segunda-feira, 31 de agosto de 2015

universo, (des)encanto

Eu tenho fugido das palavras como o homem de preto fugia pelo deserto na tentativa de deixar o pistoleiro para trás. 
Entretanto, ambos sabíamos que o encontro era inevitável, logo o melhor que podíamos esperar era que ele acontecesse em um momento onde as cartas estivessem ao nosso favor ou quando a lua estivesse na sua fase mais bonita. Não que cartas ou astros façam alguma diferença, mas se eu quiser tirar um pouco do peso de mim e pôr na contradição que é ter sol em um signo de terra e lua em um signo de água, eu o farei. E não tente me convencer a cortar o cabelo quando a lua não for crescente: não que eu acredite em todo esse blém-blém, mas pra que brincar com o destino, certo? Se é pra jogar, deixe-me jogar, e hoje eu estou especialmente a fim de acreditar em tudo que há de haver no universo. 
Nas minhas inquietas madrugadas de insônia, que costumam estender-se até as manhãs, vejo palavras se juntando umas às outras para formar uma obra prima da literatura que só será revelada ao mundo depois de eu ter morrido. Mas, quando finalmente rendo-me ao mundo do subconsciente, não me resta nada após o despertar, cerca de meio dia depois: nem mesmo as memórias da minha angustiante noite de (falta de) sono, onde nada fazia sentido, onde eu tinha até um certo medo do escuro, onde eu já chorei silenciosamente sem qualquer razão (ou por razões demais), onde eu viajei para vários lugares do mundo e da vida, já fui ao passado e vivi tudo de novo, ou mudei tudo - não consigo lembrar; e também já fui ao futuro e ei, olha que curioso é dizer que eu já estive em um momento que ainda não aconteceu… Pois eu já estive lá, e não importa quantas técnicas para pegar no sonho que eu tenha feito… Dormir pode ser muito simples, mas não para mim. Até nisso eu tenho falhado.
Resolvi me entregar às palavras hoje, porque tive um final de semana divertido, porque me senti querida, porque comi o pavê da minha prima e porque o meu celular caiu no vaso sanitário depois de eu ter bebido mais álcool do que o recomendado para um churrasco de sábado. Sei que, se estivesse escrevendo isso em qualquer dia da semana anterior, eu provavelmente estaria recriando músicas da Lana del Rey ou, muito provavelmente, estaria impedida de escrever qualquer coisa por motivos de lágrimas nos olhos… Mas eu esperei. E eu esperei porque eu sabia que o momento chegaria e que eu não perderia para mim mesma dessa vez. Eu sabia que mesmo com toda a minha fragilidade, sensibilidade e inquietação, haveria um dia em que eu estaria me sentindo mais forte e seria capaz de enfrentar toda a confusão que há em mim só para conseguir fazer algo que eu sempre gostei de fazer (eu escreveria só por escrever), mas que não consegui por estar vulnerável demais. Vulnerável nível esponja velha que absorve tudo o que há no mundo, pelo amor dos fucking deuses. Vulnerável nível “se você não me aguenta mais, tente imaginar como eu me sinto em relação a mim.” Pois é: suave como um rio selvagem.
Agora, não tenho a inspiração das minhas noites angustiantes na companhia de mim mesma, mas foi uma escolha minha. Escolho escrever após um domingo tranquilo de ressaca, antes de ver algum episódio de uma série de comédia, antes da semana começar trazendo sabe-se lá que montanha-russa de emoções com ela... Há quem diga que eu sou estranha, eu concordo. Há quem reze por mim à noite, eu agradeço. Há quem desistiu de mim, eu também entendo. Há quem consiga jogar o jogo do contente por cada momento de dificuldade que acontece na vida, e essas pessoas eu admiro completamente. Interiormente, eu até as invejo - tudo o que eu queria era ser mais otimista e encontrar a felicidade em cada momento existente. Sabe, antes eu só queria um gato, minha família e a comida da minha avó. Agora, eu tenho tudo isso e quero o mundo novamente.
É, eu sei. 
O mundo não é uma fábrica de realização de desejos.
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos.
Vai reduzir as ilusões à pó.
