Lembro-me de que, quando nova e curiosa, mexia nas pastas dos meus pais (aquelas que ficavam debaixo da estante que, agora eu me recordo, não existe mais porque foi substituída por um lindo reck para acompanhar a tão sonhada TV de plasma), e riscava tudo com a minha letra de criança. Numa dessas pastas, meu nome está escrito errado (Loize, ou Loisi) até hoje, mas a pasta contém vários documentos importantes da nossa infância, como certidões e atestados médicos. Lembro da minha própria dificuldade de reconhecer a mim mesma como eu era (uma das minhas vagas memórias da infância é estar descendo o elevador do prédio em que morei, mas a imagem que eu tinha de mim era de outra pessoa, não eu: uma menina de tranças, linda. E eu nunca usava tranças, e era mais parecida com um menino do que com uma garotinha fofa), com o nome que tinha (inúmeras vezes questionei meus pais sobre o meu nome ser de fato este, afinal, eu fui a primeira gêmea a nascer e, segundo as regras do universo, Laisa é sempre dito antes de Louise, independentemente dos porquês.)
Quando comecei a escrever, fechava os olhos e não via nada, mas a sopa de letrinhas despertou essas memórias que eu nem lembrava ter - com excessão da menina no elevador, reconheço. Eu ainda a vejo, às vezes, quando recuso-me a aceitar que eu sou assim, como sou, gostando disso ou não.
Hoje, olho no espelho e vejo a mim, mesmo que ainda sem tranças, mas com alguma confiança. Crescer não é um processo fácil. Assumo que, desde os 16 anos de idade, cada aniversario que faço é como se fosse um lembrete de que eu estou aqui pra valer, que é bom que eu faça alguma coisa de útil antes de ser engolida pelo mundo, e que eu garanta o meu futuro porque, filha, pai e mãe não são para sempre, não!
Lembro que quando eu tinha meus 9 anos e meus peitos começaram a crescer, eu fiquei horrorizada, e chorava escondido, tentando escondê-los de qualquer forma. Não lembrava disso, mas agora que despertei essas memórias ao sentir o cheiro da sopa de letrinhas, lembro a minha blusa favorita daquela época: uma das meninas super poderosas, porque ela me fazia parecer uma tábua de tão reta (apesar de eu ser, levemente, gordinha). Minha memória dessa blusa está registrada em uma foto onde eu estou deitada na cama com minha melhor amiga e miga irmã, sobre um colchão forrado por uma coberta vermelha viva com rosas por todo o lado. Da coberta eu lembro, ainda é a favorita dos meus pais. Hoje em dia, quando me olho no espelho, reconheço-me: mas eu, certamente, gostaria de ter peitos maiores. Aceito-os como são, mas um ter um pouquinho mais seria bom, viu, Deus? Se eu pudesse voltar no tempo e dizer à criança Louise que, um dia, ela pediria pra que eles fossem maiores, tenho certeza de que ela acharia um absurdo, uma blasfêmia! Hoje, vejo que era apenas uma questão de maturidade: se, naquela época, eu pudesse escolher ser criança pra sempre, eu escolheria, apesar de compartilhar com minhas amigas aquele desejo oculto de ter 16 anos. Não que eu soubesse o que me esperava, ou que eu pensasse em garotos ou em festas... Eu só pensava nos 16 como hoje, talvez, eu pense nos 30: serei eu tão diferente? E o mundo ao meu redor? E meus amigos, serão os mesmos? Meus sonhos... Seja lá quais eles forem (mas você tem que ter algum, nem que seja uma invenção, ou te julgarão por não ter perspectiva) terão se realizado?
