terça-feira, 15 de dezembro de 2015

one of these days

Um sol que faz mais do que aquecer. 
Raio por raio, me expõe: minhas espinhas, minhas cicatrizes, minhas falhas e meus medos. Tudo é exposto sem a menor piedade.
Lágrima por lágrima, me sinto uma tola; fraca, sozinha, desamparada. Sem conseguir olhar no espelho.
Eu sempre odiei terças-feiras, mas hoje, por mais brilhante que esteja o sol lá fora, tremo.
De medo. De torpor. 
Eu só queria não ter essa montanha-russa de emoções; queria normalidade, equilíbrio; queria me amar. Verdadeira e intensamente, como diz o roteiro. Eu posso até me amar, um pouquinho. Mas não hoje, pistoleira. Não hoje, e muito menos agora.
Hora de aproveitar o ar gelado, e cobrir-me deste vento inebriante… Para, quem sabe, amenizar estas queimaduras da realidade… e voltar a querer enxergar a luz refletida no espelho. 

Algumas horas depois... E o calor piorou. Troco de sala, sinto-me melhor. 
Entretanto, fujo das pessoas. Não quero encontrar amigos - se eu não consigo olhar pra mim mesma, não quero obrigar mais ninguém a passar por isso. Pensamento cruel e até mesmo sem sentido. Mas hoje é um daqueles dias. Permiti me entristecer.
Como uma coxinha com catupiry, e o estado de espírito é outro: consigo ouvir Lana del Rey e apenas sentir uma vontade de voar por aí. A fila gigantesca e o calor infernal do terminal lotado não me deixaram pra baixo. Estudei. Dei algumas risadas...

E eis que o inesperado acontece. Compartilhamos khef, de novo. Anos de amizade, e é surreal como a sincronia ainda nos aproxima. Mesmo que incompleto, o tet sente as mesmas dores, os mesmos anseios. Não estamos sós. Temos as mesmas crises: e isso é só a prova maior de que, bem, nada realmente importa. Estamos juntas nessa e somos quem somos. Se eu te amo, você também pode se amar. E se vocês me amam... Por que eu não me amaria também? 

Não seres: sendo.

obrigada pelos peixes.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

as estrelas não estavam erradas

um domingo chuvoso ouvindo the smiths.
contraditoriamente, sinto-me bem com isso.
minha mente está calma, mas meu corpo está se esforçando ao máximo para realizar certas coisas - ajeitar o cabelo acabou sendo mais fácil do que apertar um botão.
a minha cabeça dói. e muito.
o barulho do carro passando sobre o asfalto molhado está quase ensurdecedor
(i am human and i need to be loved… just like everybody else does).
o dia foi agradável, mas a estranheza física está ultrapassando algumas barreiras. dança de carnaval e alguns diamantes (parede de diamante) valeram o meu dia. e a maratona conjunta de prison break, é claro.
(take me out tonight
to where there’s music and there’s people who are young and alive)

as estrelas não estavam erradas. o tempo passou, e bilhões de anos depois, tudo (finalmente) se acertou. a parede de diamante foi rompida. a verdade superou o medo, e a eternidade passou a ser apenas uma vaga lembrança de um pesadelo sem fim. 
e venci mais um domingo chuvoso. a minha inquietação pode ser facilmente justificada por aquele período do mês, e, mesmo assim, eu anseio o amanhã. os detalhes realmente fazem toda a diferença: cada esforço concretizado é uma vitória, mesmo que nem todo o mundo consiga entender.
espero que não chova amanhã. espero que faça bastante sol. espero que haja luz, e risadas. esperança por dias melhores é tudo o que a gente precisa, afinal de contas. 
por fim, só queria dizer que quero rabanada, quero irmã(s), e quero amigos. reconciliação - e conforto.
quero andar de bicicleta pela orla da praia. quero beijar em pontos de ônibus. quero carnaval e abraços de reencontro.
quero novas histórias… só minhas! quero o novo. e rir lembrando do que já passou, mas não ficar mais triste pelos capítulos acabados... preciso de um novo horizonte. e abrigo, carinho, sol quentinho... sorrisos. 

domingo, 22 de novembro de 2015

sobre estar naqueles dias

hoje é um daqueles dias
que pesam mais do que eu sou capaz de disfarçar com um sorriso
um daqueles dias 
em que tudo ao redor parece mais forte do que eu
a cama, o sono, a insônia, a preguiça

hoje é um daqueles dias
que o presente não existe
tudo que há é o passado, que já foi
e o futuro, que eu nada sei sobre

hoje é um daqueles dias 
que a melancolia é mais forte do que eu poderia absorver
vejo sorrisos, alegres, e não me contagio

hoje é um daqueles dias
em que eu falo com as pessoas mas não converso com elas
porque eu não tenho nada sincero a dizer,
e o que eu digo em nada acrescenta, porque não importa

hoje é um daqueles dias
que estou distante
e não sei onde estou, mas sei que não é aqui

hoje é um daqueles dias 
em que evito olhar no espelho
porque meus olhos estão pesados demais para ver qualquer beleza

hoje é um daqueles dias 
que eu odeio
porque me trazem à memória lembranças de quando este dia era todo o dia
e eu não tinha muita esperança de que o dia seguinte seria diferente
porque, por muito tempo, não era mesmo: era mais um daqueles dias

hoje é um daqueles dias
que eu não sinto vontade de nada
e ligo o viver no automático, embora eu saiba que isso é uma característica típica 
de dias como hoje
e aqueles

hoje é um daqueles dias 
em que a felicidade é só uma palavra sem significado
e eu como por comer, e tenho mais sono do que deveria para alguém que acabou de acordar
e nada começo, pois sinto que nada posso terminar

hoje é um daqueles dias 
em que eu gostaria de ter alguém que me dissesse que está tudo bem
mas esses dias pesam, e sou incapaz de falar qualquer coisa
porque eu tenho medo do que palavras ditas podem causar
eu não quero furacão nenhum
(eu sou um)
por isso escrevo: palavras escritas dizem por mim
o que eu já sei: vai passar
porque hoje é só um daqueles dias

hoje é um daqueles dias 
que eu quero muito que acabe logo
mas que me deixam aflita por não saber se amanhã, também, será como hoje
e se serei obrigada a sorrir para que não ter que mentir
quando me perguntarem se está tudo bem,
porque hoje é um daqueles dias
em que a única resposta verdadeira seria 
não.

a diferença é que, no aleatório, toca everything will be alright 
e, mesmo hoje sendo um daqueles dias, é nisso que eu acredito

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

entre areia e tijolos, castelos

procuro modos de subir a montanha, mas estou mais cansada do que podia imaginar.
há uma estranha quando olho através do espelho.
recuso reconhecer a familiaridade com que a simplicidade do corte representa… eu já estive assim, não estive?
tola, sou, temendo o que vem pela frente, enxergando através dos olhos do passado.
tola, mas não de todo: metaforicamente, ver tudo o que foi construído com muita resistência,
dedicação,
e desafiando todos os medos de todos os loops que uma montanha russa é capaz de dar…
tudo se foi, e lá vou eu novamente: reconstruir.
é essa a vida, afinal. e sou apenas uma construção de areia envolta por tijolos.
a onda foi maior do que os meteorologistas poderiam prever. 
talvez seja a lua, e seu poder com as marés. separa-se o céu da terra, mas não há como escapar do astro e sua relação com o mar.
tudo bem. 
talvez tenha sido a maré, talvez tenha sido apenas o vento.
que haja a onda.
que os tijolos estejam caídos.
que o castelo de areia tenha se destruído.
talvez tenha sido influência da lua, talvez não. o que realmente importa é que aconteceu.
e, por mais que os muros estejam mais firmes, um dia a onda será mais forte.
e o castelo de areia, ou o que quer que tenha sido construído por insistência ou pelo tempo, whatever,
desmoronará. e aí restará apenas reconstruir.
build up again.
i was born to build.
olharei no espelho, estranhando-me por algum tempo - espero que por menos tempo do que, agora, após a onda, posso imaginar.
sou eu, ainda. apesar da onda, do vento, da lua: ainda sou eu, mesmo que eu não seja quem eu era ontem. mesmo que esteja tudo tão diferente.
mesmo que as lágrimas borrem minha visão, por um motivo banal, ou não. sou eu.
e, na solidão e confusão de outra pessoa, descobri não estar sozinha. 
o que pode ser pior do que descobrir que seu castelo foi construído por tijolos de mentira? se ele é feito de tijolos de mentira, é protegido por areia? que brisa não seria capaz de desmoronar tudo?
suba, suba, suba a tal da montanha. não há como voltar. 
mas talvez - e, infelizmente, talvez seja a única certeza possível -, só talvez, você encontre um atalho. um atalho para um castelo só seu, onde reconstruir não é a única opção restante, mas uma escolha. uma escolha sua, só sua. e aí você verá o seu reflexo no espelho e verá você, e então o conceito de "nós" será possível novamente.
entre verdade e mentira, existe sempre uma escolha.
reconstruo ou não o castelo de areia?
eu nasci para construir. e você?


