quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Sobre sonhos e vagões

Uma multidão
De luzes
De vozes
De gritos e amores,
encantos e desencantos.
Nunca para você, pistoleira. 


Perdida no metrô,

perdida na minha própria sombra. 
Eu deveria ser boa em ler mapas, mas eu acho que só sou boa em dormir e sonhar.
Aproveito-me do calor da lamparina para não congelar. 
Às vezes meus pensamentos são tão gelados quanto este ar que me cerca e que me queima de tão frio que é.

Espero.
3 minutos. Next and last stop... Não ouço o nome da estação.
Vejo o vagão se aproximar: é como entrar no vórtex da minha própria existência. 
Todas as minhas escolhas, tudo o que já me acontecera, todos os mínimos detalhes da minha vida me fizeram parar ali... Em pé, ansiosa, esperando o trem certo chegar. E neste ínfimo instante, questiono-me: Por quê? Pra quê? 
Não sei a resposta. E acho que nunca saberei.
Mas, quando reflito um pouco mais, parece algo bom. Talvez seja porque o céu está sem nuvens.
Sinto sede de aventura e sede pelo desconhecido... Ou talvez seja só a ressaca de ontem.
"Laisa, corre! Você vai perder o trem! Vai ser barrada e ficar flopada!"
Desperto-me. Corro desengonçadamente. Sinto medo da porta fechar exatamente quando eu estiver passando, já que eu definitivamente não faço parte da trupe dos mais sortudos do mundo.
Consigo um lugar, eba! Mais alguns minutos sentada. Ah, se fosse assim em São Gonçalo também...

Olho para a sujeira ao redor dos vagões. 
Leio uma poesia em um cartaz qualquer
Você deve acreditar no que está vendo, isso não pode ser um sonho.

Estamos passando debaixo do rio. Pergunto-me como isso foi possível. 


Faço uma analogia com a vida: estamos sempre ávidos a escolher o "melhor" caminho, mas a verdade é que nunca sabemos qual ele é. A gente até acha que sabe, e geralmente isso está relacionado com o tempo que leva para chegarmos no nosso "destino final". 

Se for a opção mais rápida, então é o caminho perfeito; se tem que descer do vagão, talvez não seja um percurso tão bom assim.... E se tiver que ir para outra estação... Certamente foi escolhido o caminho errado.
Mas é justamente esse o ponto a ser repensado.

Podemos pegar o trem errado e ter uma crise de risos por isso. Sim, isso é possível.
Se pegássemos o certo, talvez a gente só ficasse zapeando no celular, fazendo absolutamente nada. 
Ou, melhor... 
Podemos pegar qualquer metrô e ver o que acontece. Se não der certo, a gente dá um jeito. Sai da estação, vai a pé, dá a volta em vários quarteirões, ri um pouco mais, para no Starbucks pra tomar um café e congela. Mas o importante é saber que tentamos. Agora temos história pra contar (e talvez alguns passes ilimitados para gastar). 
Enquanto a gente não escolhe, tudo permanece possível.
Porém, quando tomamos uma decisão, tudo muda, click. O tempo corre. Sempre pra frente, pistoleiro, sempre pra frente. Nós não podemos voltar atrás, nunca. E muito menos go behind it, mas com certeza é possível contornar essa situação. Acho que é assim a busca pela felicidade funciona: felicidade não é um caminho de uma estação só, não, nada disso; é mais como o metrô de New York para turistas indecisos e meio desligados: é correr atrás, sair entrando em qualquer estação/vagão, errar, acertar por sorte, errar de novo, subir e descer escadas e até achar rabo de rato morto na rua; é ficar melancólico por uma música estar sendo tocada de forma desafinada ou chorar de rir por alguém ser barrada. 
É o caminho que importa.
A felicidade é sobre achar a beleza em um canto sujo só porque está mais quentinho.
É sobre milho virar pipoca e frango virar frango assado de padaria. 
É sobre conseguir capturar um gelinho, mesmo o gelinho não sendo neve.

Luzes que rodopiam, embaçadas... Preciso mudar o grau do meu óculos... 
Ah, como eu amo essa cidade.
Cidade grande, louca, rica, pobre, cheia de altos e baixos, uptown e downtown, frio e calor, amor e solidão. É estar tão feliz e contagiante mas ao mesmo tempo ser mais esponja do que tudo no mundo. Super saturada, sempre. Para o bem e para o mal.

É o paradoxo de se estar no meio de uma multidão ávida por compras, enquanto você só quer observar a magia e a pluralidade das luzes e dos telões. Só isso.

Pisco. Observo o vagão ir embora. Flopei.
Por um instante, o barulho do trem se aproximando soa como chuva de verão no asfalto. Sonho de saudade, eu acho.
Next and last stop...
Não ouço, perdi-me lendo um cartaz de poesia. Entretanto, resolvo entrar assim mesmo, só pra ver onde vou parar. 
Se der certo, deu certo. Se não der, a gente dá um jeito.


Passam-se alguns minutos. Sinto frio e sinto sono... Preciso dormir.
"Laisa, acorda, a gente já chegou... Você vai ser barrada." Eu e a minha capacidade de dormir e sonhar em qualquer lugar.
Acordo no susto.
Afinal de contas, chegamos!
Observo as luzes da cidade grande enquanto penso num cobertor quentinho e chocolate quente... 
Daqui a pouco já é hora de dizer adeus. De novo.

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