quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Sobre o solstício que se aproxima

Sonhos nunca são em vão, nem mesmo quando não me lembro deles.
Fecho os olhos, e forço a memória: o que deixo para trás no meu inconsciente? 
Durante o dia, avisto apenas alguns vislumbres do outro lado. "Pisque e você está morto". Pisco lentamente: um misto entre desafio e fraqueza, e não só continuo viva como também posso ver o que está além do que minha mente tenta esconder a qualquer custo. 
Um engarrafamento, uma estrada tortuosa na montanha, e eu: descalça, sem fôlego, subindo à pé desesperadamente entre tantos carros parados. Não entendo nada, tudo está debaixo d'água. 
Será que é assim que eu morro? Afogada... Mergulhada... No mar que eu mesma criei, na imaginação que me perturba durante a madrugada.
No outono, mas com um frio típico do inverno.
Achei que já havia sentido frio antes, nunca me iludi tanto. Não há nenhuma roupa que eu vista que realmente me mantenha aquecida: observo as folhas; árvores têm nomes, como humanos, mas cada uma é uma, mesmo sendo todas apenas árvores perante os seres pensantes. 
O frio queima, a insônia dói. 
Permito-me ser vista, tal como as árvores se deixam ser identificadas com um certo livro e uma certa estratégia, mas sou tão confusa que posso ser mil em apenas uma, e nunca como gostaria, especialmente nunca como gostaria. 
Estas folhas são simples ou compostas? Não consigo descobrir, o vento sopra as folhas para longe. Como poderei identificá-las, então? Se as folhas mudam conforme as estações, como é possível que, ainda assim, formem uma paisagem digna de plena e maravilhosa admiração? 
No jardim, há folhas de todas as cores, flores de todos os aromas, incluindo o aroma de nada: apenas de ser, de cumprir o seu papel, de transformar algo tóxico no ar em substâncias necessárias para viver, na energia para continuar, seja lá para onde e porquê, apenas fotossintetizar. 
Está tão frio que é difícil respirar. Mal consigo me mover de tão vestida que estou. E, ainda assim... Onde está meu calor? "Eu estava perdido no escuro e você me encontrou. Eu estava com calor – com tanto calor – e você me deu gelo"
Durmo de sutiã, de bota e de cinto. Incomoda, mas não perco hora de sono por algo tão banal. Se, quando tiro, sinto-me melhor,  sei que é apenas algo passageiro. O conforto "acostuma",  assim como a dor, a confusão e o amor são facilmente adaptáveis. 
As festas surpresas me causam vertigem até a hora em que eu descubro que deu tudo certo ou tudo errado.
Subo a montanha, não sei se nado ou se ando.
 Faz alguma diferença, no final das contas? Se estou a pé, descalça e subindo, por que um engarrafamento está me atrapalhando? Não é para mim, ainda bem que eu saí dessa estrada. Talvez eu saiba, lá no fundo, que estou apenas à deriva em busca de alguma identificação, em uma estrada inundada de água que não haveria como existir se não fosse por mim mesma. Como árvores em um dia de outono, que perdem todas as suas folhas pouco a pouco, dia após dia mas, ainda assim, querem ser descobertas. 
Mas eu sei... Não é possível saber tudo. Nomes são apenas nomes, senhoras árvores. Deixem-se levar pelo vento, mas não se entreguem ao frio. Sei que quando uma árvore está nua é quando mais precisa de suas folhas, mas faz parte da natureza se deixar ser levada para, um dia, quando a primavera se aproximar, poder retornar, fortalecida.
As estações não podem ser evitadas. Não só de verão vive o mundo, e nem apenas de noites calorosas vivem as pessoas.
Demoro, mas aceito o frio de hoje.
O outono é lindo, mas tem seu custo: assim como não há sorriso que não seja acompanhado por lágrimas de vez em quando. É só olhar para o chão para entender: tanta vida, colorida, derramada... E as minhas queridas árvores esperando serem amadas: ainda que nuas, tristes e, aparentemente, sem vida.

Old Main, University of Arkansas

Pela primeira vez em muito tempo, não sei  o que dizer. Escuto o silencio, em mim. As palavras foram cortadas antes de saírem. Eu mereci. Quem não aceita a vida, é cegada por ela: seja pela escuridão ou pelo excesso de luz. Sem amargura, sem veneno. Apenas uma singela tristeza de outono: quando as lindas e coloridas folhas caem e deixam as árvores vazias para o futuro. No frio. Fecho os olhos, em busca de lembranças (paz). Tudo o que eu enxergo é um pêndulo, uma porta, uma chave. Desta vez, não é sobre pistoleiros e torre negra, é sobre mim. 
Sou a última a sair (entrar): fecho a porta, tranco-a. 
Agora estou segura novamente (em mim). 
Só não sei se, desta vez, queria estar.

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