Ei, mas o que é isso?
Escrevi "gostaria de lembrar dos meus sonhos mais frequentemente" e,
de repente,
todo um dia, toda uma manhã, todo um momento passou pela minha mente.
Foi como se eu tivesse sido atingida por um raio, mas, ao invés de luzes e eletricidade, memórias e lágrimas.
As lágrimas não são de tristeza nem de alegria, apenas de susto e, talvez, de saudade. Mas acho que nostalgia se encaixa melhor...
Está fugindo... De mim.
Como quando eu sonho e, no instante em que eu abro os olhos, esqueço: como se tudo tivesse simplesmente deixado de existir, ou, pior, não tivesse sequer existido em momento algum. Aquela sensação fulgaz de querer tocar e reviver algo que está só na minha mente.
Porém... Não foi isso que aconteceu agora; não, não foi nada disso - apesar da sensação de que o mundo ao meu redor estava sendo dissolvido e dissipado... Eu lembrei.
Lembrei de algo tolo, relativamente recente. Sem um apelo sentimental sequer (bem, pelo menos até o presente). Simplesmente sufoquei-me pelo passado, aquele que não volta mais, aquele em que o presente e o futuro jamais alcançarão, o que tá tudo bem... É só que eu sou uma pessoa de lembranças, e olha quanta ironia considerando que eu tenho dificuldade de lembrar até o que eu comi no café da manhã! A verdade é que eu sou tudo isso, sou o passado, sou o presente (agora muito mais do que já fora um dia; mais esponja, mais feliz, mais eu mesma e as minhas confusões), e sou o futuro, tudo-ao-mesmo-tempo-agora. Sou o que não sei e o que irei descobrir. Mas de que isso importa?
Só queria dizer que eu lembrei daquele dia de sol, de correria pra pegar um ônibus que nunca havia pegado, pra sentar ao lado de quem nunca havia trocado nada mais do que um "oi, como você tá?", pra ser guiada pela cidade maravilhosa por quem eu gostava (que ia falar "senhora, você sabe onde nós estamos? Ali é Botafogo, e ali é a Urca..."). Lembro-me que estava aflita com a prova de Programação no dia seguinte (a que todo o mundo entendia a matéria menos eu, sendo irracional demais para criar qualquer lógica de computador). Lembro-me que seria um dia perfeito se não fosse a tal sensação ruim de véspera de prova, ainda mais daquela, não é mesmo? E ah... Que estranho.
Uma manhã inteira. Tiramos foto num quartzo gigante (não imaginava que voltaria lá depois para caçar crostas polimetalicas e sujar minha mão de minérios e antiguidade e oceano, e como eu amo oceano!)... Uma manhã inteira. Naquele lugar meio mágico, meio divertido.
Mergulhão, alguns amigos, tour, quartzo, rochas. Minerais. Muitas rochas e muitos minerais.
Um certo impulso de chorar agora... Porque eu lembrei de algo que eu jamais ousaria ser possível lembrar: o museu tem muitas salas; mas uma, em especial, tinha alguma espécie de fóssil de dinossauro. E um quebra-cabeça educativo. Porém... Eu odiei aquele lugar, porque faltava uma peça do maldito quebra-cabeça. "Me diz, quem em sã consciência deixa um quebra-cabeça faltando peça em um museu?". As meninas não me levaram a sério, elas já me achavam meio maluca na época... Mas eu lembro que fiquei realmente transtornada e agoniada. Porque a minha essência é completar. Mas eu sei que isso é impossível, eu gosto da diversão do momento, de apreciar pela janela, de correr o risco da montanha-russa despencar: eu gosto da adrenalina... Mas o que me deixou infeliz lá (alem da tal prova no dia seguinte) foi que o quebra-cabeça já estava montado e, ainda sim, estava incompleto. Não havia o que fazer: só deixar a sala correndo, como quem vê uma aranha, e praticamente ignorar o que eu havia visto. Lágrimas. Eu, lá, antes. Eu, aqui, agora. "Você vai superar, garota." Brincaram (essa parte pode ser meramente fruto da minha imaginação).
Agora, percebo, há outras coisas a serem vistas: salas e mais salas, rochas e mais rochas, minerais e mais minerais. A gente entra numa sala, se assusta, se desespera e foge; mas ufa, há sempre algo a mais para ser visto e explorado.
Entramos na sala que era o objetivo principal da visita... E nossa, por onde começar? Algumas pessoas começaram do começo; outras, do fim. Mas o que é o começo e o que é o fim? No final das contas... Entre tantas repartições, novidades, ciência, tédio, amor, medo... Nós nos encontramos no meio. E estávamos todos cansados.
