sexta-feira, 25 de março de 2016

blém-blém pelas frésias, palavras ao tempo

Um escorrego. Caio, sem aderência. Os sonhos me lembram um sorriso que não é mais meu, seguido por lágrimas que, mesmo com o passar do tempo, ainda são minhas. Ouço uma voz alta, brigando, julgando-me. E sinto em mim uma prisão que aparenta ser eterna, um suposto sentimento de guarda e proteção. Eu não posso mostrar mais do que querem ver. No sonho, um escorrego: mistura de diversão e medo. Não sinto prazer em cair, mas esperar pela queda já faz parte de mim. Embaixo, a piscina é de uma água turva, quase cinza, lembrando-me de que é assim que eu tenho que ser. Turva, sim. Transparente, jamais. Eu não posso me dar ao luxo de, nos meus piores dias, ser vista sem roupa, sem risos, sem nada. A armadura, entretanto, corrói. O tiro sai pela culatra: tanta força, por fora, há de comprimir a alma. Mais sensível, torno-me, a cada tentativa de parecer indiferente. Mais eu me importo com o que pensam de mim... Oh, céus! Devemos nos preocupar com essa menina? Não é ela que tem medo de gente, que não aceita ouvir não e nem sabe ficar de recuperação? Que há de ser feito além de, aos 30 anos, fracassada e com medo, tentar ser outra pessoa? Essa aí não tá servindo, não. Essa aí, tem o futuro estragado por tanta limitação. Mal sabem eles... A culpa é da armadura. Proteção do mundo, ela acredita: segurança. Ela não pode ser vista sensível, porque vão querer colocar outra armadura nela. Proteção do mundo, eles acreditam... Mas a armadura... Esta, corrói a alma! E pode ser ainda mais esmagadora do que o próprio mundo. (...) Entretanto, ainda tenho esperança: há de haver liberdade novamente. E transparência, na água e em mim. Um dia!! Afinal, não é possível ter medo de ser eu... ou será que é possível? E se eu não for boa? E se eu for mesmo louca, ou tóxica, ou frígida? Isso não posso ser! Não posso ser fraca ou levarei almofadada na cara! Cresça, querida: o mundo não é uma fábrica de realização de desejos e você sabe disso. O abraço de ontem é o tapa de hoje. (...) Ai... Sinto falta da minha leveza. Hoje, se tenho uma chance, afasto-me quando posso, pois sei que sou tóxica e não quero contagiar a ninguém. Em meus momentos de tempestade, eu costumava culpar a todos, menos mim. Hoje, sei que a nuvem sou eu. E a armadura, que tanto já falei sobre, talvez seja a minha forma de proteger o mundo de mim. (...) Eu sei que essas palavras amargas representam um eu amargo, estragado, com medo. Mas não é quem eu sou, é apenas quem eu me sinto (hoje, novamente). E sei, também, que se vista assim, causarei raiva - e raiva eu não quero sentir de ninguém e nem quero que sintam também, pois eu posso ter tudo, mas raiva eu não tenho de mim. É difícil, mas me amo, apesar de tudo. Apesar da armadura, da máscara, do blém-blém. Ainda acredito na felicidade e em dias ensolarados, e na minha leveza e no meu futuro, mas não hoje. Hoje, por incrível que pareça, não estou triste, nem irritada nem nada. Hoje, só estou cansada. Cansada de muitos, cansada de falhas. De faculdade, de amigos, de não ter dinheiro, de não ter perspectiva. Estou cansada de mim, e de ser assim, e também estou cansada de me esconder quando não estou bem para que eu não seja obrigada a vestir outra armadura. Porque eu já visto uma, e ela está pesando. (...) Eu escorrego, eu caio, mas eu não me afogo. Meus pensamentos são como estrelas se formando, e sei que um dia eu irei observá-las com leveza e admiração, como se elas não fizessem parte de mim, da minha história, ou dos meus dias de tempestade. Admirarei as minhas estrelas com a minha alma, um dia: mas não hoje... Hoje, minha alma reflete na lama. 
Ou seria a lama a refletir na minha alma?

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