domingo, 1 de maio de 2016

verde é a cor mais quente

aqui jazem algumas palavras
que, em um dia de chuva e frio, 
juntaram-se para formar um poema
para aquele que odeia poemas e 
odeia a ausência de história

não é um poema de amor
não é um poema de dor
é um poema para quem não se deixa ser lido

ao sol, com o céu azul e nuvens brancas
o livro está fechado, sequer saiu do armário
mas em dias cinzas e com gotas de chuva caindo do telhado, talvez o que esteja escondido seja revelado

e em delírios de febre
(você está queimando, queimando em si, e não queima por mim)
vestígios do outro lado:
se cada pessoa tem um sabor, que outro sabor teria além de azedo?

sabor de medo. medo é o que eu vejo.
eu só não sei do quê… 
o livro está fechado, lacrado, ainda guardado dentro do armário, esperando ser lido, ser devorado, ser amado, respeitado, idolatrado com um roupão vinho e um charuto em dias nublados.

e se poemas não dizem nada,
ao contrário de histórias contadas, lidas, narradas, interpretadas, vividas
e você, aos 22, julga não ter nenhuma história para contar...
pergunto-me, então: 
considera-se um poema?

eu gosto de poemas. 
todos gostam de poemas.
você, não.

não é preciso saber cálculo para perceber
poemas não te atraem porque não contam histórias
métrica, para quê?

bater na parede não resolve
gritar não resolve
a raiva também não resolve
poesia não resolve e poemas não contam histórias

quer saber? foda-se! 
seu lado ar não me engana
eu, que sou terra, já sei: você gosta de juntar as palavras, afinal

se já foi feito, você não quer mais 
se não é para ser especial, é preferível não ser nada
se olha no espelho e enxerga uma pessoa azeda, nega 

a não ser que as noites sejam febris
e a escuridão permita a vulnerabilidade

então, podemos ser doce, salgado, amargo e azedo 
(a parte azeda eu deixo para as suas risadas com humor negro) 

mas os medos da noite não são os mesmos medos do dia
os sorrisos, sim

eu queria me desculpar por misturar poesia e prosa
(coloquei no meio para ficar mais bonitinho)
e por juntar palavras que não lhe acalmam a alma
mas eu não posso fazer isso, porque eu não vejo o azedo que você vê

eu gosto de poemas e você não gosta
e mesmo que eu fosse uma cantora, você ainda não gostaria de mim 
mas você me ensinou que nada disso importa
foda-se, você diz! e você está certo

ao olhar o relógio antes de dormir, hoje, não estarei pensando na hora.
pensarei na chuva,
e em lágrimas,
e na risada irônica:
apenas lágrimas na chuva.

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