Se eu não faço sentido, como minhas palavras poderiam fazê-lo?
Sem alarmes e sem surpresas, por favor.
O oceano no começo do caminho reflete o tempo: uma face conhecida; a minha própria cara: borrada, confusa, disforme e levemente perturbada pelas ondas. O que parece ser não é necessariamente o que é. O que pareço ver não desvenda o que há por trás da escuridão. Quantos mistérios o oceano não esconde? Seu azul, seu frio, sua vida. Parece infinito, mas não é. Parece perpétuo, mas eu sei que um começo requer um fim. Fecho os olhos, em busca de lembranças: antes era tão singelo, tão simples, tão leve como uma brisa que vem do mar...
O vento carrega minha própria loucura.
Escuto o silêncio. Em mim, ouço o barulho das ondas. Na minha imaginação, avisto um barco. Neste barco, há uma criança. Se, para ela, uma concha encostada no ouvido ecoa o mar, mesmo que na casa da avó em plena cidade grande, por que a memória de uma vida idealizada não ecoaria por meio de lembranças que eu nem sequer podia imaginar ainda lembrar? A maré cheia e a maré baixa, quase consigo sentí-las em mim... Em um momento, estou completa. Noutro, vazia, apenas cheia de mim. O perfume é de pura nostalgia, com a fragrância de quem eu era, mais perdida do que nunca, por mais tempo do que gostaria.
Agora, não sinto nada. Por muito tempo, esta era a minha única vontade na Terra: que a maré abaixasse, que o mar esvaziasse, que eu me tornasse uma ilha de mim. Apenas eu, e o mundo, e o mar que não dependia de ninguém.
Eu consegui.
Flutuei como um continente, independente.
Pedaços de terra que eu nunca entendi. Estão eles soltos ou fixos ao mar? São vazios de água ou cheios de terra? Profundos ou rasos?
Eu achava que podia ser misteriosa como o oceano, mas identifico-me mais com a complexidade e dualidade da terra. Na praia, ondas do mar e partículas de areia.
A zona costeira abriga grande parte da vida.
É lá que eu mergulho.
Fecho os olhos para que o sal não me machuque, e tento me encontrar na natureza enquanto não posso enxergar com meus olhos cegos de humana... A minha audição está incrível: sei que, por aqui, o som caminha mais rápido que no ar. A minha vontade é sorrir para mim e rir de mim, mas tenho medo de me afogar.
Parte de mim sabe que isso é impossível. Como não seria? Eu faço parte do mar.
A confusão é o que me move, meu caos é a minha barbatana para seja qual for meu destino. Por um momento, quero ser peixe e viver só por sobreviver e ser feliz assim. Em outro instante, quero ser eu e abrir os olhos na escuridão: a dor da água nas minhas pupilas era prevista, mas saber da dor não a impede de acontecer mesmo assim. O que fazer? Deixar de nadar por isso? De enxergar no escuro por medo da falta de luz me queimar?
Abro os olhos, e o caos que eu esperava era na verdade lindo e caloroso. Eu posso ver o contrário acontecer, um flashback da minha própria visão que, em um dia triste, já me fez chorar: um tubarão sem barbatanas se afogando no próprio lar - cercado com seu próprio sangue. Depois, avisto um pescador com o tubarão nas mãos, gélidas e cruéis, e não entendo o que está acontecendo: a desordem cronológica, há de ser... Eu não estou aqui, isto não está acontecendo. Por fim, enxergo este mesmo tubarão, no seu antes que, agora que sou o mar e vivo nele, é depois: cheio de vida nadando livremente no seu próprio mar.
Eu vi o tempo de frente para trás: relativo, subjetivo e intrigante, como o reflexo de uma face na água.
Se eu não usasse óculos, diria que este reflexo era meu com toda a certeza como a vida é tão absoluta quanto a morte. Mas eu, por natureza, vejo tudo distorcido: nunca estou certa de absolutamente nada, ou de relativamente tudo. Não sei se sou o mar ou a terra, se estou satisfeita ou se sou insaciável. Quero ser livre de mim mas, ao mesmo tempo, não quero estar presa em alguém que não seja eu.