a vida compreendida é a vida vivida.

confuso esse castelo. ora tijolo, ora areia...
fragmentos.
para aquela que eu sempre me espelhei.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Conforto existencial na madrugada

Há dias em que eu não sei diferenciar o certo do errado, o doce do salgado, o amor da dor.
Por muito tempo, eu me perdi dentro de mim em busca de respostas que não existem. Respostas que nunca existiram.
Não existe resposta se não há pergunta.
Não diferencio certo do errado porque, de fato, não há. Não comigo, não com o que fiz ou com o que deixei de fazer; tampouco com você, ou com o que você fez ou deixou de fazer.
É preciso muita luz interior para não ficar perdida para sempre quando tudo o mais não faz muito sentido. A verdade é que nunca fez sentido. Não tem porquê.
Se carros e cadeiras e pessoas perdem as formas no escuro, estes assumem a forma que eu quero que eles sejam quando tudo que há é a lembrança do que eu achava terem sido. Se quero carros com asas, cadeiras ao contrário, e pessoas perfeitas - terei tudo isso. De olhos fechados, apenas com a lembrança de como tudo um dia foi, nada é verossímil com a realidade. É pior, é melhor, mas nunca é igual.
Por mais tempo do que pude perceber, deixei-me levar por quem eu achava que eu era, ou por quem eu era, ou por quem você pareceu ser (ou, de fato, era). A verdade é que nada disso importa, porque eu sou quem sou porque eu já fui quem eu fui. Sou esponja do mundo, ah como sou! Mas sou esponja de mim mesma mais do que de ninguém. Porque quando eu tenho insônia, eu estou sozinha comigo. Porque quando eu sonho, sonho em mim e, geralmente, sonho comigo. Às vezes, sonho em terceira pessoa e são estes sonhos que eu costumo lembrar. Lembro-me deles e dos pesadelos, porque pesadelos mostram a escuridão em mim, e os sonhos onde eu não existo perturbam por mostrar um mundo em que eu não faço parte. 
Fecho os olhos e eu existo, e eu estou bem, obrigada. Hoje, sei que amar alguém sem amar a si é como caminhar no deserto e encontrar uma miragem: não há escape na miragem.
Há dias em que eu misturo o doce com o salgado porque eu não sei que sabor quero ter na boca enquanto como. Obviamente, também faço isso porque sou taurina - eu gosto de comer.
As respostas não existem, e agora eu entendo. Não há 42 sem pergunta. Que droga de pergunta é essa que eu supostamente tenho que saber?
Hoje, pelo menos, sei que não importa. Deserto, homem de preto, pistoleiro, whatever, Ka, whatever. 
Fiz o que fiz.
Não fiz o que não fiz.
Amei quem amei, beijei quem beijei, não amei quem não amei. Se me entreguei e caí, levantei-me. Se hesitei, um dia, é porque achava ter sido hora para hesitar. Que mania de todos acharem que tem que se jogar! 
É madrugada, e eu escrevo… Por que eu me arrependo do que fiz ou deixei de fazer, quando na verdade eu estava apenas seguindo os passos que eu, companheira de mim mesma nas noites de insônia, resolvi tomar? Por que me sinto culpada por escolher tal caminho, sendo que foi este caminho que me trouxe até aqui? 
Seja lá onde aqui for, aqui é.
Mas aqui, apenas estou… Amanhã, eu já não sei. 
Enquanto existo, sou apenas um bebê aprendendo a viver.

Dessa vez, ao invés de crise, é conforto.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