Sentamos: muitas conversas, algumas risadas. De repente, falamos sobre sonhos, sonhos lúcidos, pesadelos... E, da mesma forma que o assunto começou, a conversa cessou, quase como se não pudesse ter sequer acontecido. E foi essa conversa que me levou a escrever isso, hoje, e lembrar de coisas tão profundas na minha mente quanto se é possível.
Hora de prosseguir: ainda há o que ver e descobrir. Prosseguimos, fatigados. Já tá na hora de ir embora?
Mas antes, uma pausa para a lenda. Paçoca. Origem e nome cientifico. Risadas, fotos... Yupi! Hora de ir embora comer.
Despedimos da professora. Alguém foi nos guiando até o Rio Sul.
No caminho, não lembro de muita coisa.
Talvez uma conversa sobre "eu já fiz essa matéria", e outras do tipo "eu também estou com medo", "é tudo muito fácil", " foi aqui que eu comprei o ingresso", "esse livro é simplesmente incrível", " eu tenho muitas teorias do que pode acontecer"... Enfim, ao mesmo tempo que eu estava lá, eu não pertencia.
Mas a hora de comer chegou, e cada grupo foi para o seu canto. No meu, tinha algumas coroas rosas.. E nada além disso.
Depois, esqueço.
Agora, dormirei.
Não esperava que uma frase me remetesse a tanta coisa, e de maneira tão súbita que foi quase enlouquecedor. Mas, pelo menos, vivi novamente aquele dia agradável mesmo sendo véspera de uma prova... E, de forma estranha, mais uma vez notei que mesmo que esteja faltando uma peça no quebra-cabeça, há sempre uma sala repleta de história e geologia e sol e energia e vida e sonhos para se adentrar. Há sempre uma porta que diz "vá adiante, pistoleiro, que você ainda tem muito caminho a percorrer". Há sempre uma rosa, mesmo que negativa e falhada, a ser vista. Nem que seja sismicamente. Uma jornada a ser guiada, uma angústia a ser superada, um sonho a ser sonhado... Porque há outros mundos além destes: mundos repletos de eletricidade, de memória e de conhecimento. E de passado.
Para cada grão, uma historia.
Para cada memória, um ponto fixo no tempo e espaço: analisado, química e fisicamente, como quem não quer nada.
Para cada história, cada memória, cada grão: novos mundos, infinitos mundos.
Um universo dentro de uma lágrima.
E cordas, e pêndulos, e toda a Ciência. Tudo isso formando um oceano, uma praia, um museu... E, como nos quadros, são apenas paisagens restringidas por molduras... Para, quem sabe, não nos perdemos nessa imensidão de imensidões; para não nos aforgarmos com o excesso de grãos e de gotas... e de mundos, sonhos e portas.
A moldura é útil para por limites e para nos trazer de volta a realidade, nos fazer pegar o ônibus certo e voltar para a casa da (in)sanidade. Porque um pouquinho de loucura faz bem, mas a verdade é que é impossível permanecer são perante toda a perspectiva de todos os quadros de todas as praias e mares do mundo (do nosso mundo, do nosso universo). Apenas...
A conversa cessou, temos de seguir explorando.
Por um momento ínfimo, foi possível perceber a plenitude de todas as coisas, o arranjo de todas as peças (incluindo a que está faltando), o soprar dos ventos criando as ondas, empurrando os grãos de areia e afogando os mundos (de amor? de dor? de saber?). Mas tem hora que tudo se aquieta... E até o silêncio é possível escutar: a beleza de perceber a pequenez de todas as coisas.
Fui recompensada com um raio de lembranças vagas e inebriantes; e, agora, sinto-me mais como parte de um quadro, eu mesma sendo uma peça que às vezes tem o seu papel de relembrar e pertencer. E de me sentir satisfeita por ter sonhado, e, mesmo que ao acordar eu não lembre de mais nada, ou que nada pareça ter sentido, pelo menos agora eu sei que eu vi, que eu existi, que eu senti e ouvi. E que as lágrimas são necessárias, porque elas são os multiversos da vida, os potinhos de sentido que de vez em quando a gente precisa para não nos hipnotizarmos com certos quadros de perspectiva infinita, cheios de lagos escuros e sombrios. Só está permitido se prender às estrelas e às nuvens de algodão doce, e, é claro, apenas por um breve momento: porque luz demais também cega e enlouquece; a dosagem é importante. Mas, antes de ir para um mundo que não é totalmente verdadeiro, não há nada mais tranquilizador do que saber que é possível sonhar com memórias boas e com salas cheias de rosas.