Aceito o seu pedido de jantar, mas estou bem beijando outro.
Considero a sua oferta de casar... Mas o que exatamente isso quer dizer? Eu não sei cozinhar, só sei comer. Você sabe disso tão bem quanto eu, você enxerga a Verdade como se fosse um Deus.
Minha mãe sempre me dizia para não confiar no mar, porque ele é traiçoeiro. Ela está certa... Mas, e se eu quiser me jogar? E se eu for o mar, e não terra, como pareço ser? Não confie em mim, não sou suporte: sou o mar, não tenho cabelos para impedir ninguém de se afogar.
Nem tudo o que parece, é.
O gato da caixa está, afinal, vivo ou morto? Pelo que aprendi, até abrirmos a caixa, ele morre e vive ao mesmo tempo.
O que isso diz de mim? Sou eu um gato?
Preso na minha própria caixa?
Na minha própria concha, perturbada pelas minhas próprias ondas?
Eu não sei.
Sei que eu amo, sei que sou amada, sei que já amei.
Esqueci suas cartas. Desisti da sua amizade porque você não tinha tempo para a minha. Fechei-me em mim, engoli a chave, e estou bem assim.
Entretanto... Há um vento por trás da fechadura. De onde vem? Deste mundo ou de qualquer outro insignificantemente existente? São ecos, não tenho dúvidas. Ecos do que? Do presente, do passado, do futuro? De um amor mal resolvido? De um amor bem definido? Ou de pedaços de amores, retalhos meus e seus, sentimentos nossos que não fazem sentido algum separados, mas que juntos também não significam nada?
Não quero mais pensar, não me leva a nada. Fecho os olhos, e sou uma criança perdida no próprio mar que criou para se refrescar no verão.
Eu escolhi isso, mas perdi o controle.
Nada é definitivo, só não sei se isso se aplica ao fim também... que eu tinha certeza, como um amor de uma criança por um pônei, que havia acabado.
"Coloque uma pedra nisso", é o que dizem.
Esquecem-se de que os fósseis são formados assim. A pedra põe um fim, mas deixa eternas marcas.
É o intemperismo das ondas, a erosão, modificando o ambiente, substituindo o antigo pelo novo, destruindo o conhecido para formar o misterioso. É físico, mas também é químico.
É para o futuro, mas é moldado pelo passado. Como um leãozinho descabelado é impossível de ser esquecido: aquela visão, os sorrisos, o eco na concha, a loucura da idéia de amar e ser amado.
E que, hoje, diz estar comungado.
União de almas, idéias, livros e comida. Cúmplices na vida, fugitivos da polícia. Na natureza, selvagem, Pink Floyd (do passado, do presente) como trilha sonora enquanto compartilhamos alguma poesia. Escrevo pra você, e digo que está tão belo dormindo que não deve ser acordado. Ou foi você que escreveu pra mim?
Eu não sei.
Apenas achei este bilhete em um de seus livros favoritos, quando invadi uma vida que não era minha, quando entrei no quarto de um cara que não era meu.
Mas não nego, diverti-me.
Talvez tenha sido um vislumbre por trás do que o oceano esconde. Um dos mistérios que nunca podem ser revelados. Como um déjà vu, uma pontada da minha imaginação. Sei que, em breve, será apenas uma lembrança que nem sequer lembrarei: como o interruptor da minha antiga casa e o click que tanto me incomodava, como a vida que eu vivo agora será apenas vista na minha memória, depois de algum esforço, quando eu voltar para o mar.
Apenas mais um mergulho.
Um mergulho mais longo, onde eu respiro embaixo d'água e vejo por entre a escuridão. Nesse oceano, o som do vento parece com o som de chuva. O silêncio, às vezes, faz barulho... Eu existo, mas ainda sou tão difusa quanto o reflexo da minha própria face na água é, ou aparenta ser.
Eu sinto... Só não sei o que.
Eu sinto... Só não sei o que.
O que me tornei? Meu mais amável amigo, todos que conheço, acabam indo embora.
Você podia ter tudo isso.
Meu império de sujeira.
Vou te decepcionar.
Vou te fazer sofrer.
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