universo, (des)encanto

Eu tenho fugido das palavras como o homem de preto fugia pelo deserto na tentativa de deixar o pistoleiro para trás. 
Entretanto, ambos sabíamos que o encontro era inevitável, logo o melhor que podíamos esperar era que ele acontecesse em um momento onde as cartas estivessem ao nosso favor ou quando a lua estivesse na sua fase mais bonita. Não que cartas ou astros façam alguma diferença, mas se eu quiser tirar um pouco do peso de mim e pôr na contradição que é ter sol em um signo de terra e lua em um signo de água, eu o farei. E não tente me convencer a cortar o cabelo quando a lua não for crescente: não que eu acredite em todo esse blém-blém, mas pra que brincar com o destino, certo? Se é pra jogar, deixe-me jogar, e hoje eu estou especialmente a fim de acreditar em tudo que há de haver no universo. 
Nas minhas inquietas madrugadas de insônia, que costumam estender-se até as manhãs, vejo palavras se juntando umas às outras para formar uma obra prima da literatura que só será revelada ao mundo depois de eu ter morrido. Mas, quando finalmente rendo-me ao mundo do subconsciente, não me resta nada após o despertar, cerca de meio dia depois: nem mesmo as memórias da minha angustiante noite de (falta de) sono, onde nada fazia sentido, onde eu tinha até um certo medo do escuro, onde eu já chorei silenciosamente sem qualquer razão (ou por razões demais), onde eu viajei para vários lugares do mundo e da vida, já fui ao passado e vivi tudo de novo, ou mudei tudo - não consigo lembrar; e também já fui ao futuro e ei, olha que curioso é dizer que eu já estive em um momento que ainda não aconteceu… Pois eu já estive lá, e não importa quantas técnicas para pegar no sonho que eu tenha feito… Dormir pode ser muito simples, mas não para mim. Até nisso eu tenho falhado.
Resolvi me entregar às palavras hoje, porque tive um final de semana divertido, porque me senti querida, porque comi o pavê da minha prima e porque o meu celular caiu no vaso sanitário depois de eu ter bebido mais álcool do que o recomendado para um churrasco de sábado. Sei que, se estivesse escrevendo isso em qualquer dia da semana anterior, eu provavelmente estaria recriando músicas da Lana del Rey ou, muito provavelmente, estaria impedida de escrever qualquer coisa por motivos de lágrimas nos olhos… Mas eu esperei. E eu esperei porque eu sabia que o momento chegaria e que eu não perderia para mim mesma dessa vez. Eu sabia que mesmo com toda a minha fragilidade, sensibilidade e inquietação, haveria um dia em que eu estaria me sentindo mais forte e seria capaz de enfrentar toda a confusão que há em mim só para conseguir fazer algo que eu sempre gostei de fazer (eu escreveria só por escrever), mas que não consegui por estar vulnerável demais. Vulnerável nível esponja velha que absorve tudo o que há no mundo, pelo amor dos fucking deuses. Vulnerável nível “se você não me aguenta mais, tente imaginar como eu me sinto em relação a mim.” Pois é: suave como um rio selvagem.
Agora, não tenho a inspiração das minhas noites angustiantes na companhia de mim mesma, mas foi uma escolha minha. Escolho escrever após um domingo tranquilo de ressaca, antes de ver algum episódio de uma série de comédia, antes da semana começar trazendo sabe-se lá que montanha-russa de emoções com ela... Há quem diga que eu sou estranha, eu concordo. Há quem reze por mim à noite, eu agradeço. Há quem desistiu de mim, eu também entendo. Há quem consiga jogar o jogo do contente por cada momento de dificuldade que acontece na vida, e essas pessoas eu admiro completamente. Interiormente, eu até as invejo - tudo o que eu queria era ser mais otimista e encontrar a felicidade em cada momento existente. Sabe, antes eu só queria um gato, minha família e a comida da minha avó. Agora, eu tenho tudo isso e quero o mundo novamente.
É, eu sei. 
O mundo não é uma fábrica de realização de desejos.
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos.
Vai reduzir as ilusões à pó.
São quase 4 da manhã (caramba!), e estou ficando com sono, mas tenho medo de ser a minha mente pregando em mim mais uma peça. Não quero arriscar, apesar de estar em paz, agora. Eu posso ir deitar e encarar todo aquele turbilhão incansável de pensamentos que não me deixa pegar na porra do sono, mas eu poderia simplesmente ir dormir sem nenhum problema. Sem pesadelos com pular de paraquedas em uma tempestade no meio de uma praia em Los Angeles, ou sem receber a visita sufocante de uma anã pintada de índia com olhos enormes de um animal que eu desconheço. Sem tontura por conta da bebida, até porque não bebi para isso. Poderia ir dormir hoje e não sentir saudade da minha vida de "mentirinha" e das minhas inúmeras aventuras dos tempos em que eu era um free bird, como escrevi na minha essay quando o intercâmbio era apenas um sonho distante, mas ainda era um sonho, e era possível; e agora é só um sonho que já passou, mas que não passo um único dia sem lembrar. E não porque era tudo melhor que hoje, ou porque eu tinha tudo e era feliz, e me amava apesar da insônia que ocasionalmente tinha: eu não esqueço porque eu não quero, porque eu tenho pesadelos pensando que eu posso não ser mais tão feliz quanto já fui, porque eu me olho no espelho e não sei direito quem eu me tornei. Hoje, eu me olhei no espelho e me achei muito bonita e leve e em paz, mas eu já falei sobre hoje: hoje foi um dia simples e eu estava feliz. Eu escrevo tranquila, mas não escondo o medo de ter mais dias como os de semana passada - onde eu não conseguia dormir e depois não queria acordar -, a dias como hoje, em que estou bem. 
Fugi das palavras enquanto precisava me esconder, mas quando precisava ser vista, elas vieram ao meu encontro - e também de encontro a mim. Comovo-me com palavras de pessoas solitárias no facebook, e com filmes de comédia teen e com músicas de amor mais do que eu consideraria saudável. Antigamente, via o amor com uma certa ideologia, como fui ensinada a crer por toda a minha vida devido aos livros de romance, às novelas, e aos filmes. É por isso que nunca achei que pertenceria a esse mundo. Não falam muito da confusão do amor.
Daqueles que amam a mais de um e, quando percebem, deixaram de amar a si mesmos.
Daqueles que nunca se sentiram verdadeiramente amados.
Dos que nunca amaram.
Dos que amaram, mas só foram saber disso quando não restava muita bondade depois.
Dos que amaram outros mais do que a si.
Dos que se mudaram pelo amor.
Dos que mudaram por causa de um primeiro amor.
Dos que não conseguiram se entregar mais do que o esperado.
Dos que ao invés de se encontrarem no amor, perderam-se. 
Ninguém gosta de fazer parte do grupo dos desajustados. Ninguém gosta de admitir que o amor pode ser impuro como todas as palavras que saem de nossas bocas em um momentos de raiva. O amor é uma contradição, e isso todo o mundo sabe, mas ninguém aceita muito bem. Quando disseram-me para eu ser feliz, seja lá como e com quem… Deveria eu ver isso como a mais bonita forma de amor, ou como um indicio de que "hey, é isso mesmo: eu desisti de você"?
Não sei direito do que eu estou falando. 
Sei que é preciso deixar o rio seguir seu rumo.
Adeus, correntezas. 
Se tiver que ser pra sempre, que seja para sempre. Se o rio muda enquanto suas águas passam ou não, também não importa. O que importa é quem você é depois que o redemoinho acaba. 
O que restou de mim?, penso enquanto não durmo.
O que restou do amor daqueles que me amavam? Das amizades que um dia eu jurei que seriam para sempre?
O que restou da minha vontade de ser feliz?
Eu não sei. Há dias em que só me resta dormir e esperar que o dia seguinte seja diferente, que seja de alguma maneira especial, que eu não me sinta tão sozinha ou tão louca ou culpada por ser tão instável.
Mas também há dias em que eu deixo as palavras me encontrarem, e nesses dias eu sou capaz de me olhar no espelho e descobrir que eu ainda tenho toda uma vida pela frente, que isso é só uma fase, e que se eu consegui escrever como estou, é porque eu tenho esperança de que mais dias assim virão pela frente. Nesses dias, eu fecho os olhos e rezo antes de dormir porque eu sei que Deus existe, e que o amor é a prova abstrata mais concreta de Sua existência, mesmo que na minha mente confusa e perdida Ele seja "apenas" energia e, de acordo com a Termodinâmica, eu sei que a energia não se perde nunca. 

Se o universo é esse sistema isolado que tanto dizem... e eu faço parte dele, com toda a minha insônia ou com todo o meu excesso de sono, então é porque eu faço parte. Isso basta. O encanto do universo, hoje, é o desencanto de outros dias: estou aqui, não estou? O que me resta, além de continuar seguindo o rio?

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Jogo do contente

Da mesma página de toda uma vida em um ano, escrevo.
Sim, o meu diário de intercâmbio acabou. Talvez a última vez que eu escrevi de verdade foi ainda naquela cidadezinha de nome engraçado que eu tanto amei.
Lá, me descobri: me perdi, me encontrei, me permiti. Vivi o que jamais vivera: sonhei acordada, e, como boa dorminhoca que sou, também sonhei muito dormindo.
Das semanas de pesadelos sem fim, já não me recordo mais. Tento, fracassada e desesperadamente, voltar. Quero todos os frios na barriga, toda a ansiedade, todas as risadas e escapulidas para dates de novo. 
Mas eu não posso ter isso. Eu já me conformei… Então por que parece que eu não me encaixo?
O que essa angústia diz sobre mim? Será a regra dos dois anos… Ou simplesmente o medo de não se pertencer mais, justo agora que percebi que, bem, talvez eu seja mais errante do que eu jamais pude ser?
E, de repente, parece que estou trancada.
Quero sair, não tenho dinheiro.
Quero sair, meus pais não deixam. Mas tudo bem, papai tá doente, vai fazer mal para o coração. Né?
Nessas horas eu sinto saudade de estar no colégio e da época em que a vida era resumida em tardes dando risadas com amigas de longa data.
Hoje, sinto-me só. E um pouco perdida.
Não esperava o contrário: mas eu vejo uma mudança sutil, uma necessidade (voraz, que antes não existia) de agir.
De querer crescer (mais). De querer beijar (mais).
Uma vontade de amar e de ser amada e escrever e ser escrita.
Vontade de fugir da cidade e ir para o campo ver o sol, aproveitar que a responsabilidade da vida adulta tá em greve. 
Queria aprender uma língua nova; e planejar uma viagem. Queria reencontrar amigos. Queria que amizades voltassem a ser como antes: simples, sinceras, e cheias de cantorias mal feitas. Queria ir a França contigo e observar o mar para, quem sabe, ser menos confusa.
Queria companhia pra sair, mas na verdade eu sei que posso fazer isso sozinha. 
Só sei que eu quero tanta coisa… Eu nunca quis fazer tanta coisa quanto agora.
A expectativa está alta por aqui, apesar de o medo ter triplicado. Medo de falhar, de ficar desempregada, de não ser tão feliz quanto antes, de ficar sozinha...
Medo de viver a realidade, sair por aí e pegar um ônibus. Nunca fui tão paranóica. Às vezes eu acho que estou enlouquecendo de verdade.
Mas eu já descobri o que falta: leveza, simplicidade.
Desde quando eu parei de dar valor às coisas simples? 
Desde quando eu parei de jogar o jogo do contente?
Existe uma coisa chamada destino, mas existe uma outra coisa chamada caminho. Eu preciso aprender a parar de pensar demais no futuro. E daí que tá ruim de emprego agora? Eu vou fazer a minha parte, vou aproveitar cada oportunidade, dar o meu melhor, e, quem sabe, as coisas não se ajeitam. Até lá eu posso descobrir meu grande dom da vida e tudo o mais. Ou não, mas, se for o caso, porque tenho de preocupar-me tanto com isso agora, a ponto de me sufocar? Isso não é certo.
Não é certo com quem tá na flor da idade, com quem - mesmo que seja muito preguiçosa, quer muito o que viver.
Se teve algo que eu descobri nesse intercâmbio, foi justamente isso: que é possível, sim, ser feliz e ser profissional. Eu só tenho uma vantagem agora: descobri que gosto de me arriscar, de me jogar de cabeça em coisas totalmente improváveis e, ao mesmo tempo, que acrescentam.
O que me falta agora é a coragem: coragem de sair por aí, de explorar novos lugares, de tentar conhecer novas pessoas. Afinal, o que é a vida senão esse ir e vir? E se não fizermos nada de diferente, o caminho será apenas um trecho de um ônibus, ouvindo a mesma música, sentindo a mesma melancolia que só a rotina é capaz de causar. Esse efeito de desperdício é o que eu não quero ter. Não mais. Eu tive um grande “wake up call”, e as coisas já estão diferentes: mesmo que não estejam tão boas, elas estão diferentes. E isso é só um exemplo de que é possível mudar, é possível observar cada amanhecer com um olhar diferente; mesmo que o entardecer seja um pouco vazio às vezes, e até mesmo sem perspectiva. 
As atitudes importam. Onde já se viu ir para uma despedida e parar em uma praça e tomar umas cervejas? Onde já se viu ir para uma despedida e finalmente acontecer a tal jogada final?
O ponto é justamente ir contra a inércia. A inércia de ficar na mesma, olhando para o teto e esperando a hora passar (e algo diferente acontecer). 
É preciso coragem para superar todos os medos, e para enfrentar a angústia do dia a dia. 
Doses de otimismo, diariamente, são mais do que bem-vindas: novamente, a ideia de escrever sobre as coisas positivas que acontecem no meu dia parece importante. E sair da rotina… olha, isso é muito necessário: nem que seja começar uma série nova, ou finalmente terminar de ler aquele livro jogado na prateleira. 

