terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Raios, lembranças e rosas

Ei, mas o que é isso?
Escrevi "gostaria de lembrar dos meus sonhos mais frequentemente" e,
de repente,
todo um dia, toda uma manhã, todo um momento passou pela minha mente.
Foi como se eu tivesse sido atingida por um raio, mas, ao invés de luzes e eletricidade, memórias e lágrimas.
As lágrimas não são de tristeza nem de alegria, apenas de susto e, talvez, de saudade. Mas acho que nostalgia se encaixa melhor...
Está fugindo... De mim.
Como quando eu sonho e, no instante em que eu abro os olhos, esqueço: como se tudo tivesse simplesmente deixado de existir, ou, pior, não tivesse sequer existido em momento algum. Aquela sensação fulgaz de querer tocar e reviver algo que está só na minha mente.
Porém... Não foi isso que aconteceu agora; não, não foi nada disso - apesar da sensação de que o mundo ao meu redor estava sendo dissolvido e dissipado... Eu lembrei.
Lembrei de algo tolo, relativamente recente. Sem um apelo sentimental sequer (bem, pelo menos até o presente). Simplesmente sufoquei-me pelo passado, aquele que não volta mais, aquele em que o presente e o futuro jamais alcançarão, o que tá tudo bem... É só que eu sou uma pessoa de lembranças, e olha quanta ironia considerando que eu tenho dificuldade de lembrar até o que eu comi no café da manhã! A verdade é que eu sou tudo isso, sou o passado, sou o presente (agora muito mais do que já fora um dia; mais esponja, mais feliz, mais eu mesma e as minhas confusões), e sou o futuro, tudo-ao-mesmo-tempo-agora. Sou o que não sei e o que irei descobrir. Mas de que isso importa?
Só queria dizer que eu lembrei daquele dia de sol, de correria pra pegar um ônibus que nunca havia pegado, pra sentar ao lado de quem nunca havia trocado nada mais do que um "oi, como você tá?", pra ser guiada pela cidade maravilhosa por quem eu gostava (que ia falar "senhora, você sabe onde nós estamos? Ali é Botafogo, e ali é a Urca..."). Lembro-me que estava aflita com a prova de Programação no dia seguinte (a que todo o mundo entendia a matéria menos eu, sendo irracional demais para criar qualquer lógica de computador). Lembro-me que seria um dia perfeito se não fosse a tal sensação ruim de véspera de prova, ainda mais daquela, não é mesmo? E ah... Que estranho.
Uma manhã inteira. Tiramos foto num quartzo gigante (não imaginava que voltaria lá depois para caçar crostas polimetalicas e sujar minha mão de minérios e antiguidade e oceano, e como eu amo oceano!)... Uma manhã inteira. Naquele lugar meio mágico, meio divertido.
Mergulhão, alguns amigos, tour, quartzo, rochas. Minerais. Muitas rochas e muitos minerais.
Um certo impulso de chorar agora... Porque eu lembrei de algo que eu jamais ousaria ser possível lembrar: o museu tem muitas salas; mas uma, em especial, tinha alguma espécie de fóssil de dinossauro. E um quebra-cabeça educativo. Porém... Eu odiei aquele lugar, porque faltava uma peça do maldito quebra-cabeça. "Me diz, quem em sã consciência deixa um quebra-cabeça faltando peça em um museu?". As meninas não me levaram a sério, elas já me achavam meio maluca na época... Mas eu lembro que fiquei realmente transtornada e agoniada. Porque a minha essência é completar. Mas eu sei que isso é impossível, eu gosto da diversão do momento, de apreciar pela janela, de correr o risco da montanha-russa despencar: eu gosto da adrenalina... Mas o que me deixou infeliz lá (alem da tal prova no dia seguinte) foi que o quebra-cabeça já estava montado e, ainda sim, estava incompleto. Não havia o que fazer: só deixar a sala correndo, como quem vê uma aranha, e praticamente ignorar o que eu havia visto. Lágrimas. Eu, lá, antes. Eu, aqui, agora. "Você vai superar, garota." Brincaram (essa parte pode ser meramente fruto da minha imaginação).
Agora, percebo, há outras coisas a serem vistas: salas e mais salas, rochas e mais rochas, minerais e mais minerais. A gente entra numa sala, se assusta, se desespera e foge; mas ufa, há sempre algo a mais para ser visto e explorado.