Obviamente, não sou a mesma pessoa de 10 anos atrás, da mesma forma que não serei a mesma de agora daqui a 10 anos. Entretanto... Ainda compartilhamos algumas mesmas perguntas e, de certa forma, a mesma vontade de viver a idade para sempre. Pelo menos, esse ano estou livre da crise do Peter Pan: só quero ter meus 21 e beber umas cervejas em paz (legalmente). Estranho é perceber que a vida nada mais é do que uma passagem, e que por mais longa pareça ser cada fase da vida (infância, pré adolescência, jovem/adulta...), toda fase tem um fim, e só é possível perceber isso quando elas acabam. Não existe despedida, infelizmente: se eu não aproveitei minha adolescência, percebo só agora, quando já velha e cheia de responsabilidade. Todos sempre dizem, em qualquer fase da vida, "aproveite essa fase que é a melhor de todas! Depois disso, é só problema". Quando criança, ouvia isso e achava a coisa mais ridícula do mundo! "Temos que pensar que o melhor estar por vir, não que o melhor já passou. Senão, como é possível ser feliz?" era o que eu pensava. Anos depois, concordo comigo. Agora, vejo com clareza que meus limites nunca foram bem delineados: eu era uma criança com pensamento de gente grande. Eu, hoje, tenho perfeita consciência de que, ao mesmo tempo que sou muito madura, sou também muito imatura. Eu sou criança, adolescente, adulta e idosa, tudo junto. Talvez por isso eu seja tão confusa, às vezes: como um pêndulo que está sempre indo e vindo, mas nunca está parado - ou como uma montanha-russa: oscilante, inconstante, mas kind of agradável.
O meu reflexo no espelho pode ser tão incerto quanto o reflexo da minha própria face na água é, mas eu entendo as leis da Física: eu estudei Snell, refração, reflexão, difusão. Quando criança, eu tentava entender o espelho a todo o custo, incluindo a pessoa que eu via (eu mesma, baixinha, ora magrinha, ora gordinha), que amava ser criança e amava ir para a escola, mesmo sem ter muitos amigos e sendo constantemente julgada pelos coleguinhas que, eu nunca entendi, abriam a boca para falar mal dos outros sem qualquer motivo. Hoje, finalmente, depois de anos, sei receber elogios. Ainda não sei como reagir à eles, e muitas vezes não acredito - mas, eu olho no espelho e eu sou outra pessoa. Não me xingam mil nomes, ou me chamam de feia, ou gorda, ou palito, ou bicho do mato. Posso ser tudo isso ainda, mas eu cresci. Quando criança, absorve-se tudo, mesmo sem entender como alguém poderia falar mal de outra pessoa pelo simples prazer de falar. Hoje, entendo a minha inocência (e, secretamente, sorrio para meu antigo eu por ainda pensar assim): por que as pessoas amam tanto destruir?
Não quero ser hipócrita - se estou na praia e brigo com minha irmã porque ela não me chamou pra brincar na areia com ela, quero destruir seu castelo. Mas, se estou montando um verdadeiro palácio à beira do mar, não aceito a onda que pode vir e destruir tudo. Dependendo do meu humor, construirei outro (com a amarga sensação de que ele não será o mesmo nunca, lide com isso, aceite esse fato) ou mergulharei no mar, porque quando estou nele, estou também com meu castelo (que, sendo sincera, nem lembrava ter construído), estou na água... E não pode existir brincadeira melhor no verão! Já pensei ser areia ou água, terra ou mar, enquanto ouvia o eco que vinha daquela linda concha da sala de estar da minha avó. Hoje, sei que sou ambos: devo ser onda, afinal, batendo entre um e outro, fonte de diversão em um dia e, n'outro, fonte de destruição de lares, de uma tal ilha no meio do Pacífico, onde vozes vorazes poetizam em troca de alguma resposta, nem que seja um eco de apoio, de que eles não querem ir embora.
