segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Jogo do contente

Da mesma página de toda uma vida em um ano, escrevo.
Sim, o meu diário de intercâmbio acabou. Talvez a última vez que eu escrevi de verdade foi ainda naquela cidadezinha de nome engraçado que eu tanto amei.
Lá, me descobri: me perdi, me encontrei, me permiti. Vivi o que jamais vivera: sonhei acordada, e, como boa dorminhoca que sou, também sonhei muito dormindo.
Das semanas de pesadelos sem fim, já não me recordo mais. Tento, fracassada e desesperadamente, voltar. Quero todos os frios na barriga, toda a ansiedade, todas as risadas e escapulidas para dates de novo. 
Mas eu não posso ter isso. Eu já me conformei… Então por que parece que eu não me encaixo?
O que essa angústia diz sobre mim? Será a regra dos dois anos… Ou simplesmente o medo de não se pertencer mais, justo agora que percebi que, bem, talvez eu seja mais errante do que eu jamais pude ser?
E, de repente, parece que estou trancada.
Quero sair, não tenho dinheiro.
Quero sair, meus pais não deixam. Mas tudo bem, papai tá doente, vai fazer mal para o coração. Né?
Nessas horas eu sinto saudade de estar no colégio e da época em que a vida era resumida em tardes dando risadas com amigas de longa data.
Hoje, sinto-me só. E um pouco perdida.
Não esperava o contrário: mas eu vejo uma mudança sutil, uma necessidade (voraz, que antes não existia) de agir.
De querer crescer (mais). De querer beijar (mais).
Uma vontade de amar e de ser amada e escrever e ser escrita.
Vontade de fugir da cidade e ir para o campo ver o sol, aproveitar que a responsabilidade da vida adulta tá em greve. 
Queria aprender uma língua nova; e planejar uma viagem. Queria reencontrar amigos. Queria que amizades voltassem a ser como antes: simples, sinceras, e cheias de cantorias mal feitas. Queria ir a França contigo e observar o mar para, quem sabe, ser menos confusa.
Queria companhia pra sair, mas na verdade eu sei que posso fazer isso sozinha. 
Só sei que eu quero tanta coisa… Eu nunca quis fazer tanta coisa quanto agora.
A expectativa está alta por aqui, apesar de o medo ter triplicado. Medo de falhar, de ficar desempregada, de não ser tão feliz quanto antes, de ficar sozinha...
Medo de viver a realidade, sair por aí e pegar um ônibus. Nunca fui tão paranóica. Às vezes eu acho que estou enlouquecendo de verdade.
Mas eu já descobri o que falta: leveza, simplicidade.
Desde quando eu parei de dar valor às coisas simples? 
Desde quando eu parei de jogar o jogo do contente?
Existe uma coisa chamada destino, mas existe uma outra coisa chamada caminho. Eu preciso aprender a parar de pensar demais no futuro. E daí que tá ruim de emprego agora? Eu vou fazer a minha parte, vou aproveitar cada oportunidade, dar o meu melhor, e, quem sabe, as coisas não se ajeitam. Até lá eu posso descobrir meu grande dom da vida e tudo o mais. Ou não, mas, se for o caso, porque tenho de preocupar-me tanto com isso agora, a ponto de me sufocar? Isso não é certo.
Não é certo com quem tá na flor da idade, com quem - mesmo que seja muito preguiçosa, quer muito o que viver.
Se teve algo que eu descobri nesse intercâmbio, foi justamente isso: que é possível, sim, ser feliz e ser profissional. Eu só tenho uma vantagem agora: descobri que gosto de me arriscar, de me jogar de cabeça em coisas totalmente improváveis e, ao mesmo tempo, que acrescentam.
O que me falta agora é a coragem: coragem de sair por aí, de explorar novos lugares, de tentar conhecer novas pessoas. Afinal, o que é a vida senão esse ir e vir? E se não fizermos nada de diferente, o caminho será apenas um trecho de um ônibus, ouvindo a mesma música, sentindo a mesma melancolia que só a rotina é capaz de causar. Esse efeito de desperdício é o que eu não quero ter. Não mais. Eu tive um grande “wake up call”, e as coisas já estão diferentes: mesmo que não estejam tão boas, elas estão diferentes. E isso é só um exemplo de que é possível mudar, é possível observar cada amanhecer com um olhar diferente; mesmo que o entardecer seja um pouco vazio às vezes, e até mesmo sem perspectiva. 
As atitudes importam. Onde já se viu ir para uma despedida e parar em uma praça e tomar umas cervejas? Onde já se viu ir para uma despedida e finalmente acontecer a tal jogada final?
O ponto é justamente ir contra a inércia. A inércia de ficar na mesma, olhando para o teto e esperando a hora passar (e algo diferente acontecer). 
É preciso coragem para superar todos os medos, e para enfrentar a angústia do dia a dia. 
Doses de otimismo, diariamente, são mais do que bem-vindas: novamente, a ideia de escrever sobre as coisas positivas que acontecem no meu dia parece importante. E sair da rotina… olha, isso é muito necessário: nem que seja começar uma série nova, ou finalmente terminar de ler aquele livro jogado na prateleira. 

Eu achei que fosse escrever um texto poético sobre a vida e sobre pertencer. Estava enganada. No momento, precisava extravasar sobre estar presa, sobre precisar sair da zona de conforto (novamente), e sobre tentar ver cada amanhecer como mais um motivo para celebrar. Mesmo que eu esteja confusa, meio perdida, mais avoada do que o normal; mesmo que nada pareça tão interessante quanto observar o pôr do sol de los angeles, ou de andar por aí pela dickson street... se essa é a minha vida agora, eu preciso fazer dela a coisa mais incrível do mundo, extrair água de pedra, açúcar de nuvem, e coisa e tal. 

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