Eu achei que fosse escrever um texto poético sobre a vida e sobre pertencer. Estava enganada. No momento, precisava extravasar sobre estar presa, sobre precisar sair da zona de conforto (novamente), e sobre tentar ver cada amanhecer como mais um motivo para celebrar. Mesmo que eu esteja confusa, meio perdida, mais avoada do que o normal; mesmo que nada pareça tão interessante quanto observar o pôr do sol de los angeles, ou de andar por aí pela dickson street... se essa é a minha vida agora, eu preciso fazer dela a coisa mais incrível do mundo, extrair água de pedra, açúcar de nuvem, e coisa e tal. 

sexta-feira, 24 de julho de 2015

vestígios, vertigem, e vazio

advertência: o texto abaixo contém altas doses de palavras bagunçadas e sem sentido.


Eu sei.
Eu tenho evitado as palavras como se elas pudessem revelar o que há por trás de toda a armadura.
Algumas pessoas são mais complicadas que outras.
Eu sei.
Eu sou uma delas.

Eu esperava que o verão fosse mais quente. “Prepare-se”, disseram-me. “Em breve você sentirá falta da neve.”
Não sinto. O calor que sinto aqui não faz nem cócegas na minha pele. Eu estou anestesiada.
Enquanto escrevo, sinto como se estivesse tentando subir uma escada rolante que desce para baixo - eu quero mesmo subir? O que há de errado em continuar descendo?

O passado vai me alcançar enquanto eu corro mais rápido. Eu sei.
É uma tarde ensolarada, quente, e agradável. Apenas observo o tempo passar (sempre para frente, pistoleiro. acertando ou errando...) 
A tal da roda que não para de girar.
Pessoas bonitas tirando fotos.
(sempre acho bonito quando as pessoas sorriem para as fotos)
Não tirei nenhuma.

Estou sozinha, mas não estou triste. Não hoje. Escrevo porque eu preciso.
Preciso pra me sentir menos louca.
Eu sei.
Está tudo na minha mente - mas isso não quer dizer que não seja real, Harry.
Talvez eu não tenha muito o que dizer dessa vez. Lamento.
No ônibus, escuridão. "Mama, papa estará lá?"
Cale-se, menino.
“Onde você está? Acalme-se.” 
Eu queria…
“Vai passar. Tudo passa.” 
Eu sei. Obrigada por lembrar. 
(um ano, e foi. passou)

“those echoes… you seemed really lost. were you?”
i was.
“what happened?”
i found myself.  happiness. u can find it too.
“u r a very special girl, Luise.”
eu ouço ecos. do passado, do presente, do futuro. havia um oceano, e eu mergulhei.
“did u really see those sharks?”
i did. 
sharknado!! risadas deliciosas no verão.

eu não sei onde está a minha mente. eu olho no espelho,
não vejo ilhas
não vejo deus,
não vejo criança com trança.
não pipeto gente.
não vejo vortex com palavras ou números, ou amizades verdadeiras. vejo olhos perdidos. intensos, tho. misturo duas línguas na minha mente,
duas estradas totalmente diferentes (quis me beneficiar de ambas, mas sou apenas uma). dividi-me em dois, como se eu pudesse fazer horcruxes de amor e ficar tudo bem. dividi meus amigos entre decepção e saudade, e eis que continuo a dividir; divido meus pensamentos entre memória e expectativa, mas a expectativa é limitada, e minha memória é horrível mas seletiva.

eu sei.
eu sou louca. 
seria tão lindo se eu fosse menos complicadinha. 
seria perfeito, mas não é.
seria tão legal se eu não fosse esquisita. 
“você é muito, muito estranha.”
eu sei. a pessoa mais cansada de mim sou eu.

lembro-me de fayetteville, de todas as pessoas maravilhosas que pude conhecer, e de ter feito amigos como se fossem minha família. amigos nos quais eu podia lamber a mão se quisesse, ou chorar subindo uma montanha, ou assistir a uma competição de ginástica na neve derretida. ver algumas luzes na estrada, sei lá.
lembro-me de los angeles, e do absolut club. mesmo sem ter esperado nada, lá estava eu novamente, dando risadas e criando uns laços que eu não podia imaginar. como é possível que eu esteja fazendo novos amigos?
eu me sinto mais líquida que nunca, diria até que volúvel. percebi agora que escrevi no passado o que ainda está acontecendo. 

estou pronta para escapar... se eu ao menos conseguisse. sou como um furacão que passou por uma cidade vizinha e fez chover, por um final de semana inteiro, onde toda a diversão estava. 
aceite, aceite a chuva, menina! e dance.
deixe-me dançar.
danço sozinha, danço com a minha loucura. sinto-a, na tentativa de ser mais normal, mais igual, menos distante. 
por um momento, while i’m alone, eu aceito ser quem eu sou.
mesmo que eu odeie toda a minha sensibilidade e toda aquela conexão que acontece no metrô quando eu observo desconhecidos.
mesmo que ela pareça forçada para alguns, paranoia para outros, e sufocante, anestesiaste, entorpecente para mim.

aceito toda a confusão que eu sou, toda a sujeira que eu faço quando eu derramo, todas as lágrimas que silenciosamente caem e eu não posso deixarem-se ser vistas.
aceito a minha memória péssima, minhas limitações sociais, meus medos racionais e irracionais. aceito a minha paixão proibida, meu amor 60%, meu cansaço depois do trabalho, minha preguiça de arrumar as coisas, minha insegurança, meu ciúme, minha falta de esperança nos amigos.
aceito a minha incapacidade de não ser quem as pessoas esperam que eu seja. aceito não ser a irmã perfeita, a pseudo namorada perfeita, a amante perfeita, a melhor amiga do mundo. eu sou quem eu sou.

eu sei.
observo uma linda abelha voando ao redor de mim. não gosto de amarelo, mas acho uma combinação perfeita com o preto. é um ótimo outfit para um inseto.
amo observar as abelhas, mas tenho tanto medo delas.
não se aproxime, abelhinha. i’m here u r there, here we are.