Entramos na sala que era o objetivo principal da visita... E nossa, por onde começar? Algumas pessoas começaram do começo; outras, do fim. Mas o que é o começo e o que é o fim? No final das contas... Entre tantas repartições, novidades, ciência, tédio, amor, medo... Nós nos encontramos no meio. E estávamos todos cansados.
Sentamos: muitas conversas, algumas risadas. De repente, falamos sobre sonhos, sonhos lúcidos, pesadelos... E, da mesma forma que o assunto começou, a conversa cessou, quase como se não pudesse ter sequer acontecido. E foi essa conversa que me levou a escrever isso, hoje, e lembrar de coisas tão profundas na minha mente quanto se é possível.
Hora de prosseguir: ainda há o que ver e descobrir. Prosseguimos, fatigados. Já tá na hora de ir embora?
Mas antes, uma pausa para a lenda. Paçoca. Origem e nome cientifico. Risadas, fotos... Yupi! Hora de ir embora comer.
Despedimos da professora. Alguém foi nos guiando até o Rio Sul.
No caminho, não lembro de muita coisa.
Talvez uma conversa sobre "eu já fiz essa matéria",  e outras do tipo "eu também estou com medo", "é tudo muito fácil", " foi aqui que eu comprei o ingresso", "esse livro é simplesmente incrível", " eu tenho muitas teorias do que pode acontecer"... Enfim, ao mesmo tempo que eu estava lá, eu não pertencia.
Mas a hora de comer chegou, e cada grupo foi para o seu canto. No meu, tinha algumas coroas rosas.. E nada além disso.
Depois, esqueço.
Agora, dormirei.
Não esperava que uma frase me remetesse a tanta coisa, e de maneira tão súbita que foi quase enlouquecedor. Mas, pelo menos, vivi novamente aquele dia agradável mesmo sendo véspera de uma prova... E, de forma estranha, mais uma vez notei que mesmo que esteja faltando uma peça no quebra-cabeça, há sempre uma sala repleta de história e geologia e sol e energia e vida e sonhos para se adentrar. Há sempre uma porta que diz "vá adiante, pistoleiro, que você ainda tem muito caminho a percorrer". Há sempre uma rosa, mesmo que negativa e falhada, a ser vista. Nem que seja sismicamente. Uma jornada a ser guiada, uma angústia a ser superada, um sonho a ser sonhado... Porque há outros mundos além destes: mundos repletos de eletricidade, de memória e de conhecimento.  E de passado.
Para cada grão, uma historia.
Para cada memória, um ponto fixo no tempo e espaço: analisado, química e fisicamente, como quem não quer nada.
Para cada história, cada memória, cada grão: novos mundos, infinitos mundos.
Um universo dentro de uma lágrima.
E cordas, e pêndulos, e toda a Ciência. Tudo isso formando um oceano, uma praia, um museu... E, como nos quadros, são apenas paisagens restringidas por molduras... Para, quem sabe, não nos perdemos nessa imensidão de imensidões; para não nos aforgarmos com o excesso de grãos e de gotas...  e de mundos, sonhos e portas.
A moldura é  útil para por limites e para nos trazer de volta a realidade, nos fazer pegar o ônibus certo e voltar para a casa da (in)sanidade. Porque um pouquinho de loucura faz bem, mas a verdade é que é impossível permanecer são perante toda a perspectiva de todos os quadros de todas as praias e mares do mundo (do nosso mundo, do nosso universo). Apenas...
A conversa cessou, temos de seguir explorando.
Por um momento ínfimo, foi possível perceber a plenitude de todas as coisas, o arranjo de todas as peças (incluindo a que está faltando), o soprar dos ventos criando as ondas, empurrando os grãos de areia e afogando os mundos (de amor? de dor? de saber?). Mas tem hora que tudo se aquieta... E até o silêncio é possível escutar: a beleza de perceber a pequenez de todas as coisas.
