Sentir saudade do que não me pertence é mais doloroso do que sentir falta do que ainda é meu, mas que está tão-tão distante.
Não há nada mais amargo do que comer algo que faça mal, e ficar com esse sabor na boca.
Não há nada pior do que ser jogado para trás, sem o menor direito de defesa.
Se sinto tristeza, raiva, amargura, já não lembro mais.
O que me afeta, agora, é a saudade. Saudade do que não existe mais.
Você procurava por um tempo, eu resolvi dar o tempo todo. Cortei todos os fios que nos ligavam, em uma última tentativa de chamar a atenção: como quando você quebrou pratos para se desprender de um amor mal correspondido, ou como quando você chorou no banheiro por uma reprovação em Física. Aquele tipo de atitude que tomamos que não fazem sentido, que não irão trazer nenhum bem, mas que precisamos fazer mesmo assim, só para conseguirmos seguir em frente. Como toda ação requer uma reação.
Com o fio cortado, tudo o que vivemos se torna irreal, como se não tivesse existido realmente - ou pior, como se não fosse verdadeiro o suficiente para sobreviver a um oceano de distância e a 2 anos de amizade. Esse afastamento me faz lembrar do trio de esquilos e da ilusão que eles representaram: lembra aquele dia que comemos coxinha no centro de Niterói e tentávamos entender o que havia acontecido com a pessoa que julgávamos "líder"? Só podia ela ser a estranha, porque: olhe para nós! Juntas somos invencíveis...
É, acho que não.
Busco um jeito de entender, mas não sei se o que aconteceu significa que tudo é passageiro mesmo, ou se eu fiz alguma coisa que desencadeasse esse corte: eu juro que tento lembrar, mas quando um nó é formado, nunca é fácil desatá-lo. Voltar ao estado original é praticamente impossível. É como mergulhar no mar e voltar seca, como quebrar um prato na parede e juntar todos os pedacinhos, como esquecer um amor mais intenso do que rock and roll -, ou esquecer uma experiência mais louca que uma música de Beatles.
A verdade é que eu não tenho ideia se você ainda se lembra de mim, ou se eu ainda significo alguma centelha de amizade para você. Se existe algo inegável, isto é o fato de que nos acostumamos com tudo nessa vida... Inclusive com os desfechos ruins e inesperados.
Não sei porque escrevo. Por todo esse tempo, eu queria que você pedisse desculpas a mim, e não sei nem por qual razão. Por ter me deixado? Ou fui eu que a deixei? Nada disso importa mais. Aprendemos com Harry Potter: malfeito, feito.
Eu só queria que você soubesse que não sei mais como me sinto em relação a você, eu só sei da saudade. Mesmo que este caminho não seja uma estrada de mão dupla.
Quando lembro da sua existência (você sabe tão bem quanto eu dos meus problemas de memória e da minha habilidade de enterrar o que não quero lembrar), sinto alegria e tristeza ao mesmo tempo. Lembro dos seus lindos olhos azuis e da sua beleza que parava qualquer trânsito no Rio de Janeiro, mas que quando se via no espelho, se detestava tanto que era até toxico! Não sei se você ainda é assim.
Não sei se ainda compra amendoim quando está nervosa, ou se ainda desenha nas aulas quando está com tédio. Não sei se você está amando, se esta sendo amada, se ainda diz "tá, beijo, tchau" quando fala com a sua mãe ao telefone, ou se permite a si mesma um lanche da Lekadô depois de uma semana difícil. Não sei quem são seus amigos agora, se ainda puxa seus cabelos quando é dia de prova, ou se conversa com cachorros de rua em forma de latidos. Eu não sei mais quem é você, assim como você não sabe quem eu sou. Quando vim para cá, eu sabia que perderia o contato com muitas pessoas que no fundo não representavam tanto... Mas nunca imaginei que também perderia você.
Só quero que saiba que eu, às vezes, sonho com você. Mas, ultimamente, estes sonhos têm sido só pesadelos.
Quero que saiba que, por mais que estejamos tão distantes, tenho flashes de quando compartilhávamos nossas vidas uma com a outra: nossos sonhos, nossas frustrações, nossos amores, nossas risadas e nossas lágrimas. Até os medos, que na época pareciam tão... Infinitos... Hoje, sinto falta: pelo menos era alguma coisa, melhor do que nada. Sempre melhor do que nada.
Espero que esteja tudo bem. Que você esteja feliz, como eu tenho estado.
Espero que ainda seja tão verdadeira quanto era antes, que ainda seja doce e, ao mesmo tempo, dura. Como aquela rapadura que você tanto amava quando ia para a roça!
Espero que tenha se encontrado em você, e se aceitado.
Espero que esteja em paz com suas promessas, com sua família, com seus amigos e com suas escolhas. Mas, acima de tudo, espero que esteja em paz com você. De verdade DE VERDADE.
Estando aqui, eu descobri que a vida não é sobre a nossa profissão, sobre a faculdade, sobre o trabalho. A vida é sobre viver, clichezão assim. É sobre nunca deixar de viver por medo ou por falta de tempo... Até porque, nós duas sabemos: tudo pertence à nossa mente. Não é só porque está na sua mente que não é real.
O modo como vemos o mundo é reflexo de como escolhemos viver. Com amargura... Ou com amor. Com medo... Ou com a plenitude de se permitir estar bem, como a plenitude que a beleza de olhos azuis da cor de um oceano límpido em pleno ar de maio possui. Como a leveza de ser belo e não saber, ou de esperar uma música linda... E receber mulher profissional em troca.
Como seria diferente?
Existe algo mais sincero do que rir de nós mesmas, até quando tudo dá errado? Já dizia o gato Cheshire: se não importa para onde vamos... Por que o caminho a ser seguido importaria?
Poop. Vai um passatempo aí? Bateu uma onda daqueeeeeelas.

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