Em uma ensolarada tarde de domingo, uma garota ocupava o seu tempo estudando. Às vezes, ela se perguntava a relevância disso para sua vida, mas era mais uma pergunta sem resposta. Mais uma questão que não conseguia resolver - familiar neste dia com tantas questões de Mecânica sem resolução. Familiar demais.
Mas esta não é a história desta garota.
É a história do X. O X da questão (de Mecânica).
X é uma criatura solitária. Sua existência, apesar de muitas vezes atormentar os estudos da garota, não é essencial para nada ou ninguém - assim pensa X. Por incrível que possa parecer na vida de uma incógnita, X possui um nome: Tudo. Alguns poderiam achar prepotente, mas para Tudo seu nome é apenas o reflexo da sua limítrofe vida. Tudo também possui um lar, apesar de não gostar muito dele.
Talvez você não entenda, mas é um pouco complicado viver entre mundos.
Tudo vive na fronteira, na superfície. A fronteira entre duas dimensões - o que está dentro do papel e o que está fora dele. Está destinado a viver ali para sempre. Tudo se questiona mais do que deveria para uma simples incógnita de uma não tão simples questão. Está sempre a pensar no que estaria de um lado ou do outro. Tudo o que Tudo consegue ver são reflexos destes dois mundos, de forma distorcida.
"Se eu pelo menos pudesse ir para um mundo ou outro, ao menos uma vez... Como não consigo sair daqui? Como é possível que algo esteja aparentemente tão perto, mas inalcançável? Qual mundo será mais lindo? Em um, há setas demais. Mas parecem caminhos para a felicidade... E, no outro, há esta garota. Às vezes parece-me que há duas. E vida de verdade, não esta prisão em que nada é palpável... Se eu pudesse, ao menos uma vez... Nem que isso custasse toda a questão..."
Eis que um dia algo inesperado aconteceu.
Para Tudo, foi como se houvessem criado uma porta para a liberdade. De fato, havia uma porta. A garota a havia desenhado, apenas como uma forma de se distrair da questão dos vetores em três dimensões que a fez perder todo um dia de domingo...
E lá foi X. Tudo foi para o Outro Mundo. Tudo atravessou a porta.
Talvez você pense que foi uma travessia fácil, afinal, a porta é só uma passagem, só um desenho em uma folha... Mas para Tudo pareceu durar infinitamente.
Isso causou um certo espanto, porque Tudo poderia jurar que este outro mundo era perto demais, assim como o mundo da garota. Mas Tudo não sabia tudo, era apenas um X em uma questão. X desconhecia o fato de que as folhas de papel eram feitas de árvores. E árvores são as criaturas mais lindas e deslumbrantes, e fazem o mundo da menina ter vida. Sem querer, apenas em uma viagem de passagem, Tudo descobriu maravilhas... A viagem através da árvore e sua história, seu verde, suas águas, suas flores... Até a sua morte para se transformar em folhas abrigadoras de histórias e também de incógnitas. Tudo quis chorar e agradecer a porta por permitir que conhecesse tamanho infinito. Enquanto ia para o mundo dos vetores (e o da questão em si), Tudo pensou como é incrível a trajetória, e se perguntou como seria o final capaz de superar a beleza do caminho.
Eis que Tudo chegou ao mundo das Setas.
Eis que Tudo chegou ao mundo das Setas.
Infelizmente, não é um mundo que esteja ao meu alcance. Pertence somente aos vetores, aos números e à imaginação de todos os pensadores. Mas o que eu posso dizer é que lá existem as respostas para todas as perguntas. Lá, todas as variáveis tornam-se constantes. Lá, um ponto representa tudo. Lá, X não está sozinho nunca, e o céu é um mar de peixes integrais, e o mar, um céu de pássaros derivados. Tudo permaneceu lá enquanto pode, aproveitando cada minuto como se fossem infinitas horas e não apenas sessenta segundos.
Mas há um momento em que é preciso voltar à realidade. É preciso voltar para a casa, mesmo que não pareça uma boa escolha. No mundo além da superfície da folha, Tudo percebeu que havia uma função para a incógnita de uma questão. A garota do outro mundo precisava de X. Tudo voltaria por ela.
Mas há um momento em que é preciso voltar à realidade. É preciso voltar para a casa, mesmo que não pareça uma boa escolha. No mundo além da superfície da folha, Tudo percebeu que havia uma função para a incógnita de uma questão. A garota do outro mundo precisava de X. Tudo voltaria por ela.
Quando Tudo retornou a sua superfície, ou melhor, ao seu lar, não restara muito. Não havia mais porta nem garota, o que preocupou Tudo, pois o seu sumiço pode ter feito com que ela desistisse de solucionar o problema em que estava inserido. Tudo quis ter lágrimas para chorar, ou garganta para gritar pela garota, mas era apenas um X, uma incógnita, para sempre, e que parecia ter perdido um de seus mundos, um de seus espelhos, a visão da garota...
Neste momento, percebeu que algo estava vindo em sua direção - vinha do mundo dela. "Havia a garota voltado? Mas, então, por que está tudo sumindo ao meu redor? O que está acontecendo?"
Tudo estava sendo apagado.
"Esta questão nem é tão importante para a prova, é melhor eu apagá-la e fazer outra..." Era a voz da garota. Algo branco a acompanhava. Era um apagador de mundos.
Tudo foi apagado pela borracha.
Talvez você se pergunte "O que irá acontecer, então? Mais uma viagem pela infinitude das árvores, agora na borracha?".
Eu não deveria responder... Algumas questões não devem ser respondidas nunca. Mas tudo bem.
Tudo está bem.
Tudo encontrou o Nada.
Nenhum dos dois está sozinho agora.
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