Fui recompensada com um raio de lembranças vagas e inebriantes; e, agora, sinto-me mais como parte de um quadro, eu mesma sendo uma peça que às vezes tem o seu papel de relembrar e pertencer. E de me sentir satisfeita por ter sonhado, e, mesmo que ao acordar eu não lembre de mais nada, ou que nada pareça ter sentido, pelo menos agora eu sei que eu vi, que eu existi, que eu senti e ouvi. E que as lágrimas são necessárias, porque elas são os multiversos da vida, os potinhos de sentido que de vez em quando a gente precisa para não nos hipnotizarmos com certos quadros de perspectiva infinita, cheios de lagos escuros e sombrios. Só está permitido se prender às estrelas e às nuvens de algodão doce, e, é claro, apenas por um breve momento: porque luz demais também cega e enlouquece; a dosagem é importante. Mas, antes de ir para um mundo que não é totalmente verdadeiro, não há nada mais tranquilizador do que saber que é possível sonhar com memórias boas e com salas cheias de rosas.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Sopa de letrinhas

Fecho os olhos e não vejo nada, nem mesmo escuridão. Havia um tempo em que eu enxergava palavras no ar, como se fosse uma sopa de letrinhas prestes a ser apreciada: não lembro o gosto, mas lembro que eu gostava. Hoje em dia, não como mais (a verdade é que eu nem sei se ainda existe), mas eu adorava essa sopa quando criança... Como não gostar de uma sopa que pode formar palavras? O simples fato de ser uma comida com letras era o suficiente: mesmo que eu não formasse nada com elas, nem meu próprio nome. 
Lembro-me de que, quando nova e curiosa, mexia nas pastas dos meus pais (aquelas que ficavam debaixo da estante que, agora eu me recordo, não existe mais porque foi substituída por um lindo reck para acompanhar a tão sonhada TV de plasma), e riscava tudo com a minha letra de criança. Numa dessas pastas, meu nome está escrito errado (Loize, ou Loisi) até hoje, mas a pasta contém vários documentos importantes da nossa infância, como certidões e atestados médicos. Lembro da minha própria dificuldade de reconhecer a mim mesma como eu era (uma das minhas vagas memórias da infância é estar descendo o elevador do prédio em que morei, mas a imagem que eu tinha de mim era de outra pessoa, não eu: uma menina de tranças, linda. E eu nunca usava tranças, e era mais parecida com um menino do que com uma garotinha fofa), com o nome que tinha (inúmeras vezes questionei meus pais sobre o meu nome ser de fato este, afinal, eu fui a primeira gêmea a nascer e, segundo as regras do universo, Laisa é sempre dito antes de Louise, independentemente dos porquês.) 
Quando comecei a escrever, fechava os olhos e não via nada, mas a sopa de letrinhas despertou essas memórias que eu nem lembrava ter - com excessão da menina no elevador, reconheço. Eu ainda a vejo, às vezes, quando recuso-me a aceitar que eu sou assim, como sou, gostando disso ou não.
Hoje, olho no espelho e vejo a mim, mesmo que ainda sem tranças, mas com alguma confiança. Crescer não é um processo fácil. Assumo que, desde os 16 anos de idade, cada aniversario que faço é como se fosse um lembrete de que eu estou aqui pra valer, que é bom que eu faça alguma coisa de útil antes de ser engolida pelo mundo, e que eu garanta o meu futuro porque, filha, pai e mãe não são para sempre, não! 
Lembro que quando eu tinha meus 9 anos e meus peitos começaram a crescer, eu fiquei horrorizada, e chorava escondido,  tentando escondê-los de qualquer forma. Não lembrava disso, mas agora que despertei essas memórias ao sentir o cheiro da sopa de letrinhas, lembro a minha blusa favorita daquela época: uma das meninas super poderosas, porque ela me fazia parecer uma tábua de tão reta (apesar de eu ser, levemente, gordinha). Minha memória dessa blusa está registrada em uma foto onde eu estou deitada na cama com minha melhor amiga e miga irmã, sobre um colchão forrado por uma coberta vermelha viva com rosas por todo o lado. Da coberta eu lembro, ainda é a favorita dos meus pais. Hoje em dia, quando me olho no espelho, reconheço-me: mas eu, certamente, gostaria de ter peitos maiores. Aceito-os como são, mas um ter um pouquinho mais seria bom, viu, Deus? Se eu pudesse voltar no tempo e dizer à criança Louise que, um dia, ela pediria pra que eles fossem maiores, tenho certeza de que ela acharia um absurdo, uma blasfêmia! Hoje, vejo que era apenas uma questão de maturidade: se, naquela época, eu pudesse escolher ser criança pra sempre, eu escolheria, apesar de compartilhar com minhas amigas aquele desejo oculto de ter 16 anos. Não que eu soubesse o que me esperava, ou que eu pensasse em garotos ou em festas... Eu só pensava nos 16 como hoje, talvez, eu pense nos 30: serei eu tão diferente? E o mundo ao meu redor? E meus amigos, serão os mesmos? Meus sonhos... Seja lá quais eles forem (mas você tem que ter algum, nem que seja uma invenção, ou te julgarão por não ter perspectiva) terão se realizado?