São quase 4 da manhã (caramba!), e estou ficando com sono, mas tenho medo de ser a minha mente pregando em mim mais uma peça. Não quero arriscar, apesar de estar em paz, agora. Eu posso ir deitar e encarar todo aquele turbilhão incansável de pensamentos que não me deixa pegar na porra do sono, mas eu poderia simplesmente ir dormir sem nenhum problema. Sem pesadelos com pular de paraquedas em uma tempestade no meio de uma praia em Los Angeles, ou sem receber a visita sufocante de uma anã pintada de índia com olhos enormes de um animal que eu desconheço. Sem tontura por conta da bebida, até porque não bebi para isso. Poderia ir dormir hoje e não sentir saudade da minha vida de "mentirinha" e das minhas inúmeras aventuras dos tempos em que eu era um free bird, como escrevi na minha essay quando o intercâmbio era apenas um sonho distante, mas ainda era um sonho, e era possível; e agora é só um sonho que já passou, mas que não passo um único dia sem lembrar. E não porque era tudo melhor que hoje, ou porque eu tinha tudo e era feliz, e me amava apesar da insônia que ocasionalmente tinha: eu não esqueço porque eu não quero, porque eu tenho pesadelos pensando que eu posso não ser mais tão feliz quanto já fui, porque eu me olho no espelho e não sei direito quem eu me tornei. Hoje, eu me olhei no espelho e me achei muito bonita e leve e em paz, mas eu já falei sobre hoje: hoje foi um dia simples e eu estava feliz. Eu escrevo tranquila, mas não escondo o medo de ter mais dias como os de semana passada - onde eu não conseguia dormir e depois não queria acordar -, a dias como hoje, em que estou bem. 
Fugi das palavras enquanto precisava me esconder, mas quando precisava ser vista, elas vieram ao meu encontro - e também de encontro a mim. Comovo-me com palavras de pessoas solitárias no facebook, e com filmes de comédia teen e com músicas de amor mais do que eu consideraria saudável. Antigamente, via o amor com uma certa ideologia, como fui ensinada a crer por toda a minha vida devido aos livros de romance, às novelas, e aos filmes. É por isso que nunca achei que pertenceria a esse mundo. Não falam muito da confusão do amor.
Daqueles que amam a mais de um e, quando percebem, deixaram de amar a si mesmos.
Daqueles que nunca se sentiram verdadeiramente amados.
Dos que nunca amaram.
Dos que amaram, mas só foram saber disso quando não restava muita bondade depois.
Dos que amaram outros mais do que a si.
Dos que se mudaram pelo amor.
Dos que mudaram por causa de um primeiro amor.
Dos que não conseguiram se entregar mais do que o esperado.
Dos que ao invés de se encontrarem no amor, perderam-se. 
Ninguém gosta de fazer parte do grupo dos desajustados. Ninguém gosta de admitir que o amor pode ser impuro como todas as palavras que saem de nossas bocas em um momentos de raiva. O amor é uma contradição, e isso todo o mundo sabe, mas ninguém aceita muito bem. Quando disseram-me para eu ser feliz, seja lá como e com quem… Deveria eu ver isso como a mais bonita forma de amor, ou como um indicio de que "hey, é isso mesmo: eu desisti de você"?
Não sei direito do que eu estou falando. 
Sei que é preciso deixar o rio seguir seu rumo.
Adeus, correntezas. 
Se tiver que ser pra sempre, que seja para sempre. Se o rio muda enquanto suas águas passam ou não, também não importa. O que importa é quem você é depois que o redemoinho acaba. 
O que restou de mim?, penso enquanto não durmo.
O que restou do amor daqueles que me amavam? Das amizades que um dia eu jurei que seriam para sempre?
O que restou da minha vontade de ser feliz?
Eu não sei. Há dias em que só me resta dormir e esperar que o dia seguinte seja diferente, que seja de alguma maneira especial, que eu não me sinta tão sozinha ou tão louca ou culpada por ser tão instável.
Mas também há dias em que eu deixo as palavras me encontrarem, e nesses dias eu sou capaz de me olhar no espelho e descobrir que eu ainda tenho toda uma vida pela frente, que isso é só uma fase, e que se eu consegui escrever como estou, é porque eu tenho esperança de que mais dias assim virão pela frente. Nesses dias, eu fecho os olhos e rezo antes de dormir porque eu sei que Deus existe, e que o amor é a prova abstrata mais concreta de Sua existência, mesmo que na minha mente confusa e perdida Ele seja "apenas" energia e, de acordo com a Termodinâmica, eu sei que a energia não se perde nunca. 