“you made me cry with your letter. i miss you.”
“você me fez dormir várias vezes pensando o quanto eu sou isento de qualidades. mas eu ainda quero.”
“eu sou louco por você, então faz um favor pra mim e não me procure mais quando você voltar”
“eu sempre quis. o texto sou eu em palavras. você me derrubou.”
“pardinha emo gótica e depressiva. como não se apaixonar?”
“i was afraid of falling in love with you because you would leave and never coming back again.”

eu quero me apaixonar por mim e não ir embora como acontece com todas as outras pessoas.
eu quero ser o meu próprio motivo de sorriso antes de ser o de outra pessoa.
quero chorar por mim e não fazer chorarem por mim.

eu sei. eu sou tóxica - mas veneno também pode ser cura.
não há como ser terra para uns enquanto sou água para mim mesma. i’m what i am.
eu só estou cansada de ser tão esponja.
tá acabando, mas eu estou pronta (inclusive, levemente ansiosa)

levo de volta uma nova pessoa.
apesar do medo de tudo que vem pela frente.
de não conseguir ser tão feliz quanto pude ser aqui.
de ter crescido muito, vivido muito, a ponto de voltar e não pertencer a nada.
enquanto fui viajante, encontrei-me: estar à deriva tem suas vantagens.
até quando é possível encher um balão sem que ele estoure?
goodbyes are coming, again. mas reencontros também. 

deixo encher-me. 
eu sou muito intensa para aceitar qualquer vazio.



quarta-feira, 3 de junho de 2015

Quando eu estava à deriva

Eu tentei, mas acho que desisto. Finalmente, acho que desisto. Sinto tanto frio que meu corpo não consegue parar de tremer. Acho que estou congelando... Estou congelando no verão. Não me sinto triste, mas essa madrugada me faz querer desistir. Nunca antes me senti tão valorizada, tão abençoada - se é que posso dizer assim-, como me sinto aqui. Um estranho me fez sentir parte de uma família. Uma cerveja tomada legalmente, cachorros fofos e abraços sinceros. Uma música linda, tocada em um piano que, palavras dos donos, nunca havia sido tao magnificamente tocado antes. Isso me fez pensar em corpos, e em humanos… Repetidamente tocando uns aos outros, experimentando vários tatos, na esperança de ter encontrado aquele especial que faça sentido... Que cause verdadeiros arrepios. Não posso ficar triste por ter um sonho se realizando, ou por me sentir querida, ou por me sentir bem vinda, ou por estar sendo, de alguma maneira, útil. Mas, a cada passo que dou de forma correta, tropeço mais e mais. Às vezes, acho que estou sonhando. Talvez esteja. Talvez, tudo o que eu esteja vivendo aqui seja apenas uma ilusão, um sonho bom que estou prestes a acordar... Mas, ao mesmo tempo, sinto que estou caminhando para um despertar diferente, inusitado. Não serei a mesma pessoa quando voltar ao meu verdadeiro lar, assim como não sou mais a mesma que era há uma semana atrás, quando eu vivia uma vida confortável com meus amigos e tudo parecia bem concreto. Agora, novamente, sou pega no desconhecido. 
Uma corrida na madrugada, e eu não sei o que me espera… Mas deu tudo certo. Um passeio de domingo bem extravagante, e a dúvida que não me abandona: quando me acostumarei com isso? Lembro-me do piano, magnificamente tocado, como se fosse uma música divina. Aquele eco maravilhoso pela sala, trazendo paz até às crianças e ao cachorro. E o professor dizendo "é a primeira vez que ouço um som tao pleno vindo desse piano”. Eu imagino como será quando um outro alguém tocar esse piano.Não tão leve? Meu maior medo sobre voltar é justamente a possibilidade de voltar a ser apenas um piano longe de toda sua plenitude possível. O meu outro medo mais interno é ser ensinada a tocar o piano de maneira plena, porém sem conseguir acompanhar, e ainda sentir vergonha por ter até tentado.Sentem pena de mim porque eu acho que não sou boa em nada, mas eu mesma não sinto nada. Há aqueles que sabem tocar, e há aqueles que não sabem. Não cabe a mim ficar triste por isso. Não cabe a mim tentar me fazer sentir especial, porque eu não sou. Não para mim ou para o mundo… Mas eu sei que sou especial para algumas poucas pessoas, e sei que sou tudo para outras. Isso basta. Isso não é mesquinharia, não é ser miserável. Em uma escala de nada a tudo, eu sou os dois, e isso faz com que eu seja nada e tudo, ao mesmo tempo. Isso basta. Mas há dias e dias, entretanto. Ontem, a plenitude daquelas canções tocadas no piano me fez sentir única, especial, grata por estar viva. Hoje, a essa hora, sinto-me meio vazia. Não é mais ontem. Não sei tocar. Tenho insônia. Um dos meus maiores medos é não saber do que mais eu sou feita: de ontem, ou de agora. Eu sou esponja demais, e no momento estou encharcada. Lembro-me daquelas palavras, logo depois do banho e do café sem açúcar, e um carinho que eu nunca havia recebido antes, e que também nunca pude retribuir... "Você é uma boa pessoa”, eu disse. E a resposta que ainda ecoa na minha mente, vez ou outra" Ninguém é apenas bom ou mau”. E eu sorri, surpresa. Soube a verdade naquele instante.
Entretanto, ainda não consigo definir se o bem é capaz de sobrepor o mal, ou se uma pitada de mal já é capaz de estragar toda a receita preparada. Não sei, mesmo. Acho que isso não seria muito justo... Mas então, o que seria justo? Nada. A justiça é uma ilusão, e eu sou uma hipócrita. Que seja injusto, desde que não seja comigo.
Não escuto música nenhuma hoje. Não tem piano nenhum. O que é pior? Um piano que toca apenas uma melodia qualquer, sem a plenitude com que fora tocado antes... Ou não ter piano algum? Mais uma pergunta sem resposta. Eu não sei, e tenho medo de saber. Ainda lembro daqueles olhos azuis molhados de lágrimas, tão salgadas quanto as águas do oceano, e brilhantes como tal. Um azul perdido que disse para eu ser feliz, e que eu continuasse a ser quem eu era mesmo que isso não fosse fácil, porque um dia, eu encontraria quem me tratasse melhor, quem me merecesse de verdade. Naquele momento, fechei meus olhos, e só pude ver olhos verdes, da cor de um lago: olhos lindos, porém tristes e distantes, cansados de ter sonhos adiados, dos planos que deram errado, da família fragmentada, e parte também tristes por mim. Escuto o silêncio, de fora, mas dentro de mim está tudo confuso. Instável, esponja, estranha… Não consigo aceitar muito bem qualquer tropeço. Vejo tropeços como empurrões, destinados a me fazerem ficar no chão, a me derrubar. No chão, por ser amada demais. Pergunto-me: é esse o amor que eu procuro? Via-o caminhando comigo, de mãos dadas... Mas, de repente, estou no chão. Tropecei, ou fui empurrada? Talvez ambos. Já me disseram que eu sou tóxica, e também que estou caminhando para ser um amor liquido, como todos os outros. Estou no chão, e não sei se derramei ou não. Eu realmente não sei. 
Enquanto isso, em uma estrada distante, um caminho é formado. "Só uma coisa... Exclusividade". Era só que eu queria, mas agora... Sinto-me paralisada, novamente. Querida erva daninha, misturada entre minhas plantas. Você desperta o pior de mim, e disso eu tinha esquecido. Mas agora eu escrevo para não esquecer mais: se eu, um dia, tiver a opção de desviar de você, desviarei. De destruição, já basta eu. De mágoas, já bastam as minhas, por quem realmente importa.
Agora... Importa, até quando? Talvez sem ser nessa semana, na próxima. Pode ser.
Não sei.
Acho que desisti.
Enquanto eu não me amar... Não posso ser amada.
Eu sou a única que pode tocar o piano da maneira mais plena possível. Àqueles que foram, que tenham ido. À quem fica… O que resta? Um pêndulo, o tempo, ou uma porta? É difícil dizer adeus para quem eu deixo um pedaço de mim. 

Desisto, ou não?