Obviamente, não sou a mesma pessoa de 10 anos atrás, da mesma forma que não serei a mesma de agora daqui a 10 anos. Entretanto... Ainda compartilhamos algumas mesmas perguntas e, de certa forma, a mesma vontade de viver a idade para sempre. Pelo menos, esse ano estou livre da crise do Peter Pan: só quero ter meus 21 e beber umas cervejas em paz (legalmente). Estranho é perceber que a vida nada mais é do que uma passagem, e que por mais longa pareça ser cada fase da vida (infância, pré adolescência, jovem/adulta...), toda fase tem um fim, e só é possível perceber isso quando elas acabam. Não existe despedida, infelizmente: se eu não aproveitei minha adolescência, percebo só agora, quando já velha e cheia de responsabilidade. Todos sempre dizem, em qualquer fase da vida, "aproveite essa fase que é a melhor de todas! Depois disso, é só problema". Quando criança, ouvia isso e achava a coisa mais ridícula do mundo! "Temos que pensar que o melhor estar por vir, não que o melhor já passou. Senão, como é possível ser feliz?" era o que eu pensava. Anos depois, concordo comigo. Agora, vejo com clareza que meus limites nunca foram bem delineados: eu era uma criança com pensamento de gente grande. Eu, hoje, tenho perfeita consciência de que, ao mesmo tempo que sou muito madura, sou também muito imatura. Eu sou criança, adolescente, adulta e idosa, tudo junto. Talvez por isso eu seja tão confusa, às vezes: como um pêndulo que está sempre indo e vindo, mas nunca está parado - ou como uma montanha-russa: oscilante, inconstante, mas kind of agradável.
O meu reflexo no espelho pode ser tão incerto quanto o reflexo da minha própria face na água é, mas eu entendo as leis da Física: eu estudei Snell, refração, reflexão, difusão. Quando criança, eu tentava entender o espelho a todo o custo, incluindo a pessoa que eu via (eu mesma, baixinha, ora magrinha, ora gordinha), que amava ser criança e amava ir para a escola, mesmo sem ter muitos amigos e sendo constantemente julgada pelos coleguinhas que, eu nunca entendi, abriam a boca para falar mal dos outros sem qualquer motivo. Hoje, finalmente, depois de anos, sei receber elogios. Ainda não sei como reagir à eles, e muitas vezes não acredito - mas, eu olho no espelho e eu sou outra pessoa. Não me xingam mil nomes, ou me chamam de feia, ou gorda, ou palito, ou bicho do mato. Posso ser tudo isso ainda, mas eu cresci. Quando criança, absorve-se tudo, mesmo sem entender como alguém poderia falar mal de outra pessoa pelo simples prazer de falar. Hoje, entendo a minha inocência (e, secretamente, sorrio para meu antigo eu por ainda pensar assim): por que as pessoas amam tanto destruir?
Não quero ser hipócrita - se estou na praia e brigo com minha irmã porque ela não me chamou pra brincar na areia com ela, quero destruir seu castelo. Mas, se estou montando um verdadeiro palácio à beira do mar, não aceito a onda que pode vir e destruir tudo. Dependendo do meu humor, construirei outro (com a amarga sensação de que ele não será o mesmo nunca, lide com isso, aceite esse fato) ou mergulharei no mar, porque quando estou nele, estou também com meu castelo (que, sendo sincera, nem lembrava ter construído), estou na água... E não pode existir brincadeira melhor no verão! Já pensei ser areia ou água, terra ou mar, enquanto ouvia o eco que vinha daquela linda concha da sala de estar da minha avó. Hoje, sei que sou ambos: devo ser onda, afinal, batendo entre um e outro, fonte de diversão em um dia e, n'outro, fonte de destruição de lares, de uma tal ilha no meio do Pacífico, onde vozes vorazes poetizam em troca de alguma resposta, nem que seja um eco de apoio, de que eles não querem ir embora.