Olho no espelho e vejo uma rosa que, talvez, cante em algum universo. Eu vejo seus espinhos que, por que não, choram? Eu vejo um ego, e uma batalha, e flashes de que vai dar tudo certo, e sombras que dizem que talvez dê tudo errado. Eu vejo futuro, porque o futuro sempre existe, assim como o passado existiu. Eu não procuro mais nenhum sentido mas, ainda assim, sei que ele pode estar por aí, à espreita, seguindo-me: mas nunca, jamais, esperando ser encontrado. Eu vejo o momento, vejo alegria - mas não sei se vejo felicidade, acho que a felicidade não existe (em contrapartida, conforto-me: sei que, se a tristeza existe, logo seu oposto também está sempre presente). Eu vejo sentimentos em uma geladeira. Às vezes, tento alguma dieta, mas sou fraca e sei que é apenas algo temporário. Quero chocolate, sempre quero chocolate (a não ser que já tenha comido doce antes, nesse caso, quero salgado…) Mas nem sempre encontro.
Eu sou tão racional que ando de mãos dadas com a loucura. Sei que luz demais cega tanto quanto a escuridão e é por isso que, quando fecho os olhos, procuro ver sempre alguma coisa: nada e tudo nunca é bom. Misture o preto com branco (hoje eu sei que o branco são todas as cores, mas o preto não é nenhuma) e podemos conversar sobre um mundo que está repleto de injustiça e de dor mas, quando olho para o céu na hora certa e na direção certa, posso ver a lua como se fosse o sol: amarela, gigante e atraente. Logo depois, entretanto, ela volta ao seu estado natural de "branco"... No alto, distante, e não mais (aparentemente) próxima de mim. Mas, eu sei: ainda é a mesma lua.
Na mesma fase...
Sinto pena daquelas crianças que querem ser adultas, porque elas estão perdendo uma vida que não vai mais voltar. Eu não sei de onde eu tirei a sopa de letrinhas, mas sei que agora estou com fome e não tem nada pra comer. Pelo menos, posso dizer que enchi a geladeira de sentimentos... E de bagunça. Eu estava no carro, estávamos perdidos.... Na curva, eu avistei a lua. "Hey, look at the moon! We should follow its brightness..." Mais tarde, quando desci a montanha, já havia esquecido completamente de como a lua estava absurda antes. Olhei pro céu, e ela estava como sempre está: cheia, linda, mas normal. Ainda assim... Excepcional. Quando eu era criança, eu sempre olhava para o céu e admirava os astros e as estrelas. Hoje, eu esqueço... Às vezes, enquanto caminho, olho para cima e percebo a vista que estou perdendo por estar sempre focada em seguir adiante, nos meus próprios passos, com medo de tropeçar. Se a luz caminha da estrela até mim, sei que seu reflexo em mim, por mais insignificante que seja, volta para a estrela. Porque não é possível ver sem ser visto, não é possível encarar o espelho sem se olhar... A não ser que eu não mire o espelho. Quando criança, eu brincava por horas de tentar me ver no espelho enquanto desviava o olhar... Eu tentava me sabotar, ou sabotar o mundo, ou a natureza, ou o que fosse… Mais uma memória que eu não recordava, talvez porque essa era uma brincadeira que eu sempre perdia. Também havia aquela que eu fazia quando encarava a luz por muito tempo e depois fechava os olhos... E via cores no escuro! Achava-me mágica, divina, celestial. Hoje, eu sei o porquê. Eu estava errada sobre o que achava ver, mas eu era uma criança pequena em um mundo enorme... Se eu e minha irmã podíamos fazer do mundo o nosso próprio, por que não o faríamos? Olhávamos para a luz, subíamos na cama e fechávamos os olhos: “você tá vendo o que eu vejo? Nós somos especiais!” É, eu sei. De certa maneira, somos todos especiais... fechamos os olhos, e o mundo pode ser o que fazemos dele: pode ser passado, presente, futuro... Pode ser doloroso, saboroso... Pode ser amor, pode ser confusão... Quando comecei a escrever, achava que eu não via nada quando estava de olhos fechados. Eu estava errada, mais uma vez: acho que eu estava vendo tudo, terra e mar, areia e água - morrendo de sono, mas com insônia.
Adulta, mas com tranças de criança.
Quando pequena, associava um dia de semana a uma cor específica. Hoje, não lembro que cor cada dia tinha, só sei que sábado era amarelo, como o sol é, todos os dias; e como a lua é, uma vez ou outra.
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