Minha maior alegria é ter uma âncora.

a glimpse of a month ago, goodbyes, and blue eyes

It is finally spring, but somehow I am still in a winter mood. I go outside and I get surprised by the sun burning my skin, although I don't feel ready to let my legs feel the wind that still bothers me. I'm from a place where is always summer, so I used to think that I enjoy the cold weather. 
Day by day, however, I try to readapt myself for the new and beautiful weather. The silver lining of winter consists on being able to live the other seasons with an intensity as if they were only temporary, and I know that is true. Sooner, it will be winter again. I am happy because it is spring, but deep down I feel sad because one day it will be winter again. And I am not ready.

I know that is not healthy to think like this... I perfectly know that. I know I must enjoy this season, and that's what I'm doing, or trying to do. I just fear what is coming, but I know even winter will pass, too. 

Sometimes I feel suffocated because I am stuck in this weather cycle, just like I am stuck in the week cycle, or college cycle, or any other cycle. It is weird because I can see it all as I don't belong it, but I understand that feeling like I do not belong to anything is also a cycle. I am pretty much human, I am pretty much alive, and sooner or later… I will be pretty much dead, too. I am so rational that I walk side by side with craziness. Nevertheless, I don't think about death at all. It is just one more cycle that I am aware of. On the other hand, I am quite obsessed with hellos and goodbyes. I hate to get to know someone and have to let them go, for any reason. But I also love it, because they all become me. I become the people I've met, their favorite food I had the chance to try, their accent, their habits. I become so sensitive to them that I can feel when they are sad, or happy. I can smile with them, and cry with them. They also absorb me, somehow, and for that reason I need to try to be clear about how important they are to me, so they can have me forever in their hearts just like I will have them forever in mine. This is not easy to attain, though. I do not connect simply. I tend to ignore superficial relationships because I don't like to smile when I don't want to. I love spring more than I love summer because summer reminds me that winter is coming. I know that this is not fair, but I will remember you based on how you have made me feel. However, I don't have a good memory, and I am truly sorry for that. I wish I could remember everything I have ever lived, even those moments when I was really sad. At least I would see that I am no longer sad, or that I've been sadder, or that I am much more happy now, or that whatever I felt is now in the past and it just made me stronger. Sometimes, I try to force my mind to remember what is behind my own wall inside my head, but my tendency is to react about what is going on now. You fucked up with me, I can't believe it. You love me, I love you, too. 

But, hey… If I am like this, how can I still be attached to the winter when it is already springtime? 
I guess I know the answer. I am never ready to say goodbye, ever. 
What is gone, is gone, stupid. Let it go.

I am ocean and land, water and sand. It should be easier to let go something that hurt me, shouldn't it?   However, how could I realize that the best season of me is going away, and not be sad about it?
When I said goodbye to you, you looked at my eyes and cried. At that moment, I didn't see your lies, your life behind, nor the love I have for another guy. It was just you and me, and we were kissing, hugging, and feeling each other for the last time. Your eyes had the color of a beautiful sky, and I will never forget that deep and vivid blue, filled with tears: a reminder of those moments that we had together, and we won't have anymore. Tears for a life that we can no longer share. I touched you for the last time, and I messed up with your hair just like I used to do, but in silence. I knew I wouldn't have anything to say, and I knew I couldn't say anything even if tried. I am going away, probably forever, but I will never forget you. I hate leaving you behind, but I'm glad I met you. You're part of who I am now, and for that I'm really thankful. 

I feel weird, happy, and sad at the same time. But I gotta say goodbye, for real, winter. It is spring, and I'm going back home.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Vejo você depois, inverno

Eu quero sol, quero ar, quero flores e luz das estrelas.
Eu quero me sentir acolhida, cantarolar durante o dia, dormir de exaustão durante a noite.
Quero pertencer e amar…
Mas pra isso eu preciso viver. Escolher.
Escolher algo que não seja dormir à tarde ou ver filme durante a noite. Porque o tempo… bem, ele está acabando. 
Eu costumava observar as nuvens e pensar em algodão-doce instantaneamente. Hoje, só olho pra baixo e ando apressada em direção aos meus sonhos. Mesmo assim, custo a dormir. Insisto em um status de não-existência: algo que eu tirei do berlin-artparasites, algo sobre rotinas e vidas ordinárias. Não quero isso pra mim.
Sinto falta da adrenalina… Até mesmo da adrenalina de viver. Tenho andado cansada, fatigada e talvez até mesmo triste; Quero aproveitar o sol e o tempo bom, mas, de alguma forma, o meu cobertor e a minha cama são mais acolhedores que a luz natural do dia.
Tento dormir. Minha canção de ninar é composta por pássaros cantando e ônibus de comida se aproximando…
Durmo. Tenho pesadelos.
Sou sempre acordada; nunca acordo sozinha e sorrio e penso: ora essa, hoje é um dia lindo para se fazer nada!
Falta-me coragem. Coragem de encarar a luz do dia e de encarar o meu rosto coberto de marcas (olheiras, espinhas, preguiça, desamores).
Agora que as flores estão surgindo, lindas e coloridas, por que eu tenho de me esconder entre os edredões da vida?
Percebo que estou num ciclo vicioso de rotina, de ausência. Mas não uma rotina necessariamente desgostosa, não é isso. Só falta-me coragem para fazer algo diferente, para inovar: não tenho uma rede para pôr nos jardins do campus, mas tenho livros que quero terminar, e tenho carinho pelo sol. Então por que não consigo? Preciso… ir contra a correnteza. É realmente muito fácil se entregar ao comodismo e ao marasmo do dia a dia. Mas eu não posso ser tão preguiçosa assim.
Preciso ousar. 
Acordar um dia e tomar café da manhã (por que não? eu já estou acordada mesmo!).
Pegar um livro e um fone de ouvido e ir curtir um dia de sol… lá fora. Observar os esquilos e as pessoas. Sair da caixa de ar condicionado e do conformismo diário.
Ir à academia, talvez? Ou ao hip hop? Porque é isso que a vida é: momentos de descontração e de novidades. Preciso mover conforme a música… E a música deve ser diferente, única; bem articulada. Preciso encarar o sol, as árvores, as flores e as pessoas. Preciso ouvir música e rir das atitudes estranhas dos seres-esquilos. Preciso dançar de forma esquisita simplesmente porque é quem eu sou. Não há mais tempo pra cochilos. Eu tenho cochilado a minha vida inteira: é hora de acordar, lavar o rosto, e sair por aí; não pra ser louca ou pra fazer loucuras, mas para os dias terem algum significado além de cansaço e sono. 

Eu preciso sair e olhar o céu e fingir que as nuvens são figuras imaginárias; observar as estrelas enquanto eu posso enxergá-las além de prédios e luzes da cidade grande. Preciso sentir-me aquecida pela energia do sol, e aproveitar a primavera, e ver florescer, e me tornar flor.  Não dá pra eu agir como se ainda fosse inverno e como se eu tivesse que correr pra chegar em algum lugar. Tenho que ir só por ir e andar só por andar e viver só por viver. Qualquer coisa além disso, é injusto. Injusto pra mim e pra esse lugar querido que eu chamo de “minha segunda casa”.

sábado, 4 de abril de 2015

Vê-me uma dose de amor líquido, por favor

Eu odeio aquele momento em que encaro as letras em uma espécie de vortex mental, mas não consigo formar nenhuma palavra, muito menos frases. Sei que estão lá, todas as combinações possíveis de vogais, e consoantes, e acentos, e regras gramaticais que há tempo já não me recordo mais. Sei que há um número finito de letras, logo há um número limitado de palavras e combinações de palavras e combinação de frases e combinação de combinações de tudo o que há. Entretanto, através de todos os cálculos que fui capaz de aprender na minha breve e, ao mesmo tempo, longa jornada neste planeta, pude perceber que mesmo que haja um fim, mesmo que o número de combinações seja teoricamente limitado, na prática é como um rio que corre sem fim, uma turbulência que eu até consigo entender superficialmente, mas que sou incapaz de um dia explicar. Já me peguei olhando para o céu e contando as estrelas e, no meu campo de visão limitado, enquanto permanecia atenta para não perder uma estrelinha sequer, jurava ter contado todas. Piscava meus olhos, e lá estava eu, perdida novamente, sem saber por onde começar a contar. 

