, o próprio amor que foi esquecido? 
Há de haver um lugar onde tudo o que deixamos pra fazer amanhã e nunca fizemos está feito, e é lá que promessas são cumpridas, e sonhos que sonhamos durante a noite e parecem de alguma forma importante, são lembrados. 
Neste lugar, caminhos que não seguimos por dúvida ou medo estão trilhados, e não existe metade de nada pois tudo é completo. 
Há de haver, em algum lugar no universo, as palavras que nunca foram ditas apesar de estarem entaladas na garganta por mais tempo do que deveriam, e lá também se encontram abraços que aqui deixamos de dar por alguma mágoa estúpida, e beijos que nunca aconteceram em despedidas, e despedidas que nunca aconteceram também. 
Em algum lugar do universo, há de haver o encontro de todos aqueles que nos acalmaram a alma na rua, nos bares, nas festas, nas igrejas, no trabalho, mesmo sem nos conhecerem. 
Neste lugar, há uma parte de nós que sempre imaginamos ser uma versão melhor do que nós somos aqui, mas isso não é verdade. 
Se estamos aqui, do outro lado deste lugar no universo, é porque deixamos que uma parte de nós esteja lá, mesmo que esta parte seja apenas composta por passado e futuro. Estranho é pensar no tempo que perdemos imaginando este lugar... 
Afinal, o presente está aqui e agora, e não lá.

sexta-feira, 25 de março de 2016

blém-blém pelas frésias, palavras ao tempo

Um escorrego. Caio, sem aderência. Os sonhos me lembram um sorriso que não é mais meu, seguido por lágrimas que, mesmo com o passar do tempo, ainda são minhas. Ouço uma voz alta, brigando, julgando-me. E sinto em mim uma prisão que aparenta ser eterna, um suposto sentimento de guarda e proteção. Eu não posso mostrar mais do que querem ver. No sonho, um escorrego: mistura de diversão e medo. Não sinto prazer em cair, mas esperar pela queda já faz parte de mim. Embaixo, a piscina é de uma água turva, quase cinza, lembrando-me de que é assim que eu tenho que ser. Turva, sim. Transparente, jamais. Eu não posso me dar ao luxo de, nos meus piores dias, ser vista sem roupa, sem risos, sem nada. A armadura, entretanto, corrói. O tiro sai pela culatra: tanta força, por fora, há de comprimir a alma. Mais sensível, torno-me, a cada tentativa de parecer indiferente. Mais eu me importo com o que pensam de mim... Oh, céus! Devemos nos preocupar com essa menina? Não é ela que tem medo de gente, que não aceita ouvir não e nem sabe ficar de recuperação? Que há de ser feito além de, aos 30 anos, fracassada e com medo, tentar ser outra pessoa? Essa aí não tá servindo, não. Essa aí, tem o futuro estragado por tanta limitação. Mal sabem eles... A culpa é da armadura. Proteção do mundo, ela acredita: segurança. Ela não pode ser vista sensível, porque vão querer colocar outra armadura nela. Proteção do mundo, eles acreditam... Mas a armadura... Esta, corrói a alma! E pode ser ainda mais esmagadora do que o próprio mundo. (...) Entretanto, ainda tenho esperança: há de haver liberdade novamente. E transparência, na água e em mim. Um dia!! Afinal, não é possível ter medo de ser eu... ou será que é possível? E se eu não for boa? E se eu for mesmo louca, ou tóxica, ou frígida? Isso não posso ser! Não posso ser fraca ou levarei almofadada na cara! Cresça, querida: o mundo não é uma fábrica de realização de desejos e você sabe disso. O abraço de ontem é o tapa de hoje. (...) Ai... Sinto falta da minha leveza. Hoje, se tenho uma chance, afasto-me quando posso, pois sei que sou tóxica e não quero contagiar a ninguém. Em meus momentos de tempestade, eu costumava culpar a todos, menos mim. Hoje, sei que a nuvem sou eu. E a armadura, que tanto já falei sobre, talvez seja a minha forma de proteger o mundo de mim. (...) Eu sei que essas palavras amargas representam um eu amargo, estragado, com medo. Mas não é quem eu sou, é apenas quem eu me sinto (hoje, novamente). E sei, também, que se vista assim, causarei raiva - e raiva eu não quero sentir de ninguém e nem quero que sintam também, pois eu posso ter tudo, mas raiva eu não tenho de mim. É difícil, mas me amo, apesar de tudo. Apesar da armadura, da máscara, do blém-blém. Ainda acredito na felicidade e em dias ensolarados, e na minha leveza e no meu futuro, mas não hoje. Hoje, por incrível que pareça, não estou triste, nem irritada nem nada. Hoje, só estou cansada. Cansada de muitos, cansada de falhas. De faculdade, de amigos, de não ter dinheiro, de não ter perspectiva. Estou cansada de mim, e de ser assim, e também estou cansada de me esconder quando não estou bem para que eu não seja obrigada a vestir outra armadura. Porque eu já visto uma, e ela está pesando. (...) Eu escorrego, eu caio, mas eu não me afogo. Meus pensamentos são como estrelas se formando, e sei que um dia eu irei observá-las com leveza e admiração, como se elas não fizessem parte de mim, da minha história, ou dos meus dias de tempestade. Admirarei as minhas estrelas com a minha alma, um dia: mas não hoje... Hoje, minha alma reflete na lama. 
Ou seria a lama a refletir na minha alma?