Olho no espelho e vejo uma rosa que, talvez, cante em algum universo. Eu vejo seus espinhos que, por que não, choram? Eu vejo um ego, e uma batalha, e flashes de que vai dar tudo certo, e sombras que dizem que talvez dê tudo errado. Eu vejo futuro, porque o futuro sempre existe, assim como o passado existiu. Eu não procuro mais nenhum sentido mas, ainda assim, sei que ele pode estar por aí, à espreita, seguindo-me: mas nunca, jamais, esperando ser encontrado. Eu vejo o momento, vejo alegria - mas não sei se vejo felicidade, acho que a felicidade não existe (em contrapartida, conforto-me: sei que, se a tristeza existe, logo seu oposto também está sempre presente). Eu vejo sentimentos em uma geladeira. Às vezes, tento alguma dieta, mas sou fraca e sei que é apenas algo temporário. Quero chocolate, sempre quero chocolate (a não ser que já tenha comido doce antes, nesse caso, quero salgado…) Mas nem sempre encontro.
Eu sou tão racional que ando de mãos dadas com a loucura. Sei que luz demais cega tanto quanto a escuridão e é por isso que, quando fecho os olhos, procuro ver sempre alguma coisa: nada e tudo nunca é bom. Misture o preto com branco (hoje eu sei que o branco são todas as cores, mas o preto não é nenhuma) e podemos conversar sobre um mundo que está repleto de injustiça e de dor mas, quando olho para o céu na hora certa e na direção certa, posso ver a lua como se fosse o sol: amarela, gigante e atraente. Logo depois, entretanto, ela volta ao seu estado natural de "branco"... No alto, distante, e não mais (aparentemente) próxima de mim. Mas, eu sei: ainda é a mesma lua.
Na mesma fase...
Sinto pena daquelas crianças que querem ser adultas, porque elas estão perdendo uma vida que não vai mais voltar. Eu não sei de onde eu tirei a sopa de letrinhas, mas sei que agora estou com fome e não tem nada pra comer. Pelo menos, posso dizer que enchi a geladeira de sentimentos... E de bagunça. Eu estava no carro, estávamos perdidos.... Na curva, eu avistei a lua. "Hey, look at the moon! We should follow its brightness..." Mais tarde, quando desci a montanha, já havia esquecido completamente de como a lua estava absurda antes. Olhei pro céu, e ela estava como sempre está: cheia, linda, mas normal. Ainda assim... Excepcional. Quando eu era criança, eu sempre olhava para o céu e admirava os astros e as estrelas. Hoje, eu esqueço... Às vezes, enquanto caminho, olho para cima e percebo a vista que estou perdendo por estar sempre focada em seguir adiante, nos meus próprios passos, com medo de tropeçar. Se a luz caminha da estrela até mim, sei que seu reflexo em mim, por mais insignificante que seja, volta para a estrela. Porque não é possível ver sem ser visto, não é possível encarar o espelho sem se olhar... A não ser que eu não mire o espelho. Quando criança, eu brincava por horas de tentar me ver no espelho enquanto desviava o olhar... Eu tentava me sabotar, ou sabotar o mundo, ou a natureza, ou o que fosse… Mais uma memória que eu não recordava, talvez porque essa era uma brincadeira que eu sempre perdia. Também havia aquela que eu fazia quando encarava a luz por muito tempo e depois fechava os olhos... E via cores no escuro! Achava-me mágica, divina, celestial. Hoje, eu sei o porquê. Eu estava errada sobre o que achava ver, mas eu era uma criança pequena em um mundo enorme... Se eu e minha irmã podíamos fazer do mundo o nosso próprio, por que não o faríamos? Olhávamos para a luz, subíamos na cama e fechávamos os olhos: “você tá vendo o que eu vejo? Nós somos especiais!” É, eu sei. De certa maneira, somos todos especiais... fechamos os olhos, e o mundo pode ser o que fazemos dele: pode ser passado, presente, futuro... Pode ser doloroso, saboroso... Pode ser amor, pode ser confusão... Quando comecei a escrever, achava que eu não via nada quando estava de olhos fechados. Eu estava errada, mais uma vez: acho que eu estava vendo tudo, terra e mar, areia e água - morrendo de sono, mas com insônia.
Adulta, mas com tranças de criança. 

Quando pequena, associava um dia de semana a uma cor específica. Hoje, não lembro que cor cada dia tinha, só sei que sábado era amarelo, como o sol é, todos os dias; e como a lua é, uma vez ou outra.

Quinta-feira azul

Well, it’s been a long time, long time now… Since I see you smile.
Eu queria escrever mas eu não queria escrever que eu tô escrevendo… Eu queria fazer poesia.

Posso tentar; tento me encaixar, tento sentir.
