Viu como eu sou cheia de negações? Hora de seguir o conselho principal,
meu caríssimo leitor (que provavelmente não existe, ou pertence à alguma
dimensão paralela à essa. Olá!)
(...)
Ser cobrada para escrever não é necessariamente o que eu preciso agora.
Eu não sei o que eu preciso para mudar. Parece que as palavras não
gostam de mim, elas simplesmente fogem [insira
algum clichê qualquer sobre velocidade, acho que diabo foge da cruz é
apropriado]. É estranho: eu estava com milhares de ideias cintilando em
minha mente perturbada e cansada, mas é só abrir o Word que... Puff! Tudo
simplesmente desaparece. E quando isso acontece, qual é a solução? Não, a
solução não é continuar a nadar. A solução é escrever sobre o fato de não
conseguir escrever. É um ciclo; uma forma de desviar a atenção para o problema
principal. E qual é o meu problema principal? Eu acho que não sei, e acho que é
por isso que não consigo escrever. Ora... Eu posso falar sobre qualquer coisa
agora! Minha rotina (tão chata e ao mesmo tempo reconfortante!). Ou sobre o
vazio, o zero, o nada (questionamentos intrigantes tão frequentes em mim, que parece
que eu curto ter uns pensamentos loucos que só trazem mais loucura à minha
existência). Ou melhor: posso falar sobre o falar, e é exatamente o que estou
fazendo agora. Ah, essa compulsão! Torna tudo o que eu faço tão desvalorizado e
insano quanto eu sou. E eu não sou o que escrevo, ou o que como, ou o que ouço.
Por enquanto, sou apenas um poço, talvez à espera de ter alguma utilidade, ou
de ser preenchido. Deprimente? Sim, muito provável. Trágico? Acho que não, é a
minha realidade e não há nada a ser feito. Eu posso começar centenas de
metáforas sobre isso, mas é perda de tempo. Acho que eu devo parar. Não está
saindo do jeito que eu quero. Não consigo pensar limitando a quantidade de
caracteres por segundo que eu posso digitar sem perturbar quem está dormindo
perto de mim. Além do mais, não consigo lembrar o que eu queria lembrar que era
o que eu ia escrever. Agora... eu devo parar. Nunca mais voltarei aqui,
palavras criadas, mundo criado (neste caso, nem, mas acho que é bom).
Preciso
reinventar. Sair. Fugir. É, acho que fugir é a melhor opção. Para onde, se
estou presa aqui? Preciso pegar tudo o que puder – só não sei ainda o que é,
pois não descobri. Mas acho que não há refúgio. P. Sherman, 42, Wallaby Way,
Sidney, talvez? Não, acho que não. Nárnia? Não, estou sem o guarda-roupa (e, na
verdade, não consigo mais pensar neste paraíso sem remeter a cogumelos,
infelizmente). Terra Média? Não, muita movimentação por lá. Torre Negra? Não,
os Feixes estão caindo, a desordem está absurda... Então, Hogwarts? Não, muito
menos, a estação King’s Cross está muito longe, e não tem nenhum carrinho
voador pra me ajudar... É, acho que resta apenas a realidade cortante e a minha
própria mente. Devo fugir logo.
Estou com vergonha deste texto, está absurdo. Não deveria me prender a
essas palavras, mas não quero mais apagá-las. Uma vez escritas, jamais
“desescritas”, não há nada que a gente possa fazer (Que dirá a Jess, não é
mesmo?). Chorar! Acho que é isso que eu devo fazer. Não, não há porque, está
tudo bem, acho que sempre foi assim. Nada pra sentir, espero outro dia vir...
Mas, mas, espere! Acho que a solução ideal é rir. Rir? Mas de quê? Não há nada
pra rir. Ora, mas não há nada pra chorar também e você aceitou muitíssimo bem.
(É porque eu sou estranha, sabe como é). Eu posso até rir, mas preciso saber do
que antes! Não é legal rir dos outros, nem da gente mesmo, aliás. Opa, do que
eu estou falando mesmo? Não sei, sou boa em desvirtuar assuntos assim! E agora
eu estou cansada. Acho que preciso dormir, mas eu parecerei uma macaca de
imitação...
Percebi que escrevo mal – aliás, eu acho que no fundo já sabia disso. É
difícil conectar ideias. Ou, talvez, eu mal tenha tentado. Eu acho que este
texto reflete alguma coisa sobre mim: meu estado de espírito, talvez. Minhas
incertezas. Meu poço meio vazio. Minhas insanidades – ora propositais, ora não.
Eu não sei, acho que isso é um bom começo. Saber que não sei. (!) Contradições
me definem, mas não. Porque eu nem sei me definir. Ora, veja, aqui vai mais uma
contradição para a lista de contradições da senhora nariz de batata 2!
Triste fim de Policarpo Quaresma. Por enquanto é tudo, pessoal. Obrigada pelos peixes. Desculpe o incômodo, eu não sei quem sou. Mas você sabe quem eu sou eu e eu digo obrigada, é reconfortante, de alguma forma, entender que você me entende. Mas acho que você não existe. Acho que essa loucura só pertence a mim. É o meu ka. Não consigo reproduzir em palavras o que eu penso, o que eu acho, o que eu sinto – talvez eu sequer tenha tentado, não é relevante. Mas... por ora está tudo bem. Estou indo, então. Há outros mundos além destes.
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