sexta-feira, 30 de outubro de 2015

entre areia e tijolos, castelos

procuro modos de subir a montanha, mas estou mais cansada do que podia imaginar.
há uma estranha quando olho através do espelho.
recuso reconhecer a familiaridade com que a simplicidade do corte representa… eu já estive assim, não estive?
tola, sou, temendo o que vem pela frente, enxergando através dos olhos do passado.
tola, mas não de todo: metaforicamente, ver tudo o que foi construído com muita resistência,
dedicação,
e desafiando todos os medos de todos os loops que uma montanha russa é capaz de dar…
tudo se foi, e lá vou eu novamente: reconstruir.
é essa a vida, afinal. e sou apenas uma construção de areia envolta por tijolos.
a onda foi maior do que os meteorologistas poderiam prever. 
talvez seja a lua, e seu poder com as marés. separa-se o céu da terra, mas não há como escapar do astro e sua relação com o mar.
tudo bem. 
talvez tenha sido a maré, talvez tenha sido apenas o vento.
que haja a onda.
que os tijolos estejam caídos.
que o castelo de areia tenha se destruído.
talvez tenha sido influência da lua, talvez não. o que realmente importa é que aconteceu.
e, por mais que os muros estejam mais firmes, um dia a onda será mais forte.
e o castelo de areia, ou o que quer que tenha sido construído por insistência ou pelo tempo, whatever,
desmoronará. e aí restará apenas reconstruir.
build up again.
i was born to build.
olharei no espelho, estranhando-me por algum tempo - espero que por menos tempo do que, agora, após a onda, posso imaginar.
sou eu, ainda. apesar da onda, do vento, da lua: ainda sou eu, mesmo que eu não seja quem eu era ontem. mesmo que esteja tudo tão diferente.
mesmo que as lágrimas borrem minha visão, por um motivo banal, ou não. sou eu.
e, na solidão e confusão de outra pessoa, descobri não estar sozinha. 
o que pode ser pior do que descobrir que seu castelo foi construído por tijolos de mentira? se ele é feito de tijolos de mentira, é protegido por areia? que brisa não seria capaz de desmoronar tudo?
suba, suba, suba a tal da montanha. não há como voltar. 
mas talvez - e, infelizmente, talvez seja a única certeza possível -, só talvez, você encontre um atalho. um atalho para um castelo só seu, onde reconstruir não é a única opção restante, mas uma escolha. uma escolha sua, só sua. e aí você verá o seu reflexo no espelho e verá você, e então o conceito de "nós" será possível novamente.
entre verdade e mentira, existe sempre uma escolha.
reconstruo ou não o castelo de areia?
eu nasci para construir. e você?


a vida compreendida é a vida vivida.

confuso esse castelo. ora tijolo, ora areia...
fragmentos.
para aquela que eu sempre me espelhei.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Conforto existencial na madrugada

Há dias em que eu não sei diferenciar o certo do errado, o doce do salgado, o amor da dor.
Por muito tempo, eu me perdi dentro de mim em busca de respostas que não existem. Respostas que nunca existiram.
Não existe resposta se não há pergunta.
Não diferencio certo do errado porque, de fato, não há. Não comigo, não com o que fiz ou com o que deixei de fazer; tampouco com você, ou com o que você fez ou deixou de fazer.
É preciso muita luz interior para não ficar perdida para sempre quando tudo o mais não faz muito sentido. A verdade é que nunca fez sentido. Não tem porquê.
Se carros e cadeiras e pessoas perdem as formas no escuro, estes assumem a forma que eu quero que eles sejam quando tudo que há é a lembrança do que eu achava terem sido. Se quero carros com asas, cadeiras ao contrário, e pessoas perfeitas - terei tudo isso. De olhos fechados, apenas com a lembrança de como tudo um dia foi, nada é verossímil com a realidade. É pior, é melhor, mas nunca é igual.
Por mais tempo do que pude perceber, deixei-me levar por quem eu achava que eu era, ou por quem eu era, ou por quem você pareceu ser (ou, de fato, era). A verdade é que nada disso importa, porque eu sou quem sou porque eu já fui quem eu fui. Sou esponja do mundo, ah como sou! Mas sou esponja de mim mesma mais do que de ninguém. Porque quando eu tenho insônia, eu estou sozinha comigo. Porque quando eu sonho, sonho em mim e, geralmente, sonho comigo. Às vezes, sonho em terceira pessoa e são estes sonhos que eu costumo lembrar. Lembro-me deles e dos pesadelos, porque pesadelos mostram a escuridão em mim, e os sonhos onde eu não existo perturbam por mostrar um mundo em que eu não faço parte. 
Fecho os olhos e eu existo, e eu estou bem, obrigada. Hoje, sei que amar alguém sem amar a si é como caminhar no deserto e encontrar uma miragem: não há escape na miragem.
Há dias em que eu misturo o doce com o salgado porque eu não sei que sabor quero ter na boca enquanto como. Obviamente, também faço isso porque sou taurina - eu gosto de comer.
As respostas não existem, e agora eu entendo. Não há 42 sem pergunta. Que droga de pergunta é essa que eu supostamente tenho que saber?
Hoje, pelo menos, sei que não importa. Deserto, homem de preto, pistoleiro, whatever, Ka, whatever. 
Fiz o que fiz.
Não fiz o que não fiz.
Amei quem amei, beijei quem beijei, não amei quem não amei. Se me entreguei e caí, levantei-me. Se hesitei, um dia, é porque achava ter sido hora para hesitar. Que mania de todos acharem que tem que se jogar! 
É madrugada, e eu escrevo… Por que eu me arrependo do que fiz ou deixei de fazer, quando na verdade eu estava apenas seguindo os passos que eu, companheira de mim mesma nas noites de insônia, resolvi tomar? Por que me sinto culpada por escolher tal caminho, sendo que foi este caminho que me trouxe até aqui? 
Seja lá onde aqui for, aqui é.
Mas aqui, apenas estou… Amanhã, eu já não sei. 
Enquanto existo, sou apenas um bebê aprendendo a viver.

Dessa vez, ao invés de crise, é conforto.