As lágrimas que por ventura escapam de mim como se tivessem alguma permissão, 
escondem uma verdade irrefutável: eu e o meu medo inconstante
de não amar nunca
e nunca ser amada.
Ou de, quem sabe, nunca ter a chance de viver nada que seja digno de um poema de verdade. Daqueles que arrebatam, que fazem você se sentir vivo. 
Eu não quero sofrer - eu prefiro o limbo do que a dor, é óbvio… Mas um pouquinho de aventura é bom, um pouquinho de loucura é sempre bom, faz as coisas terem mais sentido… Eu não estou mal, eu não sou má; eu finalmente percebo que sou… estranha, assim, de verdade.
Sempre com sono, sempre ausente, e muitas vezes, distante. 
“Ando de mãos dadas com a loucura, porque antes louco do que só.”
Vejo o vazio. Não sabia que o vazio podia ser visto… mas ele é. Tem olhos cansados; batom borrado, e não devido a uns beijos ou amassos dados… simplesmente representa um pouco de mim: oscilante, tremeluzente; triste, feliz. Ultimamente, sou um pouco dos dois: loucura e solidão, risos e lágrimas sufocadas. Estou amarrada na minha própria inércia de não-existência. Não experimento, não ouso; sinto medo, sinto-me inútil, e até mesmo útill… Sinto como se não pertencesse, e às vezes gosto disso, Porque posso fingir que estou quando não estou. Finjo-me que sou blasé, mas talvez eu seja só antipática. Pergunto-me se as pessoas me acham apática ou se me acham estranha mesmo… Reconsidero sorrir; gosto de sorrir pras pessoas, e de receber um sorriso de volta. Mas sempre acanhada, sempre tentando negar quem eu sou e como sou. Esperançosa, penso: não posso ser tão esquisita assim, deve ser só minha auto-estima choramingado para mim mesma… Respiro com dificuldade, como quem sobe escada e parece que vai faltar o ar do mundo. É a altitude versus a gravidade. As coisas eram tão leves antes! Pergunto-me o que aconteceu… e só sinto amargura, e um certo azedume inexplicável que não é de mim. Assusto-me com essa ideia; no fundo, sou uma fã de arco-íris e estrelas e algodão-doce, mas não vejo muitas cores mais… Por que? A questão é: não há porque, eu estou envelhecendo; ficando meio ranzinza. Sempre me falaram isso, e eu nunca acreditava. Gostaria de ter minha humanidade de volta, meu zelo de volta… Mas eu esqueço como é praticar o meu próprio bem-estar. Esqueço-me disso como esqueço a diferença entre uma rocha ígnea e uma rocha metamórfica… Gosto de observar o céu e me achar importante. Isso faz eu me sentir bem, e o fato de ser esponja torna-se irrelevante, exceto quando é para absorver toda a purpurina e toda a vida que há lá fora… O tempo, meu amigo, é um jogo. E hoje à noite eu quis que o amanhã chegasse logo, mas agora… agora eu consigo dormir tão leve como uma folha que voa porque há sol e há vento e há vida. 

Em aula: survey of the universe

Sei que há algo sobre luz e espectro, só não sei o que é.
O melhor de estar no alto é poder observar tudo o que está ao meu redor. 
Paciência. Compras. Burburinhos, pessoas conversando.
O professor fala, e a única coisa que escuto é
absorption.
Volto à minha percepção do ambiente... Não sei dizer se o auditório está vazio,
ou cheio.
"Because of this absorption..."
Todos pagaram para estar aqui, mas ninguém de fato está.
Nem mesmo eu.
Escrevo, para me encontrar... Como será que vivem todas essas pessoas? 
O que ignoro sobre elas, pelo simples fato de não conhecê-las?
São como essas palavras que escuto,
e não entendo,
e ignoro.
Quero abaixar a cabeça e dormir... Mas ainda não sei ser verdadeiramente
um ser
(que ignora.)
Nem quando tudo está desfocado, cinza, turvo...
Entediante...
Eu não me desapego de nada.
Perdi o jeito com as palavras (se é que já tive, um dia.)
Perdi a aventura de me jogar no papel, 
e descobrir algo verdadeiro.
Escrevo só por escrever.
Para o tempo passar...
Apenas isso: nada mais a declarar. Tudo na mesma, babyluv.
Não brilhamos no escuro porque não podemos enxergar o invisível. Sou tão racional que ando de mãos dadas com a loucura, só para não correr nenhum risco de andar sozinha.