Acho que algumas coisas não devem ser contadas, mas eu sempre amei contas apesar de, contraditoriamente, não conferir o troco após comprar alguma coisa, pois sei que facilmente irei me perder. Por outro lado, humanizava a divisão, secretamente - quem disse que não se pode dividir por zero? Por qual motivo, mesmo? Se eu divido algo por zero, isso não quer dizer que, no fundo, não estou dividindo? Intrigava-me a comoção que uma divisão por zero causava na escola: nos professores, nos alunos. Até aqueles que odiavam matemática gostavam de bradar aos 7 ventos que dividir por zero era uma operação impossível, e cogitar essa divisão era inaceitável. Eu, escondida, via-me pensando no que seria essa divisão, e como podiam concluir algo tão concreto mesmo que todo o resto seja apenas uma abstração… Na faculdade, pelo menos, tive a oportunidade de descobrir muitos mitos e estudar com mais profundidade tudo o que eu havia visto antes de maneira tão superficial. Percebi que muito do que sabia não passava de meras conveniências que são nos ensinadas para que possamos seguir adiante. Falácias sobre a Química, a Física, a Matemática, e a Biologia caíram todas por terras. Não que eu me lembre delas agora, estou longe disso. 

Vi sobre o gato que morre e vive (ao mesmo tempo!) enquanto não abrimos a tal caixa, e aprendi que dividir por zero nos leva, na verdade, ao infinito. Não que o infinito exista, mas se eu baseio as minhas contas em abstrações, como uma divisão por zero, então a minha solução é simples: o resultado da divisão é o infinito. Descobri, no meu estranho jeito de observar o mundo ao meu redor, que o impossível existe… Nem que seja para limitar o que é possível. Divido por zero, e a resposta é o infinito. Novamente: não que o infinito exista, mas ele pode muito bem existir, isolado lá no infinito, inacessível e desacreditado… Mas lá. Uma concretização de uma abstração.

Já a combinação de todas as palavras do mundo, no meu vortex mental (eu sou louca, eu fecho os olhos e vejo palavras sendo formadas… Mas não conheço todas, então minha imagem delas é limitada, assim como minhas palavras acabam sendo limitadas também), apesar de ser teoricamente limitada, é ilimitada… Trata-se de uma abstração de algo concreto. Quando comecei a escrever, não via nada: nenhum vórtex, nenhuma letrinha entrando ou saindo de um túnel imaginário digno de uma abertura de Doctor Who… E cá estou, agora, de madrugada, escrevendo sobre contas e palavras - contando palavras, e dissertando sobre contas. 


Eu não faço muito sentido.
Eu sei que sou sólida, mas meus pensamentos são líquidos. 
Eu sei que sou sólida, porque quando fui atropelada, ou quando me bateram, ou quando bati, ou quando toquei e fui tocada, eu senti. Meus pensamentos são líquidos, assim como todos os pensamentos, porque eu não consigo parar de pensar - meus pensamentos sempre escorrem, sempre, sempre! Quando durmo, eles escorrem, e eu não tenho controle, eu nunca tive e nunca terei. Mas eu penso, logo eu existo. Eu só sou sólida porque sou também líquido.
E se eu não escorri até deixar de existir, é porque eu sou muito, muito sólida.
Sou tanto mar quanto terra. Eu sou o infinito, porque eu sou tudo o que há, e tudo que vejo é porque eu sou eu, sólida e líquida, carne e alma.
Eu sou o nada, porque de tudo o que é o infinito, eu sou uma irrelevância, uma insignificância, uma abstração do concreto… Uma concretização da abstração.

Eu sou o impossível para o que é possível, e o que seria possível no impossível. Eu sou literalmente tudo isso: toda essa confusão que é ser humana, que é pensar, e que talvez seja ser qualquer outra coisa nessa vida que exista (mas eu só não sei disso porque eu sou eu, e apenas eu - obrigada, de nada.)
De tudo que eu sei, sei mais que não sei muito.
Eu estou cansada.
Espero que Deus exista.

Eu sigo a lua, e ela corre de mim como uma mulher sozinha na rua corre de um desconhecido. 
É o que eu vejo - mas não é o que eu acredito. Sei que a lua está muito bem parada lá no céu, e que eu é que me movo. Sei que, naqueles dias em que não saí da minha cama por 12 horas, a Terra deu meia volta. Mesmo assim… É como se eu não tivesse me movido. Sou um ponto fixo no universo, com uma simples excessão: eu não sou. Não sou nem um ponto, nem fixa. Pro inferno! Eu sou uma criatura egocêntrica que por algum motivo (ou não, que seja) existe, e é isso que importa.
Meu perfume sou eu, e todos somos perfumes, com nossa própria fragrância - única mesmo que universal. Somos todos líquidos sob uma pele sólida. Somos todos estrela, mas cada um brilha de maneira única, porque ninguém é ninguém além de si mesmo, mesmo que sejamos todos fragmentos, e que sejamos sempre fragmentados; e mesmo que em cada esquina caia um pouco a nossa vida, e em pouco tempo não sejamos mais o que éramos… A cada esquina ganha-se mais vida. A cada esquina se ganha um novo perfume, uma nova luminosidade.

Às vezes, eu choro porque eu imagino um mundo onde todas as luzes serão apagadas, e só o que restará é a nossa própria luz. E existirão infinitas luzes de finitas (porém, de forma prática, infinitas) cores, cada pessoa com a sua cor exclusiva. E eu consigo ver inúmeras combinações: eu vejo amor, e eu vejo almas solitárias encontrando-se com outras almas também solitárias; e eu sinto os corações partidos juntando cada pedacinho que é possível juntar, porque agora que está tudo escuro, só o verdadeiro interior é capaz de iluminar e de guiar... Eu choro pois eu não sei se acredito em nada disso… Mas eu também rio, porque sei que se existir uma cor para cada pessoa existente nesse planeta, então eu sou muito mais limitada do que imaginava ser, pelo simples fato de que eu julgava ser possível contar o número de cores existentes… Ou acreditava em quem me dizia que existe um determinado número de cores na luz branca (acho que falta-lhes dividir este número por zero)... Ou porque eu tentava contar as estrelas existentes no céu.

Queria eu não ser líquida por dentro, assim meus pensamentos e meus sentimentos não seriam líquidos também. Queria eu não ser perfume, porque perfumes enjoam, e perfumes quebram, e quando isso acontece não há muito o que fazer além de seguir em frente (até porque, o mundo está girando sempre, está seguindo adiante e eu não quero ficar para trás). Queria eu ser capaz de ouvir um “eu te amo” sem ouvir um “mas” em seguida. Entretanto, seria eu também capaz de amar, sem usar uma interrogação depois? Seria eu sólida o bastante para amar todo o líquido que há em mim, cada gota dele, para assim ser capaz de amar outra pessoa da forma mais sólida possível? Sem fazer contas, nunca mais… Sem concretizar o que é abstrato… Porque eu sou alma em um perfume, e sou lama quando ele derrama no chão e se mistura com todas as outras fragrâncias caídas em cada esquina existente. 