Se o universo é esse sistema isolado que tanto dizem... e eu faço parte dele, com toda a minha insônia ou com todo o meu excesso de sono, então é porque eu faço parte. Isso basta. O encanto do universo, hoje, é o desencanto de outros dias: estou aqui, não estou? O que me resta, além de continuar seguindo o rio?

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Jogo do contente

Da mesma página de toda uma vida em um ano, escrevo.
Sim, o meu diário de intercâmbio acabou. Talvez a última vez que eu escrevi de verdade foi ainda naquela cidadezinha de nome engraçado que eu tanto amei.
Lá, me descobri: me perdi, me encontrei, me permiti. Vivi o que jamais vivera: sonhei acordada, e, como boa dorminhoca que sou, também sonhei muito dormindo.
Das semanas de pesadelos sem fim, já não me recordo mais. Tento, fracassada e desesperadamente, voltar. Quero todos os frios na barriga, toda a ansiedade, todas as risadas e escapulidas para dates de novo. 
Mas eu não posso ter isso. Eu já me conformei… Então por que parece que eu não me encaixo?
O que essa angústia diz sobre mim? Será a regra dos dois anos… Ou simplesmente o medo de não se pertencer mais, justo agora que percebi que, bem, talvez eu seja mais errante do que eu jamais pude ser?
E, de repente, parece que estou trancada.
Quero sair, não tenho dinheiro.
Quero sair, meus pais não deixam. Mas tudo bem, papai tá doente, vai fazer mal para o coração. Né?
Nessas horas eu sinto saudade de estar no colégio e da época em que a vida era resumida em tardes dando risadas com amigas de longa data.
Hoje, sinto-me só. E um pouco perdida.
Não esperava o contrário: mas eu vejo uma mudança sutil, uma necessidade (voraz, que antes não existia) de agir.
De querer crescer (mais). De querer beijar (mais).
Uma vontade de amar e de ser amada e escrever e ser escrita.
Vontade de fugir da cidade e ir para o campo ver o sol, aproveitar que a responsabilidade da vida adulta tá em greve. 
Queria aprender uma língua nova; e planejar uma viagem. Queria reencontrar amigos. Queria que amizades voltassem a ser como antes: simples, sinceras, e cheias de cantorias mal feitas. Queria ir a França contigo e observar o mar para, quem sabe, ser menos confusa.
Queria companhia pra sair, mas na verdade eu sei que posso fazer isso sozinha. 
Só sei que eu quero tanta coisa… Eu nunca quis fazer tanta coisa quanto agora.
A expectativa está alta por aqui, apesar de o medo ter triplicado. Medo de falhar, de ficar desempregada, de não ser tão feliz quanto antes, de ficar sozinha...
Medo de viver a realidade, sair por aí e pegar um ônibus. Nunca fui tão paranóica. Às vezes eu acho que estou enlouquecendo de verdade.
Mas eu já descobri o que falta: leveza, simplicidade.
Desde quando eu parei de dar valor às coisas simples? 
Desde quando eu parei de jogar o jogo do contente?
Existe uma coisa chamada destino, mas existe uma outra coisa chamada caminho. Eu preciso aprender a parar de pensar demais no futuro. E daí que tá ruim de emprego agora? Eu vou fazer a minha parte, vou aproveitar cada oportunidade, dar o meu melhor, e, quem sabe, as coisas não se ajeitam. Até lá eu posso descobrir meu grande dom da vida e tudo o mais. Ou não, mas, se for o caso, porque tenho de preocupar-me tanto com isso agora, a ponto de me sufocar? Isso não é certo.
Não é certo com quem tá na flor da idade, com quem - mesmo que seja muito preguiçosa, quer muito o que viver.
Se teve algo que eu descobri nesse intercâmbio, foi justamente isso: que é possível, sim, ser feliz e ser profissional. Eu só tenho uma vantagem agora: descobri que gosto de me arriscar, de me jogar de cabeça em coisas totalmente improváveis e, ao mesmo tempo, que acrescentam.
O que me falta agora é a coragem: coragem de sair por aí, de explorar novos lugares, de tentar conhecer novas pessoas. Afinal, o que é a vida senão esse ir e vir? E se não fizermos nada de diferente, o caminho será apenas um trecho de um ônibus, ouvindo a mesma música, sentindo a mesma melancolia que só a rotina é capaz de causar. Esse efeito de desperdício é o que eu não quero ter. Não mais. Eu tive um grande “wake up call”, e as coisas já estão diferentes: mesmo que não estejam tão boas, elas estão diferentes. E isso é só um exemplo de que é possível mudar, é possível observar cada amanhecer com um olhar diferente; mesmo que o entardecer seja um pouco vazio às vezes, e até mesmo sem perspectiva. 
As atitudes importam. Onde já se viu ir para uma despedida e parar em uma praça e tomar umas cervejas? Onde já se viu ir para uma despedida e finalmente acontecer a tal jogada final?
O ponto é justamente ir contra a inércia. A inércia de ficar na mesma, olhando para o teto e esperando a hora passar (e algo diferente acontecer). 
É preciso coragem para superar todos os medos, e para enfrentar a angústia do dia a dia. 
Doses de otimismo, diariamente, são mais do que bem-vindas: novamente, a ideia de escrever sobre as coisas positivas que acontecem no meu dia parece importante. E sair da rotina… olha, isso é muito necessário: nem que seja começar uma série nova, ou finalmente terminar de ler aquele livro jogado na prateleira. 

Eu achei que fosse escrever um texto poético sobre a vida e sobre pertencer. Estava enganada. No momento, precisava extravasar sobre estar presa, sobre precisar sair da zona de conforto (novamente), e sobre tentar ver cada amanhecer como mais um motivo para celebrar. Mesmo que eu esteja confusa, meio perdida, mais avoada do que o normal; mesmo que nada pareça tão interessante quanto observar o pôr do sol de los angeles, ou de andar por aí pela dickson street... se essa é a minha vida agora, eu preciso fazer dela a coisa mais incrível do mundo, extrair água de pedra, açúcar de nuvem, e coisa e tal.