Se existisse uma cura para dor, que outra sensação além de alívio, poderia ser bem resolvida?
Se não existe outra solução para fome, além de comer… Por que há dias em que dormimos para esquecer o porquê do nosso estômago reclamar com tanto afinco?
Se eu posso dormir para não sentir mais dor, poderia não fazer isso para sempre? O que tenho perdido estando acordada, além de um mundo que não é nada além de decepcionante?
Se sinto-me presa em mim mesma,
na minha vida sem graça,
nas minhas esperanças destroçadas,
na minha rotina de não acrescentar nada…
Como poderia me libertar?
Se viver não representa mais nada… Por que vivo, então?
Se existissem palavras para sustentar uma alma que vaga, perdida, na Terra, eu iria atrás delas: acontece que eu nunca fui uma caçadora.
Acho que você sabe disso.
Deixo tudo para lá, esperando que um dia passe… Há de passar, ou não irei aguentar.
Queria escrever para você, mas acho que, enquanto escrevo, sou você.
Queria poder acalmar, mas há essa parte em mim, agora que sou você, que não quer fazer nada além de dormir. Minhas lágrimas acabaram.
Fecho os olhos, minha pele é negra e extremamente macia, vejo-me caindo de um precipício que não lembrava existir. Mas, se aqui estou, é porque me joguei.
Odeio-me. Sou tola.
Havia algo lindo, antes. Havia a natureza, havia liberdade, havia esperança de que, do outro lado (agora eu lembro, havia uma ponte)
do precipício,
havia amor e havia a certeza de que eu era amada.
Havia neblina, mas depois de muito esforço da minha problemática descrença da felicidade existente no mundo, a ponte era segura, e o caminho era o que importava.
Fui.
Com medo, mas com mais medo de me arrepender de deixar uma vida completa pela frente pelo simples medo de atravessar uma ponte.
Quais as chances dela cair justamente enquanto estou atravessando?
O que é, já foi. O que há de ser, também já foi.
Não lembro em que momento eu me entreguei. Mas, agora que caio, pergunto-me se o outro lado valeria mesmo a pena.
Não existia natureza onde eu estava?
As águas não eram azuis, os pássaros não cantavam, não havia plenitude?
Eu não lembro.
Enquanto caio, só penso que estou caindo. Como subi no alto do precipício? Ele já não era familiar? Espera… Fecho, novamente, os olhos: mas não me lembro….
Havia mesmo um outro lado? Algum dia?
Havia mesmo alguma ponte? Não estou louca?
Não sei… Não sei de nada, só sei que caio.
Em mim, procuro alguma saída. Quero acordar do pesadelo, quero voltar a ser eu, aquela que tem uma gêmea, aquela que procurava palavras para aliviar a dor de uma amiga de longa data, ou ser eu, aquela que ri de tudo e faz piada, aquela que faz caretas e sorri de maneira engraçada…
Não sei de nada, só sei que caio.
Por um breve momento, perco a vontade de nada: quero xingar, quero bater, quero viver, quero gritar. Guardo tudo, reagir com nada faz o precipício parecer apenas uma invenção… Algo que, com o tempo, vai passar.
Escrevo. Sou eu, novamente, em busca de palavras.
Se existisse um remédio para a tristeza, que ele poderia ser além de felicidade?
Por favor, doutor. Vê-me uma receita deste remédio, não aguento mais este nada que tem me ocupado.
Senhora, não faço nenhum milagre. Não existe receita para a tristeza. Não se compra felicidade.
Então, como pode me ajudar?
Quais são os sintomas?Não sinto nada. Fecho os olhos, quando acordada, e vejo um precipício. Eu caio.
Então… Nesse caso, existe algo. Mas vai dar algum trabalho.
O que é?
Resista. E ame.
Amar a quem?
Ame-se.
Se existisse alguma cura para a dor… Que seria além de sentir alívio?
Tempo.
Amiga, existe uma flecha. Dizem os Físicos que esta flecha controla o nosso universo. Tudo o que acontece, tudo o que fazemos, todas as nossas atitudes… Movem-se em uma única direção. De trás para a frente. Quando choro por um animal que entrou em extinção, é porque sei que é um efeito eterno. Uma ação, uma reação - e, então, a não existência. Quando escolho um caminho, não tem mais volta: se quero voltar e recomeçar, arrependida, tenho que saber que não recupero o tempo. O que isso significa?
A flecha do tempo segue sempre para frente.
Acertando ou errando.
Sendo feliz ou não.
Se pudesse não chorar, não amar, não achar ser amada, não sofrer… Eu escolheria isso. Se eu pudesse não atravessar o precipício, na ponte que não aguenta meu peso, eu não atravessaria mais.
Entretanto…O que seria eu, hoje, se tivesse escolhido apenas olhar o precipício, de cima para baixo, imaginando o que há do outro lado… E seguindo em frente, no meu próprio caminho, na minha própria natureza, que eu nem lembro se era belo de fato?
“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu.”
Já que cai, imagine o que não pode existir lá embaixo, quando abrir os olhos e perceber que a ponte lá em cima era só uma ponte para nada além do que você já tinha antes…
E se, quando tocar o chão, depois de todo o desespero da ideia de cair… Você não perceba que há vida lá embaixo? Que o mundo lá é melhor do que o de cima? Que tudo o que você passou não era apenas uma passagem para o que melhor havia para você na vida?
Agora que cai, você pode ser você.
Depois de ter alcançado o chão, para onde mais você iria? Sei que deve pensar que há apenas escuridão, ou que há monstros lá embaixo, ou que não sobreviveria a queda.
Depois de ter alcançado o chão, para onde mais você iria? Sei que deve pensar que há apenas escuridão, ou que há monstros lá embaixo, ou que não sobreviveria a queda.
Mas, depois de ter sido você, eu voltei a mim e posso te dizer: existe vida.
Existe luz.
Existe um outro mundo, agora que você está renovada e possui outros olhos, outros cheiros, outras emoções a serem sentidas… Mesmo que não queira sentir nada, nunca mais. A verdade é que tudo o que você quer sentir é
a felicidade de ser você,
alguma esperança de que existe um propósito por trás de toda a amargura, de toda a confusão, de toda a complexidade de ser quem você é…
Não se perca em você: lembre-se das estações. Elas existem por um motivo, mesmo que não gostemos. No inverno, as árvores perdem todas as suas folhas. Passam por todo o frio, nuas: mas quando é hora de colorirem novamente… Elas colorem. Nem que seja enquanto durar a primavera.
Não tenho medo
Pois quando eu estiver sozinho
Estarei numa situação melhor do que antes
Eu tenho essa luz
Eu irei em busca de crescimento
Quem eu era antes
Eu não posso lembrar
Longas noites permitam-me sentir
Que estou caindo, eu estou caindo
As luzes se apagam
Permitam-me sentir
Que estou caindo
Estou caindo em segurança no chão
Ah
Vou aproveitar esta alma que está dentro de mim agora
Tal como um novo amigo
Eu sempre saberei
Eu tenho essa luz
E a vontade de mostrar
Serei sempre melhor do que antes
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