Eu amo, mas é foda. Amar é foda. 
Eu não faço sentido... Então como minhas palavras, e todas as possíveis combinações delas, poderiam fazê-lo?  Se eu fujo pelo deserto, o caos vai atrás. 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Raios, lembranças e rosas

Ei, mas o que é isso?
Escrevi "gostaria de lembrar dos meus sonhos mais frequentemente" e,
de repente,
todo um dia, toda uma manhã, todo um momento passou pela minha mente.
Foi como se eu tivesse sido atingida por um raio, mas, ao invés de luzes e eletricidade, memórias e lágrimas.
As lágrimas não são de tristeza nem de alegria, apenas de susto e, talvez, de saudade. Mas acho que nostalgia se encaixa melhor...
Está fugindo... De mim.
Como quando eu sonho e, no instante em que eu abro os olhos, esqueço: como se tudo tivesse simplesmente deixado de existir, ou, pior, não tivesse sequer existido em momento algum. Aquela sensação fulgaz de querer tocar e reviver algo que está só na minha mente.
Porém... Não foi isso que aconteceu agora; não, não foi nada disso - apesar da sensação de que o mundo ao meu redor estava sendo dissolvido e dissipado... Eu lembrei.
Lembrei de algo tolo, relativamente recente. Sem um apelo sentimental sequer (bem, pelo menos até o presente). Simplesmente sufoquei-me pelo passado, aquele que não volta mais, aquele em que o presente e o futuro jamais alcançarão, o que tá tudo bem... É só que eu sou uma pessoa de lembranças, e olha quanta ironia considerando que eu tenho dificuldade de lembrar até o que eu comi no café da manhã! A verdade é que eu sou tudo isso, sou o passado, sou o presente (agora muito mais do que já fora um dia; mais esponja, mais feliz, mais eu mesma e as minhas confusões), e sou o futuro, tudo-ao-mesmo-tempo-agora. Sou o que não sei e o que irei descobrir. Mas de que isso importa?
Só queria dizer que eu lembrei daquele dia de sol, de correria pra pegar um ônibus que nunca havia pegado, pra sentar ao lado de quem nunca havia trocado nada mais do que um "oi, como você tá?", pra ser guiada pela cidade maravilhosa por quem eu gostava (que ia falar "senhora, você sabe onde nós estamos? Ali é Botafogo, e ali é a Urca..."). Lembro-me que estava aflita com a prova de Programação no dia seguinte (a que todo o mundo entendia a matéria menos eu, sendo irracional demais para criar qualquer lógica de computador). Lembro-me que seria um dia perfeito se não fosse a tal sensação ruim de véspera de prova, ainda mais daquela, não é mesmo? E ah... Que estranho.
Uma manhã inteira. Tiramos foto num quartzo gigante (não imaginava que voltaria lá depois para caçar crostas polimetalicas e sujar minha mão de minérios e antiguidade e oceano, e como eu amo oceano!)... Uma manhã inteira. Naquele lugar meio mágico, meio divertido.
Mergulhão, alguns amigos, tour, quartzo, rochas. Minerais. Muitas rochas e muitos minerais.
Um certo impulso de chorar agora... Porque eu lembrei de algo que eu jamais ousaria ser possível lembrar: o museu tem muitas salas; mas uma, em especial, tinha alguma espécie de fóssil de dinossauro. E um quebra-cabeça educativo. Porém... Eu odiei aquele lugar, porque faltava uma peça do maldito quebra-cabeça. "Me diz, quem em sã consciência deixa um quebra-cabeça faltando peça em um museu?". As meninas não me levaram a sério, elas já me achavam meio maluca na época... Mas eu lembro que fiquei realmente transtornada e agoniada. Porque a minha essência é completar. Mas eu sei que isso é impossível, eu gosto da diversão do momento, de apreciar pela janela, de correr o risco da montanha-russa despencar: eu gosto da adrenalina... Mas o que me deixou infeliz lá (alem da tal prova no dia seguinte) foi que o quebra-cabeça já estava montado e, ainda sim, estava incompleto. Não havia o que fazer: só deixar a sala correndo, como quem vê uma aranha, e praticamente ignorar o que eu havia visto. Lágrimas. Eu, lá, antes. Eu, aqui, agora. "Você vai superar, garota." Brincaram (essa parte pode ser meramente fruto da minha imaginação).
Agora, percebo, há outras coisas a serem vistas: salas e mais salas, rochas e mais rochas, minerais e mais minerais. A gente entra numa sala, se assusta, se desespera e foge; mas ufa, há sempre algo a mais para ser visto e explorado.
Entramos na sala que era o objetivo principal da visita... E nossa, por onde começar? Algumas pessoas começaram do começo; outras, do fim. Mas o que é o começo e o que é o fim? No final das contas... Entre tantas repartições, novidades, ciência, tédio, amor, medo... Nós nos encontramos no meio. E estávamos todos cansados.
Sentamos: muitas conversas, algumas risadas. De repente, falamos sobre sonhos, sonhos lúcidos, pesadelos... E, da mesma forma que o assunto começou, a conversa cessou, quase como se não pudesse ter sequer acontecido. E foi essa conversa que me levou a escrever isso, hoje, e lembrar de coisas tão profundas na minha mente quanto se é possível.
Hora de prosseguir: ainda há o que ver e descobrir. Prosseguimos, fatigados. Já tá na hora de ir embora?
Mas antes, uma pausa para a lenda. Paçoca. Origem e nome cientifico. Risadas, fotos... Yupi! Hora de ir embora comer.
Despedimos da professora. Alguém foi nos guiando até o Rio Sul.
No caminho, não lembro de muita coisa.
Talvez uma conversa sobre "eu já fiz essa matéria",  e outras do tipo "eu também estou com medo", "é tudo muito fácil", " foi aqui que eu comprei o ingresso", "esse livro é simplesmente incrível", " eu tenho muitas teorias do que pode acontecer"... Enfim, ao mesmo tempo que eu estava lá, eu não pertencia.
Mas a hora de comer chegou, e cada grupo foi para o seu canto. No meu, tinha algumas coroas rosas.. E nada além disso.
Depois, esqueço.
Agora, dormirei.
Não esperava que uma frase me remetesse a tanta coisa, e de maneira tão súbita que foi quase enlouquecedor. Mas, pelo menos, vivi novamente aquele dia agradável mesmo sendo véspera de uma prova... E, de forma estranha, mais uma vez notei que mesmo que esteja faltando uma peça no quebra-cabeça, há sempre uma sala repleta de história e geologia e sol e energia e vida e sonhos para se adentrar. Há sempre uma porta que diz "vá adiante, pistoleiro, que você ainda tem muito caminho a percorrer". Há sempre uma rosa, mesmo que negativa e falhada, a ser vista. Nem que seja sismicamente. Uma jornada a ser guiada, uma angústia a ser superada, um sonho a ser sonhado... Porque há outros mundos além destes: mundos repletos de eletricidade, de memória e de conhecimento.  E de passado.
Para cada grão, uma historia.
Para cada memória, um ponto fixo no tempo e espaço: analisado, química e fisicamente, como quem não quer nada.
Para cada história, cada memória, cada grão: novos mundos, infinitos mundos.
Um universo dentro de uma lágrima.
E cordas, e pêndulos, e toda a Ciência. Tudo isso formando um oceano, uma praia, um museu... E, como nos quadros, são apenas paisagens restringidas por molduras... Para, quem sabe, não nos perdemos nessa imensidão de imensidões; para não nos aforgarmos com o excesso de grãos e de gotas...  e de mundos, sonhos e portas.
A moldura é  útil para por limites e para nos trazer de volta a realidade, nos fazer pegar o ônibus certo e voltar para a casa da (in)sanidade. Porque um pouquinho de loucura faz bem, mas a verdade é que é impossível permanecer são perante toda a perspectiva de todos os quadros de todas as praias e mares do mundo (do nosso mundo, do nosso universo). Apenas...
A conversa cessou, temos de seguir explorando.
Por um momento ínfimo, foi possível perceber a plenitude de todas as coisas, o arranjo de todas as peças (incluindo a que está faltando), o soprar dos ventos criando as ondas, empurrando os grãos de areia e afogando os mundos (de amor? de dor? de saber?). Mas tem hora que tudo se aquieta... E até o silêncio é possível escutar: a beleza de perceber a pequenez de todas as coisas.
Fui recompensada com um raio de lembranças vagas e inebriantes; e, agora, sinto-me mais como parte de um quadro, eu mesma sendo uma peça que às vezes tem o seu papel de relembrar e pertencer. E de me sentir satisfeita por ter sonhado, e, mesmo que ao acordar eu não lembre de mais nada, ou que nada pareça ter sentido, pelo menos agora eu sei que eu vi, que eu existi, que eu senti e ouvi. E que as lágrimas são necessárias, porque elas são os multiversos da vida, os potinhos de sentido que de vez em quando a gente precisa para não nos hipnotizarmos com certos quadros de perspectiva infinita, cheios de lagos escuros e sombrios. Só está permitido se prender às estrelas e às nuvens de algodão doce, e, é claro, apenas por um breve momento: porque luz demais também cega e enlouquece; a dosagem é importante. Mas, antes de ir para um mundo que não é totalmente verdadeiro, não há nada mais tranquilizador do que saber que é possível sonhar com memórias boas e com salas cheias de rosas.