Eu nunca fui muito boa em observar o que está ao meu redor. Sempre tive um pé fora da realidade, sempre distraída. Nunca prestei muita atenção no que acontecia à minha volta - pelo menos era o que eu acreditava. Até que, um dia, fui à cozinha à noite. Click, acendi a luz. Fui até a geladeira, mas algo estava errado. Uma sensação incômoda me acompanhava. Algo está errado, diferente. Algo está fora do lugar.
Peguei algo para beber. Quando saía da cozinha, apaguei a luz, com outro click.
O interruptor.
O problema era com o interruptor. Como não percebi imediatamente?
Por toda a minha vida, em todas as minhas memórias nesta casa que habito, a luz da cozinha acendia quando eu apertava o interruptor para baixo, e apagava quando eu o apertava para cima.
E, de repente, não mais.
"Pai, você trocou o interruptor?", perguntei. Ele respondeu que sim, e eu o perguntei se ele percebeu que havia trocado a ordem do acender/apagar a luz.
"Você quer que eu troque novamente?", disse-me ele.
Eu pensei que seria ótimo, isso estava simplesmente errado, e se ele podia mudar novamente, por que não o faria? Mas imaginei todo o trabalho que isso causaria e respondi apenas "sei lá, acho melhor não, deixa para lá. Eu irei me acostumar."
Passaram-se dias. A cada click no interruptor, o mesmo desconforto ainda se fazia presente em mim. Seria o problema comigo, então? Ou este... incômodo agora seria devido à lembrança do incômodo inicial da mudança? Isso faz algum sentido? Acho que não, mas é o que eu sinto, então é real. Está em mim, na minha mente, no meu blém-blém diário, na minha certeza entre tantas dúvidas, então... sim, é real.
Mas assusta-me um pouco ter a noção deste detalhe.
De certa forma, notar a mudança no interruptor é algo que eu nunca achei que faria (e, principalmente, nunca achei que me incomodaria com isso).
É ter a certeza de que tudo está nos detalhes - detalhes que fazem parte da nossa rotina, da nossa vida, e não damos a menor importância... Até que, por qualquer motivo, deixa de estar lá. Por quê? Acredito que só a mudança causa esse tipo de estranheza, essa nostalgia acompanhada de cheiros, sabores e pequenas coisinhas que norteiam nossa mente com tantas lembranças e que, por vezes, incomoda. Só a mudança tem este poder de trazer à memória pequenos detalhes que, afinal, nunca fizeram diferença porque nem sequer haviam sido notados antes.
Sinto uma certa vertigem...
O que tenho deixado passar?
Ou melhor, o que está comigo hoje e só perceberei quando não tiver mais?
É melhor não pensar nisso.
Click, acendo a luz. A minha esperança era não sentir nada, mas não foi dessa vez - a mudança no interruptor ainda me incomoda. De forma bem menos significativa, é verdade. É a certeza de que, com o tempo, vai passar. O tempo, uma reflexão difusa de uma face na água, irá ajudar. E assim, quem sabe, talvez um dia a lembrança de como era antigamente não me afete mais.
Talvez um dia, click, apago a luz: está tudo no lugar.